Se no âmbito da filosofia e da epistemologia o conceito de objec- tividade está associado à apropriação do objecto de conhecimento pelo sujeito de conhecimento, para o campo jornalístico o con- ceito é diferente e corresponde à noção de que as notícias podem ser o espelho da realidade, desde que sejam usados procedimen- tos de objectivização do discurso. Esta noção de objectividade radica no senso comum. A forma como os jornalistas encaram a realidade, porém, nem sempre foi a mesma. Em consonância, o conceito jornalístico do que é a objectividade também sofreu mo- dificações ao longo do tempo. Uma das maneiras de perceber o alcance das transformações históricas do jornalismo é reparar na evolução que o conceito de objectividade teve para os jornalistas. Enquanto os filósofos e os epistemólogos cedo argumentaram que é impossível alcançar a objectividade, isto é, que é impos- sível para um sujeito adquirir conhecimento total e perfeito de um objecto (lembremo-nos da Alegoria da Caverna, de Platão), os jornalistas tardaram a descobrir que as notícias nunca pode-
riam ser o espelho da realidade. De facto, só nos anos sessenta do século XX, com o segundo modelo de Novo Jornalismo, é que alguns jornalistas importaram para o campo jornalístico a ideia de que a objectividade, entendida como o espelho da realidade ou a apropriação integral do objecto de conhecimento pelo sujeito que conhece, pode ser uma meta mas não uma meta alcançável. O problema é que a falsa noção de que as notícias são objectivas porque espelham a realidade se entranhou na cultura jornalística. As notícias como "espelho da realidade", porém, como demons- trou Tuchman (1978: 82-103), apenas correspondem à confecção de uma "teia de facticidade"em volta do acontecimento noticiado. Para grande parte dos jornalistas, objectividade é essencialmente descrever factos verificáveis e verificados, citar fontes credíveis, contrastar fontes. Com estes procedimentos, atingiriam a objec- tividade. Porém, estes procedimentos rituais (Tuchman, 1972) não correspondem ao conceito de objectividade filosófico e epis- temológico. Conforme evidenciou Tuchman (1978), apenas são instrumentos a que recorrem os jornalistas para se defenderem de críticas e de processos judiciais.
Repare-se que não é por se dizer que o primeiro-ministro anun- ciou que a inflação desceu 6,9% que se está a ser objectivo. Ex- plicando, em primeiro lugar, nem sempre há acordo sobre as taxas de inflação. Várias entidades podem referir taxas diferentes por- que calculam a inflação de maneira diferente. Em segundo lugar, o cálculo das taxas de inflação é sempre imperfeito, porque não se considera a evolução de preços de todos os produtos e servi- ços (isto seria impossível). Em terceiro lugar, e agora recorrendo a um conceito da epistemologia da matemática, para se validar o sistema de cálculo da inflação teria de se recorrer a um sistema externo, mas para se validar este segundo sistema, teria ainda de se recorrer a um terceiro, externo ao segundo, e assim sucessiva- mente, até ao infinito. Em quarto lugar, o discurso não é neutro. A escolha das palavras e a ordem dessas palavras traduzem juí- zos de valor a que o jornalista não se consegue furtar. Ao escre- ver "o primeiro-ministro disse que a inflação cresceu 6,9%"já se
está a dar mais destaque ao primeiro-ministro do que à inflação. Em quinto lugar, o primeiro-ministro pode estar a mentir, em- bora seja uma fonte credível. Em sexto lugar, escrever-se que o primeiro-ministro disse que a inflação desceu 6,9% não significa conhecer todas as circunstâncias dessa revelação, causas e con- sequências, todos os fenómenos relacionados, porque isso tam- bém é impossível. É factual, rigoroso e não ficcional dizer-se que o primeiro-ministro anunciou que a inflação desceu 6,9%, mas não é objectivo simplesmente porque não pode ser. O sujeito de conhecimento pode pretender que o objecto de conhecimento seja referencial. O objecto de conhecimento pode sobrepor-se ao su- jeito de conhecimento. Esta opção pode transparecer no discurso devido à rede de factualidade tecida pelos jornalistas. Mas não existe objectividade jornalística, se por objectividade se entender o respectivo conceito filosófico e epistemológico de apropriação integral do objecto de conhecimento pelo sujeito que conhece.
Nos primórdios do jornalismo, o jornalista fazia as notícias como se fosse omnisciente. Como se tudo soubesse, como se não tivesse falado com fontes de informação e como se tudo tivesse presenciado. Não citava fontes. Porém, em determinadas situ- ações o jornalista terá começado a ser surpreendido com várias consequências daquilo que noticiava:
• Mostravam-lhe que a notícia que tinha divulgado estava in- correcta ou que era mentirosa;
• Mostravam-lhe que os factos em que se tinha baseado, e que lhe tinham contado, eram falsos;
• Quando se demonstrava que a notícia estava errada, ou- via críticas dos seus superiores e, em países como os Es- tados Unidos, arriscava-se mesmo a ser processado judici- almente. (Tobias Peucer já advertia os jornalistas do perigo de darem notícias falsas ou erradas, em 1690, na sua tese doutoral sobre os jornais da época.)
Michael Schudson (1988) explica, assim, que o conceito de objectividade nasceu como um método concebido em função de um mundo em que os factos eram desmerecedores de confiança. O carácter da objectividade como método ancora na ideia de ob- jectividade como ritual estratégico, postulada por Tuchman (1972). Ou seja, os jornalistas, necessitando de transformar rapidamente acontecimentos em notícias, foram gradualmente adoptando pro- cedimentos destinados a defendê-los de críticas e processos, como a citação de fontes credíveis, a descrição factual de ocorrências verificáveis, a contrastação de fontes, a verificação dos factos que lhes eram narrados, etc. O problema é que estes procedimentos estiveram, de algum modo, na origem da noção de que as notícias "objectivas"poderiam ser o espelho da realidade. Por isso, Mi- chael Schudson (1988) explica que o conceito de objectividade evoluiu para uma noção de fé nos factos.
Provavelmente, há ainda jornalistas que pretendem que as no- tícias factualizadas são objectivas porque espelham a realidade, mas o próprio Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses, revisto em 1993, já assegura que os jornalistas devem ser rigoro- sos e honestos, e não objectivos. Rigor e honestidade substituí- ram, assim, a noção de objectividade que vigorava anteriormente como regra deontológica. No entanto, mantém-se no Código De- ontológico a ideia de que factos e opinião devem separar-se no discurso. A análise, que está, de certo modo, a meio caminho en- tre a descrição de factos e a opinião, furta-se, de alguma maneira, a este juízo maniqueísta. De qualquer maneira, fazer análise sig- nifica interpretar factos descritos, portanto não é opinião pura.
Mesmo sendo a objectividade impossível, se por ela enten- dermos a apropriação total de um objecto de conhecimento pelo sujeito que conhece, não deve deixar de ser uma meta. O jorna- lismo ideal seria o jornalismo objectivo, se fosse possível. No jornalismo, o objecto de conhecimento, de algum modo, deve sobrepor-se ao sujeito de conhecimento. Isto não significa mais do que repisar os valores tradicionais da profissão: o jornalista deve orientar-se pelos valores do rigor, da independência, do com-
promisso com a realidade, da honestidade, da intenção de ver- dade.