4. CONFORTO AMBIENTAL NAS DIFERENTES ESCALAS E SUAS RELAÇÕES

4.3 C ONFORTO A CÚSTICO

Ao se discutir sobre conforto acústico, é necessário fazer um resgate sobre as propriedades físicas que compõem a definição do som. Conforme colocado por Nepomuceno (apud Bolognesi, 2008), o som é uma vibração mecânica que se propaga no ar e dá origem à sensação de ouvir, um estímulo oriundo dos aumentos e reduções periódicas da densidade do ar. A propagação do som é feita por meio de ondas esféricas, a partir de uma fonte pontual, com uma sucessão de repetições de compressão e rarefação da onda, a partir do ponto inicial.

No Brasil, a orientação com relação ao controle da poluição sonora no planejamento urbano para o uso e ocupação do solo em nível federal é definida pela Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, relativa à Política Nacional do Meio Ambiente, que confere ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) a competência para estabelecer “normas e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida”.(BRASIL, 1981, p.1)

Instituída esta competência, o CONAMA editou a Resolução 001/90, que dispõe sobre critérios de padrões de emissão de ruídos decorrentes de quaisquer atividades industriais, comerciais, sociais ou recreativas, inclusive as de propaganda política. Preconiza que sejam adotados os níveis estabelecidos em norma técnica, e, portanto, suas determinações passam a ter força de lei. Assim, apesar de eventualmente existirem valores regulamentados por leis municipais, o controle da poluição sonora em território brasileiro é inicialmente realizado por diretrizes federais, devendo sempre serem consultadas de forma a comparar quando estas são mais restritivas quanto aos seus valores instituídos.

Em decorrência, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) produziu duas normas técnicas: a NBR 10152 (1987), que estipula os níveis de ruído compatíveis com o conforto acústico em ambientes diversos, e a NBR 10151 (2000), que fixa as condições exigíveis para avaliação da aceitabilidade do ruído em comunidades.

As normas trazem, além da estipulação de valores para os limites de pressão sonora diurna e noturna, diretrizes para a avaliação sonora ambiental pelos métodos:

simplificado, que é utilizado para medição do nível de pressão sonora global, em ambientes externos ou internos às edificações, para identificação e caracterização de sons contínuos ou intermitentes; o detalhado, utilizado na medição do nível de pressão sonora global e espectral em ambientes externos ou internos às edificações, para identificação e caracterização de sons contínuos, intermitentes, tonais e impulsivos; e ainda, um método de longa duração, aplicável ao monitoramento sonoro chamado de

“período completo”, recomendável para fins de planejamento urbano e monitoramento por 24 horas ininterruptas.

A fim de compreender a propagação do som e os termos utilizados, adota-se um princípio de secção da onda, de forma a congelá-la e obter uma senoide de onda e,consequentemente, demonstrar melhor suas propriedades. A partir de uma senoide, é possível observar e descrever características físicas da propagação de uma onda sonora, tais como:

1) Amplitude: a pressão acústica em relação ao valor equivalente ao repouso.

Quanto maior a amplitude da onda de pressão, maior será a oscilação das partículas do ar e maior é a distância que o som pode percorrer;

2) Período: é definido pelo intervalo de tempo, em segundos, entre dois acontecimentos repetidos, dentro da distância percorrida pela onda senoidal;

3) Frequência: É composta pelo número de vezes em que o período ou comprimento de onda é repetido no intervalo de um segundo. A unidade de medida é

denominada Hertz (Hz). Tons graves ou baixos denominam-se frequências baixas, enquanto sons agudos ou altos são conhecidos como frequências altas.

Quanto à variação de frequência, existe ainda a seguinte classificação:

o Tons puros, compostos por uma única frequência;

o Sons musicais, cuja composição é baseada em uma frequência fundamental e várias frequências de valor múltiplo inteiro da fundamental (sons harmônicos = sons limpos);

o Ruído, composto por inúmeras frequências sem que exista um padrão que as relacione diretamente. O resultado é um sinal complexo, sem uma frequência fundamental fixa; portanto, um sinal não periódico.

De modo a se distinguir ruído de som, é necessário o critério denominado agente perturbador, que é o conjunto de sons indesejáveis, desagradáveis, que envolve o fator psicológico de tolerância de cada indivíduo.

Vale ressaltar que, apesar de ruído estar relacionado ao som, não cabe afirmar que ambos os termos sejam sinônimos: ruído é o som que não se deseja ouvir. Pode ter periodicidade indefinida, isto é, um som desagradável e indesejável. Oriundo do latim rugitu (estrondo, na tradução), o ruído é constituído acusticamente por várias ondas sonoras com relação de amplitude e fase distribuídas anarquicamente, o que provoca uma sensação desagradável, contrário ao efeito da música.

Há ainda algumas classificações que devem ser destacadas segundo a variação de ruído de acordo com a norma IS02204/1979, também apresentada na norma NBR 10152:

• Contínuo - ruído com variações de níveis desprezíveis (até ± 3dB) durante o período de observação;

• Intermitente - ruído cujo nível varia continuamente de um valor apreciável (superior a 3dB) durante o período de observação;

• Ruído de impacto ou impulso - aquele que se apresenta em picos de energia acústica de duração inferior a um segundo. A forma de onda deste tipo de ruído é, com frequência, descrita por amplitude e duração, sendo que a amplitude é medida no pico máximo e a duração é o tempo que a onda leva para cair 20 dB do seu nível normal;

•Comprimento de Onda - é o comprimento que as partículas do ar, num dado instante, ocupam no espaço no período de uma onda, e é medido em metros. Esta grandeza está diretamente relacionada à frequência da onda e à velocidade de propagação do som no meio, sabendo-se que a velocidade é em média 343 m/s (trezentos e quarenta e três metros por segundo);

•Intensidade - é a qualidade do som que permite ao ouvinte distinguir um som fraco de um som forte. Está relacionada diretamente à amplitude de onda, ou seja, quanto maior a amplitude, maior a intensidade do som.

Destaca-se, ainda, que a intensidade de um som pode ser medida através de dois parâmetros:

• A energia contida no movimento vibratório (W/cm2);

• A pressão do ar causada pela onda sonora (BAR = 1dina/cm²).

Por meio da medida da energia se desenvolve um procedimento de transformação de unidade para se chegar à medida de intensidade sonora que é denominada Nível de Intensidade Sonora – NIS, medida em decibéis (dB), em que se tem intensidades sonoras de 10-16 W/cm2 (limiar de audibilidade) a 10-2 W/cm2 (limiar dador).

A Lei de Weber-Fechner18 mostra a relação entre a intensidade física de uma excitação e a intensidade subjetiva da sensação de uma pessoa. À medida que se

18Por volta de 1860, Ernst Weber trabalhou com Gustav Fechner aplicando os princípios da psicofísica, período o qual ele formulou a Lei de Weber, que mais tarde foi complementada por Fechner.

aumenta a intensidade sonora, danifica-se cada vez mais a capacidade auditiva, tornando o ouvido menos sensível, o que acarreta a necessidade de um aumento exponencial da intensidade do som para que o ouvido o “sinta” de maneira linear.

Ao atingirem um obstáculo, as ondas esféricas que partiram da fonte pontual podem se comportar de maneiras diferentes, dependendo da característica do material onde a onda vai incidir.

Segundo Bolognesi (2008), o ruído é caracterizado como uma espécie de som capaz de causar danos ao aparelho auditivo, por variações de pressão que vão além do limite da audição em frequências distintas. Superada a fronteira fisiológica, os estudos do conforto acústico lidam com a subjetividade inerente à percepção, às preferências e à avaliação humana.

A percepção humana, que não é uma função linear com relação aos estímulos do ambiente, apresenta quanto ao conforto acústico dimensões de aspecto intra e interpessoal. O resultado desse processo é uma multiplicidade de respostas ao mesmo estímulo. Além disso, a percepção humana é multissensorial e não ocorre isoladamente, mas sim dentro de um contexto global que inclui, além da informação auditiva, informações sobre demais modalidades sensoriais, como a visão e o tato.

Em conjunto, essas várias fontes de informação dão origem a uma representação mental do ambiente percebido e qualquer julgamento será baseado nessa representação mental. Assim sendo, a avaliação de um local urbano depende da forma pela qual este indivíduo responde a múltiplas necessidades, tais como funcionalidade, estética e ao conforto global (é possível combinar a acústica com a iluminação e o aspecto térmico).

A maneira pela qual o indivíduo percebe e interpreta as sensações está diretamente ligada às representações individuais e coletivas, relacionadas a todos esses fatores ambientais que esse indivíduo está exposto além do som, como, por

Weber estava realizando estudos pioneiros capazes de efetivamente quantificar um fenômeno psicológico. (fonte: http://estudospercepcao.blogspot.com/p/ernst-heinrich-weber.html)

exemplo: condições climáticas, paisagem visual, morfologia do ambiente e as práticas neles desenvolvidas.

Condições múltiplas ocorrem simultaneamente, o que mostra a situação de intersensorialidade que caracteriza a relação entre indivíduo e ambiente. Por isso, ressalta-se que a interação entre conforto acústico e outros fatores como o conforto visual e térmico também precisam ser considerados na avaliação dos ambientes.

(KANG, YANG e ZHAN apud HIRASHIMA e ASSIM, 2017).

Os pesquisadores reiteram, porém, que esse processo, nos espaços públicos, sobretudo nos abertos, faz com que a percepção das pessoas em relação às alterações nos níveis sonoros responda às mudanças no âmbito sonoro. Isso revela que a percepção do conforto acústico é bastante complexa. Percebe-se, nesse contexto, que há uma tendência à tolerância quando essas avaliam o conforto acústico. Um dos motivos para tanto é que este, de forma geral, é determinado por fatores que estão além da perspectiva sonora.

Destaca-se que os resultados da avaliação dos níveis sonoros podem variar quando questionados a populações diversas, uma vez que cada pessoa ou grupo pode possuir uma percepção diferente sobre um mesmo espaço, sobretudo porque estão imersas em diversos contextos sociais, culturais, econômicos etc. Nesse sentido, de acordo com Phan et al. (2010), quando se analisam os possíveis fatores que causam incômodo, percebe-se que os ruídos causados pelo tráfego são um dos principais motivos apontados pela população como um incômodo quando ocupa os espaços urbanos.

Nos estudos de Lamure (1975) foi demonstrado que as divergências culturais e sociais exercem um papel expressivo para uma percepção positiva ou negativa sobre um determinado espaço. Como exemplo, cita que os italianos incomodam-se menos com os ruídos do que os suecos, mesmo que ambos estejam sujeitos à presença contínua dos ruídos. Da mesma forma, segundo Saadu et al. (1996), os ruídos interferem no desempenho das atividades diárias na mesma medida em diferentes nações, citando como exemplo que essa semelhança toma forma tanto na

Nigéria quanto na Europa e nos Estados, entretanto, devido à administração desses ruídos, a Nigéria é a mais afetada, de acordo com a percepção.

Sobre o tema, Sato et al. (2003 apud PHAN et al., 2010) analisaram as principais diferenças associadas ao ruído no tráfego rodoviário. Para a análise, eles se concentraram na população japonesa e sueca. Chegaram à conclusão de que, devido à diferença de estilos de vida no Japão e na Suécia, a problemática toma proporções diferentes. Identificaram que há uma diferença sistemática relacionada à percepção das duas populações aos ruídos, e, com isso, defendem que os japoneses, de forma geral, incomodam-se mais com tais ruídos, visto que há uma sensibilidade maior ao som. Para os pesquisadores, o principal motivo para esta sensibilidade está relacionado com a forma como os japoneses e suecos se adaptaram ao som. Desse modo, é necessário considerar as condições em que o tráfego rodoviário opera em cada nação, visto que há especificidades a serem consideradas.

Em vista à sua negativa influência sobre a saúde, bem como sobre as circunstâncias nas quais a população vive, o ruído, considerado como um som indesejável, ou ainda como um som inútil e irrelevante (FUCHS, 1975), passou a ser uma característica analisada nos projetos urbanos recentes. Entretanto, nota-se que o controle do ruído ambiental não tem sido efetivamente contemplado, devido, sobretudo, à falta de conhecimento sobre os seus efeitos, bem como sobre as relações dose-resposta, e, ainda, devido à falta de indicadores e parâmetros urbanísticos bem definidos.

Informações disponíveis sobre sons urbanos do cotidiano são raras. Ainda assim, de forma equivocada, em muitas publicações, os ruídos são negativamente interpretados, e frequentemente defendidos como incômodos ou como uma poluição inerente às cidades; entretanto, deve-se frisar que os critérios relacionados ao conforto acústico para ambientes urbanos não foram ainda determinados satisfatoriamente. Esses estudos mencionados acima demonstram a necessidade que aponta o presente trabalho de se calibrar o conforto acústico para cada região específica, considerando seu contexto social e cultural, de forma a criar parâmetros que possam ser sustentados em uma base teórica elaborada e monitorados ao longo do tempo.

No documento OS PARÂMETROS URBANÍSTICOS E O BEM-ESTAR: REFLEXÕES SOBRE UMA DELICADA RELAÇÃO. (páginas 101-108)