3 O REPÚDIO AO MANGUE A PARTIR DO SÉCULO XIX: UM PERIGO À
3.2 O saneamento dos terrenos paludosos
3.3.2 Os alagados nos tempos do Governo Sergio Loreto (1922-1926)
A gestão de Sergio Loreto investiu em melhoramentos urbanos que culminaram em novas linhas de transporte sobre trilhos243 para interligar áreas centrais do Recife aos seus arrabaldes. O questionamento sobre a quem serve o “progresso” do Recife, no período estudado, encontra possíveis respostas no fato de que a “modernização” do meio urbano no Governo Sergio Loreto: “ocasionou a valorização do solo, o aumento da especulação imobiliária e ganhos financeiros para empresários e para aqueles que estavam próximos à administração estadual”244.
É certo que desde o Artigo 105 do Regulamento da Repartição de Saneamento do Estado de Pernambuco245, a responsabilidade em sanear os alagados foi devidamente imposta como um compromisso do Estado. Ao assumir esse papel, o Governo de Sergio Loreto fez reformas urbanas que alteraram a vida dos manguezais especialmente da zona sul do Recife, com a construção da Avenida Beira-Mar, e do centro, com a reforma empreendida no bairro do Derby.
240 Idem. Ibid.
241 Idem Ibid.
242 CORBIN, Alain. Saberes e Odores. Op. Cit. p.193.
243 Segundo Bruno Nascimento, para garantir a circulação de pessoas e do capital na cidade do Recife “os habitantes da cidade precisavam diminuir o tempo de deslocamento entre os arrabaldes da cidade e os locais de trabalho, uma vez que os preços dos aluguéis em habitações próximas ao centro eram cada vez mais altos. Necessitavam, portanto, contar com transportes mais rápidos e seguros”. Idem. Ibid.
244 Idem. p.51.
245 O Artigo 105, no Título III, segunda seção, afirma que “O governo, em ocasião oportuna, procederá ao trabalho de saneamento dos terrenos paludosos, por meio da drenagem e dos aterros”. Art. 105 . –Título III, segunda seção. Regulamento da Repartição de Saneamento do Estado de Pernambuco, 30 de Abril de 1918. p.34-35. APEJE.
A burguesia do Recife, que passou a aderir a prática dos banhos de mar como um meio para a talassoterapia246, segundo Bianca Cruz dos Anjos, sentiu a necessidade de ocupar novas áreas da cidade, que erguesse novos espaços de sociabilidade247. Sendo os anseios da classe alta uma prioridade para o Estado, uma Avenida Beira-Mar, entre o Pina e Boa Viagem, foi construída, simbolizando a pulsação dos “tempos modernos”.
A obra foi entendida como uma forma de sanear aquela “zona alagadiça e impaludada”, além de ser um caminho para o “progresso tanto mental quanto material da população”248. De acordo com Bruno Nascimento, os mocambos do Pina entravam em
contraste com os monumentais palacetes à beira mar e, também, os pescadores que ali viviam passaram a perder espaço para os inúmeros profissionais liberais, empresários e comerciantes que gozavam do privilégio de uma propriedade no “novo bairro balneário”249.
Na mesma lógica de favorecer a especulação imobiliária, no bairro do Derby, os alagados foram devidamente aterrados para a construção de um novo prédio que abrigasse a força pública250. A arborização das praças, o calçamento das ruas desde o bairro do Capunga até o Derby, a construção de canais, todas essas obras fizeram jus ao discurso modernizante. A construção do canal projetado por Saturnino de Brito, que ia do Jardim 13 de Maio ao Derby, foi visto como uma forma de retirar os mangues do centro:
não somente constituirá esse canal um aformoseamento para a cidade, mas, também prestará valioso auxílio à Higiene do Estado, fazendo desaparecer pela drenagem e pelo aterro posterior muitos desses mangues que tanto preocupam os nossos higienistas e que muito nos fazem desmerecer aos olhos dos que nos visitam. (...). Construindo o canal que dará, principalmente, às duas áreas citadas [a do 13 de Maio e a da Campina do Derby], as mais desejadas condições de beleza, drenados os mangues e, portanto valorizados os terrenos, não será difícil ao sr. Prefeito aproveita-las para dois belos parques (...) terrenos hoje abandonados e sem utilidade, ficarão amanhã saneados e úteis para a construção. Os canais constituem a solução do problema dos mangues251.
246 De acordo com o próprio médico Amaury de Medeiros, a praia de Boa Viagem “é uma longa piscina, onde as águas tranquilas permitem, sem perigo, a talassoterapia”. MEDEIROS, Amaury de. Saúde e Assistência: doutrinas, experiências e realizações (1923-1926). Recife, 1926. Acervo LAPEH. p.279.
247 ANJOS, Bianca Cruz dos. A Casa de Banhos dos Arrecifes: sociabilidade e difusão do higienismo em Recife (1880-1924). Dissertação do Programa de Pós Graduação em História da UFPE, 2019.
248 NASCIMENTO, Bruno. Entre a “mendigópolis” e o Recife Novo. Op. Cit. p.58. 249 Idem .p.57.
250 Foi inaugurado parcialmente o Quartel do Derby em 18 de outubro de 1924, com a Exposição Geral de Pernambuco marcando as comemorações pelo segundo aniversário da administração Sérgio Loreto e o Centenário da Confederação do Equador. Idem p.52.
Em mensagem ao Congresso Legislativo, em 1925, Sergio Loreto ressaltou a importância das obras realizadas no Derby, por ter transformado um “vasto pântano, que era aquela campina, em um belo logradouro”252. A reforma do Derby esteve articulada com um
sistema viário e de drenagem, com o intuito de que esse novo bairro deixasse de ser zona pantanosa e propícia ao impaludismo, para tornar-se um local salubre253, com parques e praças.
A ideia de que as cidades poderiam ser geridas a partir de critérios técnicos ou científicos254 impulsionou a atividade dos médicos e engenheiros na atuação do Estado, em que aqui destaca-se o protagonismo do médico Amaury de Medeiros. Empenhado em combater a malária, que segundo o Diario de Pernambuco “A denominação impaludismo ou febre palustre, deriva da palavra palus, que significa charco ou pântano, e a palavra malária de mau ar”255, Medeiros empreendeu vários aterros e drenagens de alagados no Recife.
O nome “mangue”, no início do século XX, era comumente vinculado a ideias negativas, e uma delas era a malária256. Essa doença, associada às áreas pantanosas desde as tábuas cuneiformes mesopotâmicas (2.000 a.e.c.) às escrituras Vedas na Índia (1.800 a.e.c.)257, ganhou um remédio eficaz feito com casca de quinina graças aos incas258. Contudo, os alagados, vistos como um foco de infecção, foram combatidos como “pântanos que alimentam a malária equatorial”259 - combate essa que mereceu, desde o início do serviço, a
atenção de Medeiros260, e os demais administradores da gestão Sergio Loreto. Na imagem abaixo, uma das obras realizadas pelo médico no intuito de combater a malária, dentre outras tantas na capital e também no interior de Pernambuco:
252 Mensagem de Sergio T. Lins de B. Loreto ao Congresso Legislativo de Pernambuco. 1ª Sessão da 12ª legislatura. Recife, 06 de Março de 1925. Acervo APEJE. p.45.
253 NASCIMENTO, Bruno. Entre a “mendigópolis” e o Recife Novo. Op. Cit. p.51-52. 254 Idem. p.37.
255 Diario de Pernambuco, 07 de Dezembro de 1935.
256 JACKSON, John R. The Mangrove and its allies. Berkeley, University of California, 1900. p.65. Disponível em archive.org. Acesso em 05/12/2018.
257 CAMARGO, Erney Plessmann. A malária encenada no grande teatro social. Estud. Av. [online].vol.9, n.4, 1995. p.211-228.
258 Idem. Ibid.
259 Diario de Pernambuco 25 de Novembro de 1924.
260 O combate das “febres palustres” no Brasil, ou seja, da malária e da febre amarela, foi acompanhado da mão norte-americana através da Fundação Rockefeller, essa relação com a Fundação repercutiu em vários setores da sociedade. Para maior aprofundamento, ver ANAYA, Gabriel Lopes. Maus ares e malária: Entre os pântanos de Natal e o feroz mosquito africano (1892-1932). Dissertação em História da UFRN, 2011.
Figura 11- Início das obras do canal de alvenaria construído para drenagem no Derby
Fonte:Medeiros (1926)
Figura 12 - Conclusão das obras do canal de alvenaria construído para drenagem no Derby
Outra questão chave que mereceu a atenção de Amaury de Medeiros foi a da habitação e, esse sim foi o fio condutor das ações da Liga Social Contra o Mocambo. Medeiros argumentava que os mocambos eram habitações que estampavam o atraso de Pernambuco, comparando-os às habitações dos pobres que viviam nos Estados Unidos, França, Bélgica, Holanda, obviamente concluindo que as moradias humildes dos “países cultos” eram muito melhores261. Segundo o médico higienista:
Recife era uma velha cidade cheia de ruas estreitas e casas sem conforto; as obras do porto conseguiram renovar rapidamente uma pequena parte, que é hoje um contraste com os “mucambos” que povoam os mangues, e, o que talvez seja pior, a casaria velha e condensada que cobre o bairro de São José, e não é rara nos bairros de Recife, Santo Antônio, Boa Vista e Santo Amaro. Isto dá, ainda por vezes, da capital de Pernambuco as impressões mais diversas; ora parece a quem a atravessa, que está em uma grande e moderna cidade civilizada e, outras vezes, tem-se a visão estranha dos aldeamentos indígenas da África tão comuns no Senegal262.
Os mocambos na cidade do Recife instituíram uma verdadeira vizinhança dentro do mangue, onde foram construídas relações entre pessoas, plantas, água, lama, mariscos e caranguejos. As “mansardas palustres” ou “mansardas africanas”263, segundo o Diario da
Manhã, foram cenário de um verdadeiro conflito entre o interesse do capital e uma possibilidade de vida a partir do ecossistema que, segundo Josué de Castro, é um verdadeiro “camaradão”264. A classe dominante do Recife construiu um discurso contra os alagados que
atravessou séculos e, com o apoio de seus representantes no poder265, as políticas públicas que confrontaram o manguezal e sua população humana encontraram formas cada vez mais incisivas, notadamente, com a atuação da Liga Social Contra o Mocambo.
261 MEDEIROS, Amaury de. Saúde e Assistência: doutrinas, experiências e realizações (1923-1926). Recife, 1926. Acervo LAPEH. p.329.
262 Idem. p.326.
263 Diario da Manhã, 15 de Outubro de 1929.
264 CASTRO, Josué de. Homens e caranguejos. Op. Cit.
265 Segundo o próprio Saturnino de Brito “a cidade permanece insalubre; só estará saneada depois do normal funcionamento do serviço de aguas e esgotos, da reforma das habitações insalubres e da eliminação dos mocambos.” BRITO, F. Saturnino Rodrigues de. Saneamento de Recife: Descrição e relatórios. Recife, 1917. Acervo LAPEH. p.36.
4 AS “VOZES BAIXAS” DOS TERRENOS ALAGADOS NA ERA VARGAS: A LIGA