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Se a formação do psicólogo para intervir por meio de pesquisa envolve seis classes gerais de comportamentos e, se classes de comportamentos caracterizam o que é efetivamente ensinado a futuros profissionais, de que maneira proceder para ensinar tais classes de comportamentos? Qual a função de gestores de organizações de ensino no desenvolvimento de classes de comportamentos que capacitem profissionais a intervirem em acordo com as necessidades sociais? A proposição de objetivos de ensino em cursos de graduação necessita contemplar o desenvolvimento de classes de comportamentos que profissionais deverão apresentar depois de formados para lidarem com as situações da realidade social com as quais se defrontarão. Para isso, é necessário que a definição de objetivo de ensino seja claramente compreendida por gestores de ensino. O que são objetivos de ensino? O que é necessário considerar para propor objetivos de ensino? Que relações há entre objetivos de ensino e comportamentos profissionais? Respostas a essas questões parecem ser necessárias para quem se propõe a ensinar para outras pessoas uma função social que caracteriza uma profissão.

Objetivos de ensino são norteadores do que necessita ser desenvolvido em cursos de formação. Autores como Kubo e Botomé (2001), Mager (1977, 1979) e Vargas (1974) explicitam a função de objetivos de ensino como orientadores das condições de aprendizagens. Os objetivos de ensino são, portanto, orientadores para gestores de ensino e para alunos desses gestores, sobre que “direções” o curso terá. Mager (1977, 1979) destaca a necessidade de haver relação entre o que é necessário a alunos desenvolverem em um curso e o que é efetivamente desenvolvido. Isso quer dizer que, se em um curso é proposta a formação de profissionais para, por exemplo, “cozinhar alimentos”, esses profissionais não podem sair do curso capacitados a “lavar pratos”. No entanto, efetivar as aprendizagens necessárias em um curso necessita de diversas decisões dos gestores para que o curso efetivamente capacite o profissional. Essas decisões dos gestores de ensino só são possíveis se os objetivos de ensino forem claros. Kubo e Botomé (2001) e Mager (1979) explicitam que só é possível a um gestor de ensino decidir sobre procedimentos a serem realizados em um curso

28 se houver clareza da função desses procedimentos para o desenvolvimento dos objetivos propostos. Nesse sentido, explicitar os objetivos de ensino é necessário e fundamental para orientar as condições que são necessárias de serem criadas em cursos de formação.

A função de objetivos de ensino de explicitar classes de comportamentos que necessitam ser apresentadas pelos profissionais ao concluírem um curso requer que gestores de ensino diferenciem entre classes de comportamentos e atividades desenvolvidas nesses cursos. Kubo e Botomé (2001), Mager (1979) e Vargas (1974) explicitam que os objetivos de ensino apresentam classes de comportamentos que profissionais necessitam desenvolver para lidarem com as situações com as quais se defrontarem depois de formados. Mager (1979) e Vargas (1974) indicam que uma questão orientadora para a identificação de objetivos de ensino é: o que o profissional necessita ser capaz de fazer (depois de formado)? Há, no entanto, que atentar para o que significa esse “fazer” proposto pelos autores. Ao apresentar exemplos de objetivos, Vargas (1974) explicita como objetivo “fazer coisas” (que a autora denomina comportamentos) que caracterizam mais respostas observáveis diretamente, do que comportamentos profissionais, como “fazer um círculo em sentenças de um parágrafo sobre propaganda...” “apontar em um artigo...”. Além de Vargas, autores como Popham e Baker (1976), Mager (1979), Gronlund (1975) e Tyler (1978) também enfatizam a resposta (ou desempenho) observável ao caracterizar objetivos de ensino. Essas considerações explicitam pelo menos uma curiosidade: qual a noção de comportamento desses autores? Considerar comportamento como uma complexa relação entre o que o organismo faz e o ambiente em que faz (Botomé , 2001) possibilita conjecturar que há um incoerência entre as proposições dos autores e a noção de comportamento. Se um aluno tem que “fazer um círculo em sentenças de um parágrafo sobre propaganda...” o que é que necessita resultar dessa ação? “Sentenças circuladas...” caracterizam uma conseqüência significativa no processo de aprender de um aluno? Ou o que o aluno tem que ser capaz de aprender poderia ser descrito como “identificar argumentos de autores sobre propaganda”? Nesse caso, “fazer um círculo em sentenças de um parágrafo sobre propaganda...” não explicita uma aprendizagem significativa (caracteriza apenas a resposta do organismo, não um comportamento), mas caracteriza um meio para que uma aprendizagem significativa seja desenvolvida. Botomé (1975, 1977) caracteriza esse tipo de descrição como uma atividade, uma condição artificialmente construída que possibilita o desenvolvimento de objetivos de ensino. No entanto, atividade é um meio para o desenvolvimento de objetivos, não os objetivos de ensino.

29 Ao explicitar objetivos de ensino gestores de ensino necessitam ter como foco dessa explicitação aquele que deverá apresentar os comportamentos expressos pelos objetivos: o aluno. Objetivos de ensino podem ser definidos como ações que produzem mudanças no comportamento dos futuros profissionais (Nagel e Richman, 1983; Kienen, 2008; Mager, 1979) a fim de capacitá-los a lidar com o fenômeno próprio de sua profissão. Dessa forma, ao propor objetivos de ensino, é necessário que gestores tenham clareza do que é necessário ao aluno aprender para intervir profissionalmente. A expressão “o que o profissional necessita ser capaz de fazer?” (Mager, 1979; Vargas, 1974) para identificar objetivos de ensino explicita que o foco do ensino necessita ser sobre aquele que deverá “ser capaz de fazer” algo. Nesse sentido, a proposição de objetivos de ensino remete aos comportamentos profissionais que necessitam ser desenvolvidos por quem está em processo de formação e não aos comportamentos do professor, as intenções do professor ou as atividades que deverão ser desenvolvidas por professores ou aluno, como identificaram Botomé (1977), D’Agostini (2005), Onzi (2004) e Wruck (2004) ao caracterizarem objetivos identificados em planos de ensino de diferentes professores.

Se objetivos de ensino são classes de comportamentos que os profissionais necessitam desenvolver, de que maneira é possível relacionar essas classes de comportamentos com a realidade social? Kubo e Botomé (2001) apresentam um procedimento para identificação de objetivos de ensino. Segundo os autores, o que necessita ser norteador para as decisões de professores sobre o que ensinar são as situações com as quais os profissionais irão se defrontar. A partir da identificação dessas situações é possível para o professor decidir o que um profissional necessitará realizar. Assim, os autores afirmam que o ponto de partida das decisões do professor sobre o que ensinar não são as informações (os assuntos ou “conteúdos”) sobre os fenômenos com os quais lida, mas a realidade com a qual esse aluno irá se inserir após formado. A partir dessas considerações de Kubo e Botomé (2001), é possível considerar que os objetivos propostos por professores se aproximem às necessidades sociais, pois são, justamente, a partir dessas necessidades que os objetivos são propostos.

Os objetivos de ensino constituem, portanto, orientadores do processo de ensino. Para que sejam efetivamente orientadores, é necessário que esses objetivos explicitem o que um profissional necessitará realizar depois de formado, isso é, explicitem as classes de comportamentos profissionais que necessitarão ser aprendidas para que alguém intervenha em acordo com o fenômeno próprio de sua profissão. A elaboração de objetivos de ensino a partir

30 das situações com as quais os profissionais terão que lidar depois de formados, possibilita assegurar aprendizagens significativas para capacitar esses profissionais a intervirem em acordo com as necessidades sociais. Nesse sentido, ao propor objetivos de ensino para capacitar profissionais a intervirem indiretamente por meio de pesquisa, gestores de ensino necessitam ter clareza de quais são as situações com as quais esses profissionais terão que lidar e o que é necessário que esses profissionais realizem frente a essas situações como característico da atuação de um psicólogo.

1.5 Surgimento da profissão de psicólogo e discussões sobre a formação em Psicologia no