3.2) Para além da Sociedade de controlo
3.2.2. A «opção-Sloterdijk» tornou-se evidente pela magnitude que o autor
concede ao conceito de dádiva, assim como pelo projecto alternativo que tal desenvolvimento teórico valida. Contudo, o meu afastamento do modelo que Sloterdijk preconiza tem que ser peremptório por se tratar de uma reconstituição empobrecida do
potlatch, um regresso às gloriosas sociedades arcaicas.
No coração da obra mais recente de Sloterdijk está o esforço em explicar de que forma é que será possível transformar os impostos em doações voluntárias e, em que medida é que isso serviria como reconfiguração psicopolítica, isto é, como alteração das condições psicológicas, afectivas, de se viver politicamente, de se viver com os outros. Assim, segundo o autor, as doações à comunidade teriam de ser voluntárias, porém, “durante um tempo inicial numa percentagem modesta, depois em proporções progressivamente mais altas”280, o que reanimaria a sociedade “anquilosada em rotinas
de desgosto perante o Estado”281
, conferindo novo ânimo à consciência comunitária. O autor vai mais além, dizendo que, na última década, todo o seu esforço foi no sentido de configurar uma psicopolítica da generosidade assente “desde o princípio no horizonte de uma ética da dádiva”282
.
277 Id., p. 30: “compensar la exagerada erotización de nuestra civilización” 278 Id., p. 31: ”solo una ética del dar”
279
Id., p. 32: “sentido comunitario mediante una ampliación de la acción donante”
280 Id., p. 33: “durante un tiempo inicial en un porcentaje modesto, después en proporciones
progresivamente más altas”
281 Ibidem: “anquilosada en rutinas de disgusto con el Estado” 282 Id., p. 34: “desde el principio en el horizonte de una ética del dar”
91 Os fiscalistas concebem os impostos que hão-de pagar-se no futuro como “dívidas ineludíveis dos cidadãos para com o fisco”283
, tratando-as como propriedade estatal real. Assim, ao invés de se encararem esses impostos futuros como dádivas concedidas pelos cidadãos ao erário público da comunidade, os fiscalistas vêem-nas como dívidas futuras que podem ser executadas sumariamente, se necessário, ao abrigo de sentenças judiciais. Para Sloterdijk, a concepção obrigatória dos impostos é ainda um vestígio “do pensamento pré-democrático”284
. A cultura da dádiva obrigatória, mediante o dispositivo do imposto, não se trata de “uma constante natural, mas um produto, historicamente gerado, de coacção, hábito, compreensão parcial e resignação preponderante”285
, o que nos leva no encalço dos modos tradicionais de enriquecimento por parte do Estado.
De acordo com o diagnóstico de Sloterdijk, o primeiro modo de enriquecimento do Estado baseia-se no “«saque» da tradição bélico-espoliadora”286. Um segundo modo resulta da “tradição autoritário-absolutista das «imposições»”287
, onde é sabido que os estados absolutistas vergavam as suas comunidades, principalmente as mais pobres, com impostos férreos; estas duas formas foram o protótipo da fiscalidade, onde “estabelecidas sem debate, seriam o preço justo da vida em relações ordenadas”288
. Mas há ainda um terceiro procedimento para a espoliação das comunidades baseada na ideia de «contra-expropriação»; se a propriedade é um roubo, só um contra-roubo pode recolocar a justiça no âmbito social, sendo “o órgão político de contra-roubo o fisco”289
. Para além destes três caminhos impositivos, obrigatórios, para a obtenção de dividendos por parte do Estado, Sloterdijk elenca ainda um quarto de cariz totalmente diverso, de carácter opcional, facultativo, implicando não um mandato estatal mas uma vontade individual, verificada através da “actuação de doadores e criadores de fundações, dentro da tradição filantrópica”290
. Em jeito de balanço, Sloterdijk refere-se aos impostos que
283 Id., p. 40: “deudas ineludibles de los ciudadanos con el fisco” 284 Ibidem: “del pensamiento predemocrático”
285 Ibidem: “una constante natural, sino un producto, históricamente generado, de coacción,
habituamiento, comprensión parcial y resignación preponderante”
286
Id., p. 41: “«saqueos» de la tradición bélico-expoliadora”
287 Id., p. 43: “tradición autoritario-absolutista de las «imposiciones»”
288 Ibidem: “establecidos primero sin debate, serían el precio justo de la vida en relaciones ordenadas” 289 Id., p. 44: “El órgano político del contrarrobo es el fisco”
92 hoje nos cobram como reminiscências dos estados pré-democráticos, onde a agremiação de fundos era efectuada de forma impositiva e autoritária, quer sob a tutela de um preço justo para a vida comunitária, quer sob o anátema da contra-exploração cujos impostos seriam um dispositivo redistributivo e garante da paz social. Em todo o caso, ainda não teríamos atingido um modo de funcionamento pleno da democracia, pois o modo de financiamento do Estado ainda não é assegurado mediante dádivas livres, generosas e voluntárias por parte dos seus cidadãos, mas através do punho de ferro da obrigatoriedade e da imposição. Dito ao modo de Sloterdijk, o Estado que se concedia a si mesmo uma autoridade superior, assim como o Estado que se pensa enquanto “agência moralmente autorizada de assistência social geral”291
, o Estado paternalista antigo e o Estado materialista dos nossos dias, entendem-se às cegas para “formar uma maquinaria irresistível de tutela e assistência”292
.
Assim, o que os impostos voluntários preconizariam seria a “intensificação e revitalização éticas dos impostos como doações do cidadão à comunidade”293
. Depois do longo período tenebroso em que o cidadão era forçado à passividade, à impotência e à indignidade, uma vez reconhecido como doador passaria a “experimentar que profusão de vida significa ser responsável por projectos levados a cabo (…) por doações próprias”294
. É que os impostos já são dons que apenas “esperam ser considerados uma vez por todas como tais”295
.