Parte I : Enquadramento Teórico
1.1. ORIGEM E CONCEITO DA APRENDIZAGEM INVERTIDA
O uso da estratégia de aprendizagem invertida tem suas origens ainda na década de 90. Em 1991, Erick Mazur iniciou estudos acerca da instrução de ensino através dos colegas de
38 turma, que resultaram na publicação em 1997 do livro Peer instruction a user’s manual. Esta abordagem consiste no estudo prévio de material instrucional de modo a incitar os alunos a discutirem e responderem com seus pares sobre questões conceituais. Em 1999, Gregor Novak e outros pesquisadores defenderam a abordagem Just-in-Time Teaching, ou seja, prática pedagógica a qual o aluno assume a responsabilidade de se preparar para aula através de alguma tarefa prévia, como a leitura de um texto, por exemplo. No ano 2000, o conceito de sala de aula invertida (flipped classroom) foi apresentado por Baker em um congresso internacional e, nesse mesmo ano, Lage, Platt e Treglia publicaram um artigo apresentando resultados positivos sobre a percepção e o desempenho dos alunos submetidos à estratégia de aprendizagem invertida. Já em 2004, Salmann Khan começou a gravar alguns vídeos a pedido de sua prima, que justificou tal solicitação em poder ter acesso a determinado material sempre que precisasse. Khan não só atendeu ao pedido da prima, como também continuou a produzir vídeos até fundar a Khan Academy, uma entidade sem fins lucrativos, a qual passou a disponibilizar videoaulas, popularizando, desta forma, a ideia de sala de aula invertida (Schmitz, 2016; Trevelin, Pereira, & Neto, 2013; Valente, 2014).
Embora não seja recente a ideia de inversão na sala de aula (Schmitz, 2016; Teixeira, 2013; Trevelin, Pereira, R.; & Neto, 2013; Valente, 2014), com o intuito de alcançar melhores resultados de aprendizagem, só ganhou forma em 2007 com os professores norte-americanos Jonathan Bergman e Aaron Sams, ambos professores de Química em Woodland Park High School, Woodland Park, no estado do Colorado (Panzavolta (INDIRE, Italy) & Carvalho (Direção-Geral da Educação, Portugal) , 2013; Valente, 2014). Bergman e Aaron Sams (2012) entrelaçam laços de profissionalismo e amizade e passaram a planejar conjuntamente suas aulas, visto que apresentavam filosofias educativas semelhantes. Desse contato, observaram que os alunos dessa escola faltavam muito às aulas devido à prática de esporte e de outras atividades. Ao lerem um artigo sobre software de criação de vídeos, perceberam ali a “chave” para solucionar o problema dos alunos que não compareciam às aulas (Bergmann & Sams, 2012).
Não obstante, os problemas observados não se limitavam à ausência de alguns alunos nas aulas, mas também foi verificado por ambos os professores que alguns alunos que assistiam a suas aulas regularmente não estavam conseguindo traduzir em informação o conteúdo ministrado por eles e que cada aluno possuía um ritmo diferente de aprendizagem, apresentando pouco interesse e motivação pelos conteúdos e baixa autoestima. Os professores chegaram à conclusão de que seus alunos necessitavam muito mais da ajuda deles no momento da realização de atividades mais complexas, como por exemplo resolução de problemas, atividades investigativas, estudos de caso, experimentos, entre outras, do que da transmissão de informação (Bergmann & Sams, 2012).
39 Diante da constatação, perceberam que precisavam maximizar o tempo de sala de aula de forma que eles pudessem aproveitar mais o tempo de aula orientando e facilitando a aprendizagem dos alunos (Bergmann & Sams, 2012). Assim, os docentes passaram a gravar suas aulas e disponibilizá-las para os alunos assistirem previamente como tarefa de casa, objetivando ganhar mais tempo do horário de aula para se dedicarem em ajudar e orientar os alunos a respeito do conteúdo que eles não compreendiam e as tarefas que eles não conseguiam realizar sozinhos (Bergmann & Sams, 2012).
Posto isto, os professores não só passaram a implementar a sala de aula invertida em suas turmas do Ensino Secundário, como também disseminaram a estratégia pedagógica para vários outros institutos universitários de renome, como Duke, Stanford e Havard. Segundo Ramal (2015, para.4):
Em Harvard, nas classes de cálculo e álgebra, os alunos inscritos em aulas invertidas obtiveram ganhos de até 79% a mais na aprendizagem do que os que cursaram o ensino tradicional. Na Universidade de Michigan, um estudo mostrou que os alunos aprenderam em menos tempo. O MIT (Massachusetts Institute of Technology) considera a Flipped Classroom fundamental no seu modelo de aprendizagem. O método é adotado em escolas da Finlândia e vem sendo testado em países de alto desempenho em educação, como Singapura, Holanda e Canadá. Segundo Valente (2014), a partir daí, o termo aprendizagem invertida ou sala de aula invertida passou a ser uma prática educativa modelo, sendo adotado em diversas escolas do Ensino Básico, Secundário e Superior.
No entanto, em Portugal, embora haja alguns exemplos de escolas que aplicaram essa prática pedagógica com, por exemplo, o Colégio Monte Flor (Carnaxide), Escola Secundária Quinta do Marquês (Oeiras), Agrupamento de Escolas de Monte da Lua (Sintra) e Agrupamento de Escolas do Freixo (Freixo), o seu uso se encontra pouco aplicado, pois só algumas dessas escolas utilizam o modelo de sala de aula invertida na íntegra, conservando apenas parte do conceito dessa estratégia, a exemplo das metodologias ativas de aprendizagem.1
Os professores Bergman e Sams (2012) descrevem a sala de aula invertida ou aprendizagem invertida como uma abordagem ao processo ensino e aprendizagem na qual permite inverter o papel tradicional do professor. Os alunos são expostos aos conceitos fora da sala de aula, geralmente, fornecido através da apreciação e análise de vídeos online com o emprego das tecnologias digitais, no sentido de ganhar tempo para processos mais elementares, ou seja, liberar espaço da aula em processos em que os alunos apresentam mais dificuldades em
1 in, Flipped Classroom em Portugal, disponível em http://observador.pt/2016/09/13/e-se-a-sala-de-aula-desse-
uma-cambalhota, consultado em 27 de março de 2017.
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40 assimilar e/ou desenvolver, como: inquérito, resolução de problemas, discussões e/ou debates. Do mesmo modo, Lage, Platt, e Treglia (2000, p. 32) resumem o conceito de aprendizagem invertida como “events that have traditionally take place inside the classroom now take place outside the classroom and vice-versa”.
Ainda Ramal (2015) define a aprendizagem invertida como sendo uma abordagem na qual o aluno estuda os conteúdos básicos antes da aula presencial através de vídeos, textos, arquivos de áudio, games e outros recursos e, em sala de aula, o professor aprofunda o com metodologias ativas, como exercícios, estudo de caso e conteúdos complementares. Para a autora, o pós-aula funciona como uma espécie de fixação do conteúdo e de integração aos conhecimentos prévios por meio de atividades interativas, cooperativas e avaliativas.
Em consonância Bishop e Verleger (2013) definem aprendizagem invertida como uma técnica educacional que consiste em práticas pedagógicas que promovam atividades em grupo dentro e fora da sala de aula e instrução direta baseada em computadores. Os autores chama-nos atenção para a denominação errônea empregada por alguns pesquisadores, de sala de aula invertida. Para eles, esta denominação, no fundo, implicaria que a sala de aula invertida simplesmente representasse uma reordenação da sala de aula tradicional, em vez de ser na sala de aula, seria em casa. Entretanto, o conceito de sala de aula invertida, na prática, não pode e nem deve ser um reordenamento da sala tradicional, pois o objetivo primordial é expandir o currículo, em vez de uma mera organização.
Para Bergmann e Sams (2012), Bishop e Verleger (2013), bem como para Taivola e Silfverberg (2014) existe uma diferença nos conceitos de sala de aula invertida (Flipped Classroom) e aprendizagem invertida (Flipped Learning). Aquela representa uma mudança técnica no ensino, ou seja, um rearranjo das atividades de ensino; já esta representa uma visão mais ampla de “inverter”, visto que para ocorrer a inversão tradicional de ensino é necessário o desenvolvimento de metodologias ativas de aprendizagem e centrada no aluno, pois, segundo esses mesmos autores, sem a ativa participação e envolvimento do aluno no processo de aprendizagem, tal conceito não existiria. Nesse sentido, para que não haja dúvida, esclarecemos que, neste trabalho investigativo, iremos fazer uso do termo aprendizagem invertida, tendo em conta que objetivamos não só promover novas ações de professores e alunos, mas também promover um ambiente de aprendizagem dinâmico, assente nos quatro pilares anunciados pelo Flipped Learning Network . São eles: ambiente flexível, cultura de aprendizagem, intencionalidade dos conteúdos e educador profissional (FLN, 2014).
De referir que a abordagem de aprendizagem invertida não se trata de uma instrução online, aproveita-se a tecnologia moderna para construir um ambiente sustentável, reprodutivo e
41 orientador. O maior benefício não está na tecnologia ou nos vídeos instrucionainais e, sim, no tempo extra de aula que se ganha devido a prévia reflexão do estudante sobre o tema abordado. Verificam-se, visivelmente, atividades assincrônicas, ou seja, basicamente, os alunos estão trabalhando em atividades em diferentes momentos, empenhados e envolvidos em sua aprendizagem. Alguns estão desenvolvendo atividades de inquérito ou resolução de problemas, outros estão assistindoa vídeos em seus dispositivos móveis pessoais, outros trabalhando em grupo, os demais interagindo em ambiente virtuais, uns estudando em pequenos grupos e até mesmo, alguns realizando avaliações em um computador da escola ou no seu próprio aparelho telefônico (Bergmann & Sams, 2012).
Diante do exposto, fica claro que essa estratégia é uma prática de ensino e aprendizagem em que os alunos interagem em uma sala de aula presencial; não se trata, como já dissemos, de uma docência online, tampouco significa “não lecionar”. Ao contrário, inverter a sala de aula diz respeito a uma atividade de ensino presencial que requer muita dedicação e compromisso por parte de professores e alunos.