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O Objeto do trabalho profissional

No documento marinamonteirodecastrecastro (páginas 122-125)

O TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA APS EM JUIZ DE FORA

4.2 Os Pilares do Trabalho do Assistente Social na APS

4.2.1 O Objeto do trabalho profissional

Os assistentes sociais, quando questionados a respeito do objeto do trabalho profissional do Serviço Social na saúde, remeteram aos procedimentos utilizados como atendimento individual e orientações, ao protocolo do SUS e à demanda de realização dos programas, à prevenção da saúde e qualidade de vida, à necessidade de dar resposta a todas as demandas que surgirem. Somente um se referiu às manifestações da questão social.

São vários focos porque trabalhamos com a demanda de programas, trabalhamos com os grupos, muito atendimento individual, encaminhamento, saúde mental e essa ficou sobre a minha responsabilidade (ENTREVISTADO IV).

É a prevenção. É mais isso mesmo, não mexo com mais nada não (ENTREVISTADO I).

Dentre as exposições obtidas faço realce a duas. O primeiro vincula-se à fala do profissional que respondeu que o objeto do trabalho do Serviço Social é “tudo”, o que pode significar que o profissional atua de modo pontual, ou seja, imediatista.

É apagar incêndio. A gente está pecando por achar que o assistente social resolve tudo. A gente tem que acabar com esse tipo de coisa. Mas eu fico pensando que se a gente também não tem culpa nisso, medo da gente se impor. Eu estudei na época da ditadura, ainda tinha essa noção que estávamos fazendo caridade (ENTREVISTADO II).

Refletindo sobre a fala acima, considero que os assistentes sociais por não terem seu trabalho organizado, planejado e este ser centrado em demandas espontâneas, acabam produzindo ações com um fim em si mesma, isto é, o profissional absorve a demanda que é apresentada à UBS e não consegue transpô-la para um nível mais reflexivo e coletivo. Esse fato faz com que as demandas postas não estejam articuladas com programas e projetos desenvolvidos. Assim, essas ações

constituem-se em ações imediatas, isoladas, assimétricas, que promovem encaminhamentos, orientações e aconselhamentos e apoio sobre a (s) doenças. Ações com um fim em si mesmo, na medida em que, não estão articuladas a programas e projetos que atinjam e/ou absorvam os usuários de forma sistemática e continuada (VASCONCELOS, 2006, p. 249).

Prosseguindo na análise da fala do Entrevistado II, constato como colocação relevante da profissional, a afirmação de que a modificação desse olhar passa pelo próprio profissional, que deve demarcar o seu trabalho e sua qualidade. Mas ressalto que isto deve ocorrer amparado num processo contínuo de qualificação, para que o assistente social não siga reproduzindo visões já superadas no exercício da profissão.

A segunda consideração é a observação de que somente um profissional abordou como objeto do trabalho profissional a atuação sobre as manifestações da questão social que influenciam no processo saúde/doença, numa perspectiva de garantia de direitos.

O trabalho do assistente social está centrado na questão social com a perspectiva do direito (ENTREVISTADO IX).

Iamamoto (2006, p.176) aponta que o Serviço Social tem como base de sua fundação, enquanto especialização do trabalho, a questão social. Através da prestação de serviços sócio- assistenciais, os assistentes sociais interferem nas relações cotidianas expressas pelas manifestações da questão social “vividas pelos indivíduos sociais no trabalho, na família, na luta pela moradia e pela terra, na saúde, na assistência social pública etc”.

A autora ressalta que, na atualidade, a questão social tem sido objeto de uma intervenção imediata por parte do Estado, pautada numa assistência focalizada e repressiva, que possibilita o risco de cair em uma análise que pulveriza e fragmenta as questões sociais, e atribui aos indivíduos e famílias a responsabilidade pelas diversidades postas às suas vidas, o que conseqüentemente, contribui para a perda da dimensão coletiva da questão social e, retira da sociedade de classes a responsabilidade na produção das desigualdades sociais.

Dessa forma, sinalizo com a possibilidade deste contexto de fragmentação e focalização ter contribuído para que os profissionais desconectassem o seu trabalho do seu alvo principal, qual seja, atuar sobre as manifestações da questão social que envolvem o processo saúde-doença, com vistas à garantia de direitos e à proteção social dos usuários.

Após a dificuldade de compreensão da questão sobre o objeto do trabalho profissional, os entrevistados da amostra foram questionados quanto à sua própria visão acerca da relação entre as manifestações da questão social com o trabalho realizado na saúde. A maioria enfatizou que existe esta relação, tecendo argumentos como:

Os determinantes sociais estão presentes nas questões que envolvem a questão da saúde e doença, por isso o Serviço Social deve estar na equipe mínima. E as pessoas acham que quando fala do social, qualquer um pode atuar. Isso desqualifica o nosso trabalho, de pensar que não necessita de uma base teórica específica e de uma intervenção qualificada (ENTREVISTADO VII).

Tudo que chega aqui é determinado pelas condições sociais, e a gente fica muito sem recurso para trabalhar, temos pouco recurso para lidar com isso. E tem a dificuldade também de fazer com que o usuário reflita que é a condição social que lhe levou a adoecer (ENTREVISTADO VI).

É importante destacar que um assistente social não conseguiu compreender e responder a indagação formulada.

Manifestações? Como assim? (ENTREVISTADO II).

Entendo que os usuários dos serviços fornecidos pelo Serviço Social na APS sofrem diretamente as manifestações da questão social, isto é, das desigualdades geradas pela sociedade de classes. Essas desigualdades proporcionam falta de emprego e renda, subemprego, falta de moradia, analfabetismo e fome, entre outras mazelas sociais.

Buss (2006) apresenta que o principal problema de saúde no Brasil são as iniqüidades nas condições sociais e de saúde63, e as dificuldades para superação desses óbices. Portanto, fica nítida a necessidade de inserção na área da saúde de um profissional que tenha uma formação direcionada para o trato das condições de vida da população e para a formulação de políticas sociais.

63

Iniqüidades em saúde entre grupos e indivíduos são as desigualdades de saúde que além de sistemáticas e relevantes são também evitáveis, injustas e desnecessárias (BUSS, 2006, p.15).

Articulando essa discussão mais geral com as especificidades da micropolítica do trabalho em saúde que assinala que o objeto central do trabalho em saúde deve ser a produção do cuidado e a produção de atos de saúde comprometidos com as necessidades dos usuários (MERHY, 2004), é possível observar que as dificuldades dos assistentes sociais identificarem o objeto de seu trabalho podem incidir diretamente na possibilidade da produção de atos cuidadores, contribuindo para a realização de ações que atendem de forma fragmentada e focalizada as necessidades dos usuários.

Para ultrapassar estas dificuldades, o assistente social deve procurar desenvolver ações qualificadas e respaldadas na compreensão de que seu trabalho deve ter como norte a perspectiva de atuar sobre as manifestações da questão social que interferem no processo saúde-doença por meio de atos que visem à produção de um cuidado baseado nas necessidades dos usuários.

No documento marinamonteirodecastrecastro (páginas 122-125)