PARTE II – ENQUADRAMENTO EMPÍRICO
4.2 ESTRATÉGIAS DE INVESTIGAÇÃO
4.3.1 Variável Independente: estratégia de aprendizagem invertida
Primeiramente convém esclarecer o termo “estratégia”, visto que tem sido usado numa variedade de contextos, realidades e sentidos e, conforme bibliografia por nós compulsada, não há uma definição simples e unívoca desse termo.
134 Para Petrucci e Batiston (2006), o termo estratégia, historicamente, é proveniente de terminologia militar, ou seja, estratégia está vinculada à arte dos militares de planejar, projetar ações a serem executadas nas guerras. Para Roldão (2009), o uso desse termo é muito visível em jogos de futebol, em que se verificam ações globais dos jogadores referentes às estratégias definidas pelo treinador ou técnico, como posição em campo, técnica de chutar a bola, tácitas de campo e recursos a serem utilizados durante o jogo. Todavia, para esses autores, embora essas noções de estratégia no campo militar e desportivo estejam intimamente ligadas às estratégias de ensino e aprendizagem, pelo fato de ambas atribuírem o sentido de conceber e planejar um conjunto global de planos e ações, não deve ser confundido, visto que esta se trata de planejar, conceber e executar uma ação intencional no sentido de maximizar a aprendizagem. Aquela induz um sentido de combatividade e competitividade.
Para Roldão (2009), no campo da atividade educativa a palavra estratégia é vulgarmente utilizada, mas por vezes confundida como sinônimo de outros termos como “atividade ou tarefa”, “método”, “procedimento”, “técnica”, “habilidade”, etc.48 e que nem sempre é
concedido ao termo o mesmo significado com que é utizado. De acordo com Roldão (2009) estratégia não é uma atividade ou tarefa, nem tampouco uma técnica. Embora a estratégia se desenvolva através de uma atividade ou tarefa, isso não significa que estejamos tratando dos mesmos conceitos, pois um professor pode propor um conjunto de atividades ou tarefas com o uso de diversas estratégias conforme a finalidade que ele queira alcançar. Por outro lado, a serviço de uma estratégia existem diferentes técnicas específicas a serem executadas conforme os objetivos, conteúdo e limitações de cada aluno.
Para esta autora, a estratégia é vista como uma ação global, organizada no sentido da sua eficácia e “o elemento definidor da estratégia de ensino é o seu grau de concepção intencional e orientadora de um conjunto organizado de ações para a melhor consecução de uma determinada aprendizagem” (Roldão, 2009, p. 57).
Schmeck (1988); Genovard e Gotzens (1990, citados por Valle Arias, Barca Lozano, González Cabanach, & Núñes Pérez, 1999) e Schunk (2012) esclarecem que as estratégias de aprendizagem são um conjunto de atividades orientadas para a execução de uma meta de aprendizagem e que as técnicas de aprendizagem são os procedimentos específicos incluídos nas estratégias para conseguir alcançar as metas de aprendizagem. Os autores acrescentam ainda que as técnicas para serem colocadas em prática requerem ações por parte do aluno
48 Muitas vezes é difícil precisar o sentido exato com que cada autor usa o termo estratégia. Autores como Clark
e Biddle (1993), Lamas (2000) e Nisbet e Shucksmith (1987) citado por Roldão (2009), usam o termo estratégia, em sentido lato, como sendo sequências integradas de procedimentos, ações e atividades ou passos escolhidos com um claro e determinado propósito (Roldão, 2009: 57).
135 através do conjunto de ferramentas cognitivas que habitualmente são denominadas de habilidades.
Para Brown, H. D. (2000b), estratégia é uma técnica para resolver um problema ou tarefa, formas de operação para alcançar um fim particular, modelo planejado para controlar e manipular certas informações, podendo variar de momento a momento e também intra- individualmente, visto que cada indivíduo possui formas diferentes para solucionar problemas. Para Ellis (1994, p. 529), no que diz respeito ao uso das estratégias em contexto de aprendizagem de uma LE, a “strategy consisted of mental or behavioural activity related to some specific stage in the overall process of language acqusition or language use”.
As estratégias de aprendizagem estão relacionadas ao input no processo, estocagem e recuperação da mensagem, dividindo-se em três categorias:
a) Estratégias cognitivas; b) Estratégias metacognitivas; c) Estratégias socioafetivas.
As estratégias cognitivas são definidas como comportamentos e pensamentos que influenciam na codificação, compreensão, recordação e recuperação da informação de forma satisfatória sempre que for necessário. Essa estratégia tem como função integrar o novo conhecimento com o conhecimento prévio, considerada, por alguns autores, como as micro- estratégias, quer dizer, estratégias específicas para cada tarefa e que se relacionam com conhecimentos e habilidades concretas, portanto, mais fáceis de serem ensinadas (Kirby, 1984 citado por Valle et al, 1999; Boruchovitch, 1999; Ribeiro, 2001); exemplo: ensaio, elaboração e organização do conhecimento.
As estratégias metacognitivas são os procedimentos que os alunos utilizam para planejar, controlar e regular sua própria cognição, ou seja, um conjunto de procedimentos que permitem ao aluno o conhecimento dos seus próprios processos mentais, bem como o controle e a regulação desses processos no sentido de alcançar satisfatoriamente metas de aprendizagem (Costa & Boruchovitch, 2004). Essas estratégias são consideradas as macro-estratégias, visto que são mais gerais do que as micro-estratégias (Ribeiro, 2001), apresentando um elevado grau de transferência, sendo menos propensas a serem ensinadas e estão intimamente ligadas ao conhecimento metacognitivo (Valle et al, 1999).
As estratégias socioafetivas são denominadas por Dansereau (1985) de estratégias de apoio e por Weinstein e Mayer (1986) de estratégias afetivas (Valle et al, 1999) e reportam-se à forma como os alunos captam a tarefa (Ribeiro, 2001). Estas estratégias estão formadas por diversos procedimentos autorregulatórios (controle do tempo, organização do ambiente de
136 estudo, habilidade e controle de esforço) e recursos de modo que a resolução da tarefa seja concluída eficazmente (Monereo e Clariana, 1993 citado por (Barca Lozano, Valle Arias, Núñes, & Cabanach, 1999). Para além, tem como função despertar nos alunos o interesse para aprender, integrando três variáveis importantes: a motivação, o envolvimento e o afeto (Valle, Cabanach, González, & Suárez, 2006).
Para Brown, H. D. (2000b), no que diz respeito à aprendizagem de uma LE, para além das estratégias de aprendizagem, há as estratégias de comunicação. Estas estão relacionadas ao output e são utilizadas pelo aprendiz de línguas para promover a comunicação com o outro, por exemplo, quando o aprendiz enfrenta dificuldade na comunicação por falta de conhecimento da língua, faz uso de estratégias comunicativas para continuar a comunicação. Referem-se ao emprego de mecanismos verbais e não-verbais para realizar uma comunicação produtiva da informação. Assim, conforme Brown, H. D. (2000b), enquanto as estratégias de aprendizagem estão relacionadas à memória, armazenamento e recordação, as estratégias de comunicação pertencem ao emprego de mecanismos verbais e não-verbais para a comunicação produtiva da informação.
Desde o nosso ponto de vista, as estratégias de ensino são as várias configurações que o professor desenvolve por meio de diversas combinações e sequências de métodos, técnicas, atividades, experiências, materiais e meios, de forma que os alunos possam alcançar satisfatoriamente os objetivos de aprendizagem. Já as estratégias de aprendizagem correspondem ao conjunto de habilidades comportamentais e procedimentais empreendidas pelo aluno para processar a informação, controlar e regular o processo cognitivo para alcançar os objetivos educacionais propostos.
Do conceito de estratégia de ensino e aprendizagem, definido, assim, como Ramos (1997), destacamos alguns pontos importantes: a necessidade da existência de sequências de atividades e experiências de aprendizagem pré-definidas para as unidades ou subunidades didáticas; a importância da utilização de novas estratégias de ensino e aprendizagem, tendo em conta que o momento que nossos alunos estão vivendo hoje exige, devido às várias transformações no campo econômico e, principalmente tecnológico, novos e diferentes desafios à educação; a importância de se ter bem claros para os sujeitos envolvidos (professores e alunos) os objetivos a serem alcançados; a importância de se desenvolverem estratégias de ensino e aprendizagem que valorizem o papel ativo dos alunos; a diversidade de papéis a desempenhar pelo professor; novas configurações nos espaços escolares (que têm o significado de que todos os espaços dentro e fora da sala de aula são espaços de aprendizagem), a relevância da utilização dos vários recursos (tecnológicos ou não) meios e materiais a utilizar no desenvolvimento da estratégia de ensino e aprendizagem.
137 Cabe referir que, a este nível, a seleção e planejamento de estratégias de ensino e aprendizagem é uma tarefa realizada pelo professor quando este esboça a planificação de suas aulas em consonância com as unidades e subunidades didáticas sugeridas pelos programas das disciplinas. A variável independente corresponde à estratégia de aprendizagem invertida, destinada à lecionação de uma unidade didática do programa da disciplina de Inglês do 10º ano de escolaridade. Esta estratégia resulta da combinação e sequência de um conjunto de atividades e experiências de ensino e aprendizagem.
Considerando que definimos a estratégia de aprendizagem invertida como um quadro conceitual e orientador, estruturado em múltiplas dimensões (dimensão do conteúdo, dimensão pedagógica, dimensão humana e dimensão tecnológica) em que a aprendizagem com recurso à estratégia de aprendizagem invertida se concretiza em um lugar multidimensional, no qual seja proporcionado um alargamento do tempo de aprendizagem por meio da combinação e sequência de atividades e experiências educativas tendo em vista a aquisição e construção significativa do conhecimento, a partilha social do conhecimento, o envolvimento e motivação do aluno para a aprendizagem.
Assim, o desenvolvimento desta estratégia de ensino e aprendizagem implica:
a) Na dimensão do conteúdo, a necessidade de o professor preparar um material significativo sobre o conteúdo a ser tratado na sala de aula − de preferência com recurso às NTIC −, de forma que o aluno autonomamente tenha acesso prévio a este material antes de chegar à sala de aula, de maneira que, em sala, o professor possa fazer o melhor uso do tempo em atividades centradas no aluno.
b) Na dimensão pedagógica, a necessidade de se ter bem claras as sequências de atividades e experiências a serem desenvolvidas dentro e fora da sala de aula, objetivos e atividades bem definidos e claro para ambos (professor e alunos); os tempos de execução das tarefas, os materiais a serem utilizados, a constituição dos grupos, o tipo de avaliação a ser realizada etc. A estratégia com recurso à aprendizagem invertida foi projetada de acordo com as fases definidas: motivação e expectativa, exploração de conceitos, produção de significados, demonstração e aplicação dos conhecimentos e comunicação dos resultados. Em cada uma destas fases desenvolveram-se alternadamente sequências de atividades mediadas pelas NTIC, atividades baseadas na expressão oral e escrita, leitura de textos, trabalho em pares e/ou grupo, trabalhos cooperativos, pesquisas, debates e dramatizações. Esta alternação de situações de aprendizagem mais tradicionais do tipo instrutivo e situações de aprendizagem experienciais no ensino de Inglês parece, segundo Allen (1986, in Brumfit C. J., 1986), trazer ganhos substancias ao processo educativo.
138 c) Na dimensão humana, a definição dos papéis do professor e dos estudantes como protagonistas da construção interacionista do conhecimento. No caso do professor, a estratégia é marcada pela diversidade de papéis e no caso dos alunos é marcada pela sua co-responsabilização no seu próprio processo de construção do conhecimento. d) Na dimensão tecnológica, a mediação das NTIC como apoio aos processos de ensino
e aprendizagem, proporciona aos alunos um suporte/meio para a utilização e exploração do conteúdo (ou seja, apresentação conceitual, factual do conteúdo), a (re)construção de novos conhecimentos por meio de ferramentas disponibilizadas para este efeito e também a utilização de ambientes virtuais de aprendizagem em que os alunos possam não só interagir com o conteúdo, mas também com os colegas e professor.
Definida a estratégia de ensino e aprendizagem com recurso à aprendizagem invertida, sublinhamos que esta estratégia de ensino e aprendizagem apresenta ainda dois planos essenciais: a primeira corresponde à estratégia de ensino e aprendizagem concebida e desenvolvida a partir dos elementos recolhidos na dimensão anterior, a segunda dimensão corresponde a um modo específico de pensar e implementar uma estratégia de ensino e aprendizagem que considere nos seus contornos formais o uso da NTIC em contexto escolar e sua integração no currículo do ensino secundário.
No que diz respeito à primeira dimensão insistimos, apoiados pela literatura, que a estratégia de aprendizagem invertida tem como finalidade melhorar os ambientes de aprendizagem, tornando mais eficaz e eficiente o processo de ensino e aprendizagem nas componentes cognitiva, socioemocionais e afetivas por meio de uma variedade de atividades, técnicas e métodos de forma a proporcionar mais tempo da aula em atividades centradas no aluno, de maneira que, estas atividades possam favorecer a motivação e o envolvimento dos alunos para a aprendizagem de Inglês e, por conseguinte, melhorar os resultados de aprendizagem. Em suma, a variável independente nesta investigação corresponde à estratégia de aprendizagem invertida aplicada a uma unidade didática, neste caso, do programa da disciplina de Inglês do 10º ano de escolaridade numa escola secundária portuguesa49.