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Orgulho, Preconceito e a Hipermodernidade

2.1. ORGULHO E PRECONCEITO: O ROMANCE

Publicado pela primeira vez em janeiro de 1813, Orgulho e preconceito é provavelmente o mais popular entre os romances de Austen. O romance acompanha a história das irmãs Bennet a partir da chegada à vizinhança dos ricos cavalheiros Charles Bingley e Fitzwilliam Darcy. Enquanto a trama principal focaliza a corte de Darcy à jovem Elizabeth Bennet, a narrativa levanta questões econômicas e sociais relevantes para o período e que ainda encontram eco nos dias atuais.

Jane Austen começou a escrever ainda muito jovem. Seus primeiros escritos datam de seus doze anos de idade e caracterizam-se por pequenas peças em tom de sátira, nonsense e comicidade. Em “History of England”, por exemplo, escrito em 1791, Austen reconta a história da Inglaterra à sua maneira, satirizando os livros pedadógicos que conhecia. O subtítulo “por um historiador parcial, preconceituoso e ignorante”19 indica o tom satírico da obra. À juvenilia seguiu-se o ambicioso Lady Susan, escrito por volta de 1794-95, pouco antes de Austen iniciar a composição de seus romances mais conhecidos. Romance epistolar, Lady Susan retrata os esforços de uma mãe sem escrúpulos para garantir um lugar para si e para a filha em meio à sociedade georgiana.

                                                                                                               

Uma divisão comumente utilizada por estudiosos de Austen separa seus principais romances em dois grupos: os “romances de Steventon20”: Razão e Sensibilidade (1811), Orgulho e Preconceito (1813) e A Abadia de Northanger

(1818), iniciados entre 1795 e 1799 e revisados para publicação alguns anos mais tarde; os “romances de Chawton21”: Mansfield Park (1814), Emma (1816) e

Persuasão (1818), escritos entre 1811 e 1817. A divisão não é meramente

composicional: há diferenças tonais marcantes, pois enquanto as primeiras são comédias leves, as últimas apresentam um tom mais sombrio e compreendem um estudo mais complexo da natureza humana.

A reconstrução do processo de escrita de Austen ainda desafia os pesquisadores. Dos manuscritos originais de seus seis principais romances, apenas dois capítulos de Persuasão – posteriormente cancelados – restaram. Quanto a Orgulho e preconceito, além da inexistência de manuscritos sobreviventes, estão virtualmente ausentes menções a sua composição nas cartas de Austen preservadas para a posteridade. Entretanto, histórias de família e uma retrospectiva da publicação dos seis romances, escrito por Cassandra Austen pouco depois da morte da irmã (cf. MANDAL, 2014), contribuem para reconstruir o processo de escrita do romance. Segundo esses registros, entre outubro de 1796 e agosto de 1797, após haver terminado um primeiro rascunho de Elinor e Marianne (romance epistolar que mais tarde seria revisado e

                                                                                                               

20 Steventon, vila localizada no condado de Hampshire, no sul da Inglaterra, onde Jane Austen nasceu e viveu durante seus primeiros vinte e cinco anos, quando seus pais decidiram mudar-se para Bath. 21 Chawton, vila localizada no condado de Hampshire, onde Austen passou os últimos oito anos de sua vida. Atualmente, a casa em que a autora viveu hospeda o Jane Austen’s House Museum.

transformado em Razão e sensibilidade) Austen começou a trabalhar em uma nova obra à qual deu o nome de First Impressions. Embora alguns críticos sustentem que Orgulho e preconceito foi escrito em forma de narrativa direta já em sua primeira versão (cf. MANDAL, 2014), outros, como Brian Southam (apud MANDAL, 2014, pos. 1443), sustentam que a obra foi escrita, originalmente, na forma de romance epistolar. A quantidade e a importância das cartas no desenvolvimento da trama parecem sugerir que esta segunda posição é a mais acertada. E por que Austen, ao revisar seus romances, decidiu transpô-los para narrativa direta? Uma possível explicação é o declínio na popularidade dos romances epistolares. A publicação de romances do gênero caíra de 41.7% em 1780 para 18.3% na década seguinte, dando lugar a romances de narrativa direta, com destaque para os romances sentimentais de Charlotte Smith e os romances góticos de Ann Radcliffe (cf. RAVEN apud MANDAL, 2014, pos. 1490). É possível que Austen, autora atenta ao mercado literário22, tenha procurado adequar sua obra ao perfil editorial do período.

A biógrafa Claire Tomalin (1999) afirma que Austen contava vinte anos de idade quando escreveu First Impressions. Era comum, então, que famílias se reunissem para ouvir sessões de leitura. Entre outras obras, Austen lia seus próprios escritos para a família. Seu pai, o Reverendo George Austen, admirava o talento da filha e a encorajava a continuar escrevendo, comprando-lhe papel, à época um artigo de luxo. Em 1797, os editores Cadell & Davies, de Londres

                                                                                                               

22 Ao revisar A abadia de Northanger para publicação, por exemplo, Austen procurou atualizar a obra, originalmente escrita durante o auge de popularidade dos romances góticos, vinte anos antes.

receberam uma carta do Reverendo George Austen, oferecendo o romance First

Impressions para publicação (cf. TOMALIN, 1999; MANDAL, 2014). George

Austen não revelou que a autora do manuscrito era sua filha, pois, à época, não era socialmente aceito que moças de um certo estrato social ganhassem dinheiro e/ou fama escrevendo romances. A oferta do reverendo Austen foi rejeitada, o que ficaria conhecido com um dos maiores erros editoriais de todos os tempos. Austen passaria os próximos dezessete anos revisando e reescrevendo seus três primeiros romances. Entre outubro de 1811 e outubro de 1813, Austen revisou e preparou o manuscrito de Orgulho e preconceito para publicação. Já havia um romance anterior com o nome First Impressions23, de Margaret Holford. Austen

precisou, por isso, escolher um novo título para seu segundo romance. A autora o encontrou nas páginas finais do romance Cecilia (1782), de Fanny Burney (cf. TANNER, 1972; MANDAL, 2014).

“Todo esse caso infeliz”, disse o dr. Lyster, “foi resultado de Orgulho e Preconceito. Seu tio, o deão, começou tudo com o testamento arbitrário, como se uma ordem dele pudesse deter o curso da natureza!” (BURNEY apud TANNER, 1972, p. 48)

Segundo Claire Tomalin (1999), foram as conexões no Exército de Henry Austen, irmão de Jane, que possibilitaram a publicação de Razão e sensibilidade. O primeiro romance de Austen fora publicado pelo editor Thomas Egerton em 1811 em modo de “comissão”, o que significava que a autora pagaria os custos de impressão e publicidade mas manteria os direitos autorais sobre a obra. A publicação não trazia seu nome, apenas a expressão “por uma dama”. O

                                                                                                               

lançamento foi um sucesso de público, levando Egerton a aceitar publicar seu segundo romance, Orgulho e preconceito. Dessa vez, Egerton pagou para adquirir também os direitos autorais da obra. Em 29 de janeiro de 1813, Austen escreveu para sua irmã Cassandra: “Quero lhe dizer que fui buscar minha querida Criança em Londres”24 (cf. AUSTEN, 1995). Orgulho e preconceito foi sucesso

de público, chamando a atenção até mesmo do Príncipe Regente da Inglaterra, o que mais tarde renderia a Austen o convite a dedicar-lhe uma de suas obras.25

Orgulho e preconceito foi escrito em um período de enormes mudanças na

Europa e no mundo. O século XVIII, o século do Iluminismo, caracterizou-se pela idolatria da razão e a visão negativa dos excessos do sentimento. A Revolução Americana, em 1776, pôs em marcha movimentos sociais que culminariam na Revolução Francesa de 1789. O século XVIII viu nascer, também, o romance moderno, que encontrou solo fértil na Inglaterra. Daniel Defoe, Samuel Richardson e Laurence Sterne, cujo peculiar romance Tristram

Shandy (1760-1767) influenciou gerações de escritores, incluindo o brasileiro

Machado de Assis, são nomes importantes não apenas para o romance inglês, mas para todo o romance ocidental. O período viu surgir e ganhar popularidade, também, autoras do sexo feminino.

O início do século XIX, período em que Jane Austen revisou e publicou todos os seus seis romances principais, foi marcado por grande instabilidade na Inglaterra. A incerteza gerada pela Revolução Francesa (1789-1799) e pelas

                                                                                                               

24 Trad. nossa. No original: I want to tell you that I have got my own darling Child from London.

25 Emma, publicado em 1816, foi dedicado ao Príncipe Regente, mais tarde Rei George IV, respondendo a pedido do Bibliotecário Real, James Stanier Clarke.

Guerras Napoleônicas (1803-1815), além das enormes mudanças sociais e econômicas ocasionadas pela Revolução Industrial (1760-1820) levaram o país a um período de desemprego, depressão econômica, revoltas populares e ameaças de uma revolução. Culturalmente, o final do século viu nascer movimentos contrários ao primado da razão. Da Alemanha espalhou-se um movimento de reação ao racionalismo e classicismo reinantes que ficou conhecido como Sturm

und Drang [Tempestade e Ímpeto]. Esse movimento daria origem ao movimento

romântico, que influenciou toda a cultura europeia e ocidental na primeira metade do século XIX.

Segundo Anthony Mandal, entre 1810 e 1820, pelo menos metade das obras de ficção publicadas na Inglaterra eram de autoria feminina (cf. MANDAL, 2014, pos. 1540-1545). Um dos motivos foi o aumento do letramento da população inglesa de modo geral (cf. WATT, 2010). Além disso, a Revolução Industrial, ao libertar grandes massas de homens e mulheres do trabalho pesado, possibilitara o surgimento do tempo livre que passou a ser empregado em leituras e estudos, especialmente pelas mulheres, pois a elas eram vedadas maior parte das opções de ocupação oferecidas aos homens. Muitas dessas mulheres voltaram-se para a literatura, não somente como leitoras, mas também como autoras. Acompanhando esse movimento, teve lugar uma maior especialização dos gêneros literários, surgindo, inclusive, uma literatura exclusivamente voltada para a população feminina. Os chamados “livros de conduta” eram os mais indicados para as jovens aristocratas, e tinham o objetivo de formar esposas

adequadas. Ainda assim, há indícios de que as mulheres burlavam essas restrições e liam até mesmo os livros para elas “proibidos”. A própria Austen era leitora ávida da literatura gótica da virada do século, a qual parodiou no romance

A abadia de Northanger. É preciso lembrar, porém, que às mulheres era

permitido escrever, mas não era aconselhável que revelassem suas verdadeiras identidades. O pequeno texto dedicado a Austen por sua família quando de seu falecimento nada diz sobre seus escritos, que haviam alcançado relativo sucesso à época.

Apesar do sucesso de público, Austen teve pouco reconhecimento da crítica durante as primeiras décadas do século XIX. Os românticos viam Austen com suspeitas, pois seu tom jocoso e pouco sentimental contrastava com o estilo mais apaixonado do período. Em Jane Austen’s Cults and Cultures, Claudia Johnson (2012) afirma que, nas décadas seguintes à morte da autora, o interesse por sua obra manteve-se pequeno. No ano de seu falecimento, a terceira edição de

Orgulho e preconceito teve que ser colocada em promoção. Os dez anos

seguintes foram o período de menor popularidade para a autora, quando um a um seus romances saíram de catálogo (cf. JOHNSON, 2012; TODD, 2014). Na década de 1830, o editor Richard Bentley adquiriu os direitos de todos os seis romances de Austen, voltando a publicá-los, mas com resultados modestos (cf. TODD, 2014, pos. 3742-3747). Entretanto, essa baixa popularidade inicial não é unanimidade entre os estudiosos de sua obra. Anthony Mandal (2014), por exemplo, afirma que a inclusão dos romances de Austen entre os Standard

Novels de Bentley, em 1833, contribuiu para sua popularização ainda na primeira

metade do século XIX. A série, publicada no período de 1831-1855 por Colburn & Bentley, oferecia títulos de sucesso a preços mais populares. Ao todo, a

Standard Novels incluiu 126 volumes e obteve enorme sucesso de público.

Mandal (2014) afirma, ainda, que os romances de Austen foram reimpressos a intervalos regulares até 1854.

O declínio do movimento romântico coincidiu com a publicação de A

Memoir of Jane Austen (1870), de James Edward Austen-Leigh, sobrinho de

Austen. A biografia contribuiu para fomentar o interesse pela autora, em alta desde então (cf. JOHNSON, 2012, pos. 274-279). Em seu texto, Austen-Leigh apresenta a tia como uma solteirona devota e recatada, associando-a a uma Inglaterra quase pastoral (cf. TODD, 2014). Essa imagem de uma Austen “comportada” foi bem aceita à época, contribuindo para a popularização de sua obra entre os vitorianos.

Em fins do século XIX, ganharam popularidade as edições ilustradas dos romances. A edição de Allen & Macmillan, de 1894, ilustrada pelo artista irlândes Hugh Thompson vendeu mais de 11.500 cópias no primeiro ano de lançamento e foi reimpressa inúmeras vezes (cf. TODD, 2014). Mais tarde, a edição crítica dos romances de Austen, organizada por R. W. Chapman em 1923 e lançada pela Oxford University Press ajudou a estabelecer a importância da autora junto à academia. Foi Chapman, também, o responsável pelas primeiras edições da juvenilia (1932) e das cartas de Austen (1932). Atualmente, é possível

encontrar inúmeras edições de Orgulho e preconceito, em dezenas de idiomas. Em português, foi traduzido pela primeira vez em 1941, por Lúcio Cardoso, pela Editora José Olympio. O lançamento acompanhou a chegada da adaptação cinematográfica Orgulho e preconceito, estrelada por Greer Garson e Laurence Olivier. Em 2005, o fenômeno se repetiu: com a chegada do filme homônimo aos cinemas nacionais, inúmeras novas edições foram providencidas, sendo possível encontrar, hoje, edições das seguintes casas: Martin Claret (2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2012), Civilização Brasileira (2006, 2009), Landmark (2008), Paulus (2009), Abril (2010), L&PM (2010), Best Bolso (2010) e Companhia das Letras Penguin (2011).

Figura 4: Ilustração de Hugh Thompson para edição de Orgulho e preconceito (1894)

Orgulho e preconceito acompanha a chegada dos ricos cavalheiros Charles

Bingley e Fitzwilliam Darcy à pequena comunidade interiorana de Meryton. Donos de enormes fortunas, os jovens cavalheiros imediatamente transformam- se em alvos para os planos matrimoniais das famílias da região. A família

Bennet, com cinco jovens filhas solteiras e poucas perspectivas financeiras, recebe com interesse os recém-chegados. Charles Bingley, novo-rico afável e extrovertido, exerce com prazer seu papel de solteiro cobiçado. Já seu amigo, o misterioso Fitzwilliam Darcy, parece pouco receptivo ao que considera armadilhas à sua enorme e tradicional fortuna. Entretanto, Darcy logo se descobre fascinado por Elizabeth Bennet, jovem espirituosa e observadora que se recusa a colocar as regras da sociedade acima de sua dignidade. O romance acompanha os encontros e desencontros do casal de protagonistas, enquanto apresenta uma complexa análise das idiossincrasias da natureza humana.

Orgulho e preconceito é marcado pela busca pelo equilíbrio entre o desejo

individual e as forças que atuam na sociedade. Essa tentativa de lidar com inquietudes humanas é um dos motivos pelos quais o romance permanece atual duzentos anos após sua publicação. Além disso, o romance rechaça respostas peremptórias. Seu estilo exige que o leitor interaja e busque as próprias respostas. Tudo isso apresentado em um estilo rico de humor e ironia. O romance contém alguns dos trechos mais engraçados da literatura inglesa, a começar por sua frase inicial, maravilhosamente irônica: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, de posse de boa fortuna, deve estar atrás de uma esposa” (cf. AUSTEN, 2011, p. 103). Qualquer verdade “universalmente reconhecida” deveria despertar dúvidas. Trata-se, em verdade, de um senso comum que se opõe à riqueza do individualismo explorado durante todo o romance. Entretanto, tomada no contexto da obra, a frase termina por ser verdadeira, pois o Sr. Darcy,

que inicialmente se recusara a assumir o papel do “homem solteiro” proverbial, acaba sucumbindo e tornando-se, também ele, parte do senso comum. Kevin Wells (2014) argumenta que, ao perceber a ironia da frase inicial de Orgulho e

preconceito, o leitor realiza individualmente o movimento retratado pelo

romance: ver através das primeiras impressões. A frase expressa, portanto, apenas um dos discursos dos quais o romance de Austen é constituído, estabelecendo não apenas o tom irônico que acompanhará toda a obra, mas também a extraordinária polifonia da qual Orgulho e preconceito está investido. Mikhail Bakhtin (1981) introduziu na crítica literária o conceito do “romance polifônico”, isto é, o romance formado por uma multiplicidade de “vozes” ou pontos de vista. Austen utiliza recurso semelhante em suas obras. Orgulho e

preconceito é, a seu modo, um romance polifônico, constituído de diferentes

pontos de vista e visões de mundo, que leva o leitor a tirar suas próprias conclusões. O crítico estadunidense Lionel Trilling (1963) afirmou que a ironia é o recurso retórico através do qual se diz algo cujo significado pretendido é o seu oposto. O uso da ironia em Austen é uma forma de evidenciar contradições e múltiplos pontos de vista. A escritora iraniana Azar Nafisi aponta a riqueza polifônica dos romances de Austen e suas relações com o gênero do romance:

A habilidade de Austen para criar essa multivocalidade, essas diversas vozes e entonações, em relação e em confrontação dentro da estrutura coesa do romance, é um dos melhores exemplos do aspecto democrático do romance. Nos romances de Austen, existem espaços para oposições que não precisam eliminar umas às outras para existir. Também existe espaço – não somente espaço, mas uma necessidade – para a auto-reflexão e para a autocrítica. Essa reflexão é a causa da mudança. Não necessitávamos de mensagens, nem de uma chamada inequívoca para a pluralidade para provarmos nossos pontos de vista. Tudo que precisávamos era ler e apreciar a

cacofonia das vozes para compreender seu imperativo democrático. Era nisso que residia o perigo de Jane Austen. (NAFISI, 2004, p. 385)

Essa polifonia possibilitou a Austen desenvolver personagens complexos e fascinantes. Richard Simpson (apud CARTMELL, 2010) elevou o status de Austen comparando seu poder de caracterização ao de Shakespeare. Elizabeth Bennet, protagonista de Orgulho e preconceito, é uma das heroínas mais marcantes e populares de toda a literatura inglesa. Elizabeth diferencia-se de outras heroínas suas contemporâneas por sua inteligência, independência de pensamento e originalidade. Sua capacidade de observação e distanciamento permitem-lhe analisar as forças em ação ao seu redor e recusar-se a adotar posturas comumente aceitas para seu sexo. Fitzwilliam Darcy constitui o outro pólo de atração do romance. A partir dos anos 1990, o fascínio por Orgulho e

preconceito confunde-se com o fascínio pela figura misteriosa de Darcy. As

adaptações para o cinema e para a televisão contribuíram para estabelecer essa conexão no imaginário coletivo contemporâneo ao resgatar seu ponto de vista durante o desenvolvimento da narrativa. Para Tony Tanner (2011, p. 45),

Orgulho e preconceito “[é] um drama de reconhecimento – re-conhecimento, o

ato através do qual a mente pode tornar a olhar para uma coisa e, se necessário, fazer revisões e alterações até vê-la como realmente é”. Como tal, a importância da focalização e do ponto de vista é fundamental para o desenvolvimento da trama. Austen manipula com maestria a perspectiva através do recurso do discurso indireto livre, técnica narrativa que mescla o ponto de vista do narrador com a perspectiva de um ou mais personagens. No Capítulo IV desta dissertação

explorarei de forma mais aprofundada as questões de focalização levantadas pela interação das adaptações com o romance.

Em Orgulho e preconceito, os personagens são caracterizados menos por intervenções do narrador e mais por aquilo que dizem e fazem. É um romance em que predominam os diálogos, o que explica, em parte, suas frequentes adaptações para o teatro, o cinema, o rádio e a televisão. O trecho abaixo, retirado do primeiro capítulo do romance, demonstra como caracterizações complexas são apresentadas através de apenas algumas linhas de diálogo:

“Gostaria muito que você não fizesse nada parecido. Lizzy não é em nada melhor que as outras; e garanto que sua beleza não chega nem à metade da beleza de Lydia. Mas você sempre a favorece.”

“Elas não têm nada que as recomende”, retrucou ele. “São tolas e ignorantes como todas as meninas; mas Lizzy é mais sagaz que as irmãs.”

“Senhor Bennet, como pode falar assim das próprias filhas? Você adora me irritar. Não tem pena dos meus nervos?”

“Você está enganada, minha cara. Tenho grande respeito pelos seus nervos. São meus velhos conhecidos. Ouço você falar deles há pelo menos vinte anos.”

“Ah! Você não sabe quanto eu sofro.”

“Mas espero que você consiga superar tudo isso e que ainda viva o bastante para ver muitos rapazes com quatro mil libras por ano se mudarem para cá.”

“Mas de que adiantariam tanto se você não fosse visitá-los?

“Pode contar com isso, minha cara; quando houver vinte deles, irei visitar todos.” (AUSTEN,  2011,  p.  105)

Em poucas linhas, temos a imagem não apenas da dinâmica entre o casal, mas da dinâmica entre pais e filhas, suas personalidades, seus interesses e idiossincrasias. Segundo Reuben Brower (1963), além de o diálogo em Orgulho

e preconceito ser intensamente dramático, os personagens são caracterizados por

idioletos próprio, sendo possível identificar um determinado personagem apenas por sua forma de utilizar a linguagem. Ian Watt (1963) lembra que alguns

teóricos apontaram uma semelhança entre os poderes de caracterização e diálogo de Austen e aqueles de Shakespeare.

Outro aspecto relevante do romance é sua estrutura peculiar. Nafisi argumenta que Orgulho e preconceito apresenta uma estrutura que remete a danças do século XVIII:

O ritmo para trás e para frente da dança se repete nas ações e nos movimentos dos dois protagonistas, em torno dos quais a trama é criada. Eventos paralelos os