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Desde a elaboração das atividades, que seriam propostas no curso “Tendências em Educação Matemática”, foi possível notar que o fato de ter sido

sugerido o uso do software Wingeom para o desenvolvimento dessas atividades sobre geometria espacial, poderia acarretar algumas transformações em todo o processo. Ao elaborar as atividades, por exemplo, percebi que elas deveriam ter um outro design, já que o objetivo era propor atividades investigativas, abertas e que oferecessem possibilidades de serem vistas sob diferentes aspectos ou diferentes modos de exploração.

A natureza do curso, via Internet e a distância, também condicionava o modo de propor as atividades, uma vez que eu, enquanto professora do curso, não estaria presente, fisicamente, no decorrer do desenvolvimento das mesmas para esclarecer dúvidas sobre como utilizar o software ao realizarem as construções geométricas. Além disso, havia o fato das discussões também serem a distância, por meio de um chat, e isso impossibilitava aos participantes mostrarem suas construções aos demais colegas e explicar a eles tendo a construção como apoio, pois por mais que cada um também tivesse realizado a sua construção, nada garantia que ela era a mesma para todos e, muitas vezes, quando se busca explicar uma investigação parece haver a necessidade de fazê-lo mostrando a construção geométrica. Diante disso, neste curso, muitos tiveram que usar a imaginação. A partir dessa característica do ambiente comunicacional, se constituiu um coletivo de seres-humanos-com-Wingeom no decorrer do desenvolvimento das atividades e esse coletivo pode ser estendido para seres- humanos-com-Wingeom-com-chat quando me refiro ao momento de produção matemática que ocorria durante as discussões na sala de bate-papo.

No episódio “A Matemática com o Wingeom: seres-humanos-com-Wingeom” é evidenciado como este software passou a fazer parte de um coletivo pensante seres- humanos-com-mídias, conforme propõem Borba e Villarreal (2005). A meu ver ele pode ser identificado quando cada participante pensava com o Wingeom para desenvolver as atividades. Nas cenas apresentadas com respeito à visualização, investigação, elaboração e validação de conjecturas, são observadas as diferentes maneiras que o Wingeom foi utilizado, sendo que com relação às construções geométricas, as atividades apresentavam todos os passos a serem seguidos para que ela se efetivasse.

Sendo assim, a produção matemática que se deu durante o desenvolvimento das atividades foi condicionada pelo Wingeom. Cada um dos participantes podia realizar as investigações em seu tempo, já que elas eram enviadas com uma semana de antecedência ao encontro síncrono. Durante o desenvolvimento das atividades, este software oferecia a cada aluno-professor, individualmente, as possibilidades dinâmicas e experimentais que eram qualitativamente diferentes daquelas oferecidas por outra tecnologia. Neste aspecto a produção matemática acontecia por meio do coletivo participante-com-Wingeom. Após a investigação cada um podia organizar suas soluções e disponibilizar aos demais em seu portfólio no ambiente TelEduc, para a posterior discussão, porém isso nem sempre acontecia.

Diante disso, a minha visão com relação à produção matemática desenvolvida por esse coletivo, tem como principais indicativos aquilo que os alunos-professores apresentavam no chat. A produção matemática evidenciada durante as discussões, ora apareciam como descrição acerca do desenvolvimento das atividades, ora de maneira sistematizada, ou seja como uma demonstração e, em outros momentos, como uma conversa informal. Uma outra forma de identificar como se deu a produção matemática com o Wingeom, era analisando as resoluções das atividades disponibilizadas nos portfólio, como já disse, nem todos realizavam esse procedimento.

Entretanto, no momento da discussão no chat havia múltiplas mídias e diferentes coletivos atuando, de modo que a produção matemática que cada um havia realizado era resignificada, moldada, condicionada durante a socialização e, assim, o processo de produção matemática continuava. Borba e Villarreal (2005, p. 24) defendem que “novas tecnologias da inteligência resultam em novos coletivos que produzem novos conhecimentos, os quais são qualitativamente diferentes dos conhecimentos produzidos por outros coletivos15”.

Acredito que uma reorganização, no sentido de Tikhomirov (1981), acontecia no momento da discussão, bem como era evidenciada a criação de um coletivo inteligente que pensava com o Wingeom, socializava, ou seja, pensava em conjunto e

reorganizava o pensamento. Como afirma Gracias (2003), novas possibilidades são oferecidas pelas tecnologias digitais. Segundo essa autora, a disponibilidade da tecnologia digital permite que potencialidades sociais e coletivas de cada um se desenvolva e possa ser ampliada reciprocamente. Deste modo, pode haver a construção de um grupo em inteligência coletiva, como propõe Lévy (2003).

Sob esta ótica, pude perceber que quando se trata de produção matemática em ambientes virtuais, e mais que isso, utilizando softwares educacionais, torna-se necessário repensar os modelos de atividades que serão propostas. O que se nota é que em contextos como o desta pesquisa, é que novas maneiras de propor, desenvolver e discutir atividades de matemática estão sendo evidenciadas. Como já constatou Lopes (2004), em sua pesquisa, em um ambiente virtual no qual alunos desenvolveram e discutiram atividades sobre transformações geométricas utilizando o software Cabri-Géomètre II, aquelas que não se mostraram situações-problemas e desafiadoras não suscitaram discussões.

Nesse sentido, mesmo com alguns avanços no âmbito da Educação Matemática à distância, ainda há a necessidade de discutir qual o tipo de pedagogia mais adequadal para ambientes virtuais de aprendizagem, no que tange à produção matemática. Pensar sobre como propor atividades, de acordo com as mídias disponíveis, é um ponto inicial. Além disso, observei que, o fato de existirem dois professores liderando o curso também foi fundamental, uma vez que um curso à distancia demanda feedbacks mais freqüentes aos participantes (e-mail, responder e criar fóruns, suporte técnico, entre outros).