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CAPÍTULO III – CONTRIBUIÇÕES LINGUÍSTICAS

3.7. Os conceitos de gramática

O ensino de gramática proposto neste trabalho de pesquisa está orientado de acordo com a EL, portanto não se constitui como a transmissão

de conceitos ou o conjunto de atividades estruturais descontextualizadas que não formam nem produtores nem receptores de textos orais e escritos. É proposto o ensino da gramática contextualizado a fim de tornar-se um conhecimento significativo para o aprendente e que lhe permite desenvolver relações sociais. Para seguir essa proposta, é preciso definir para que se ensina gramática, quais os tipos de gramática existentes e que uso se faz delas.

Para responder à primeira pergunta, iremos considerar os quatro objetivos apresentados por Travaglia (2006):

• O primeiro objetivo é desenvolver a “competência comunicativa” para ser capaz de utilizar adequadamente a língua em diversas situações de interação. Para dominá-la, é preciso dominar a competência gramatical ou linguística (o usuário constrói orações ou frases que seguem as regras gramaticais) e a textual (é a capacidade de, em situações de uso, empregar e reconhecer os recursos linguísticos para produzir textos);

• O segundo objetivo é desenvolver a competência comunicativa para “desenvolver a capacidade de produzir e compreender textos nas mais diversas situações de comunicação”;

• O terceiro objetivo está relacionado ao conhecimento formal do funcionamento da língua em sua forma e função;

• O quarto objetivo relaciona-se a desenvolver atividades metalinguísticas para ensinar a teoria gramatical e ao mesmo tempo estimular o aprendente a pensar e raciocinar (Cf. TRAVAGLIA, 2006, p. 17-20).

Essas quatro propostas não são excludentes, e estão, inclusive, relacionadas à definição de língua apresentada.

Definidos quais os objetivos de seu ensino, agora é preciso apresentar os conceitos de gramática para que o professor possa, de modo consciente, selecionar qual a mais adequada para os objetivos de sua atividade. Mas antes vamos pensar sobre um equívoco quanto à gramática.

Por vezes confunde-se o conceito de gramática tradicional com ensino de língua materna e, assim, passa-se a ensinar apenas regras de como escrever “corretamente”. Ensino de língua não está restrito ao ensino de normas, e a língua e o seu ensino não estão contidos na gramática normativa.

Para a EL, o ensino da gramática normativa deve ser desenvolvido no ambiente escolar, não para estabelecer critérios de certo ou de errado, e sim para desenvolver a adequação do uso à situação. O domínio da norma-padrão permite ascensão social, por isso seu ensino deve estar contextualizado, como forma de dominar os recursos linguísticos relativos a determinado gênero textual.

Não afirmamos que a única variedade a ser ensinada na escola deve ser a culta. A proposta é não restringir o ensino apenas a nomenclaturas e nem à análise de frases isoladas, mas sim trabalhar com a análise de textos concretizados nos gêneros textuais. O aprendente precisa tomar contato com diferentes variedades linguísticas.

Travaglia (2006) apresenta quatro concepções de gramática. A primeira é a gramática normativa, que representa o ensino prescritivo de um conjunto de regras a serem ensinadas para se expressar adequadamente. Não considera a língua oral. A língua recebe a denominação de norma culta ou padrão, e é definida pelos ideais de purismo, vernaculidade, classe social de maior prestígio (econômica, política e cultural), escritores consagrados, pela lógica e pela tradição. Seguir suas normas representa falar e escrever bem. Tem como objetivo o bom uso da língua e os desvios são considerados erros (Cf. p. 25- 26).

Conforme o autor citado (2006, p. 28), a segunda concepção é a chamada gramática descritiva. Esta procura registrar e descrever os usos da língua através da forma e da função a fim de definir a adequação à situação.

A gramática internalizada é a terceira concepção. Nela, o conhecimento linguístico utilizado pelo usuário não foi adquirido de modo sistematizado ou formal, sua aprendizagem não depende de uma escolarização. Segundo Travaglia (2006), o conhecimento das regras e dos princípios da língua surgem de hipóteses:

Nessa concepção de gramática não há o erro linguístico, mas a inadequação da variedade linguística utilizada em uma determinada situação da variedade linguística utilizada em uma determinada situação de interação comunicativa, por não atendimento das normas sociais de uso da língua, ou a inadequação do uso de um determinado recurso linguístico para a consecução de uma determinada intenção comunicativa que seria melhor alcançada usando-se outro(s) recurso(s). (Ibid., p. 29)

A fim de apresentar as diversas possibilidades de ensino da gramática, esse pesquisador reune, para definir a quarta, três concepções de gramática:

• Gramática implícita é aquela utilizada “automaticamente”, sem conhecimento dos princípios de constituição e funcionamento da língua, mas adquirida pelo contato social. Na pesquisa, é denominada “gramática de uso”;

• A gramática teórica ou explícita refere-se ao ensino e estudo da estrutura, formação e funcionamento da língua; seu objeto de análise é a língua em funcionamento.

• A gramática reflexiva é aquela que, através da observação e reflexão, procura explicar e compreender a constituição e o funcionamento da língua. Nessa perspectiva, está inserido o “ensino descritivo”, que procura descrever como funcionam todas as variedades linguísticas, com o objetivo específico de comparar a norma culta com os diversos usos sociais de interação.

Definidos os objetivos do ensino e a concepção de gramática adotada, o docente seleciona quais os tipos de atividades a serem desenvolvidas. O autor supracitado menciona três atividades: 1) linguísticas; 2) epilinguísticas; e 3) metalinguísticas.

As atividades linguísticas, segundo Travaglia (2006), referem-se à produção de textos de acordo com um assunto ou tema para determinado fim. Para realizá-la, o aprendente aplica sua gramática internalizada de modo automático, sem reflexão, na tentativa de se adequar ao que lhe é solicitado sem orientação do processo a ser desenvolvido. Tais atividades estão voltadas para a construção ou mesmo reconstrução de textos e têm como objetivo ampliar os recursos discursivos para diversas possibilidades de uso da língua. Como exemplo de uma atividade linguística, temos as tradicionais redações com o título “Minhas férias”, em que não há qualquer objetivo determinado para a atividade, funcionando apenas para passar o tempo.

Já no processo de ensino com atividades epilinguísticas, explica o mesmo autor, o docente faz intervenções para interagir junto com o aprendente no desenvolvimento da atividade para explicar o desenvolvimento de um tópico discursivo: “(...) para, no curso da interação comunicativa, tratar dos próprios recursos linguísticos que estão sendo utilizados, ou de aspectos da interação” (TRAVAGLIA, 2006, p. 34). Durante o desenvolvimento de leitura oral, por exemplo, pode-se fazer uma interrupção para discutir em um determinado trecho se o uso da vírgula é em decorrência de um aposto, um vocativo, uma expressão de tempo ou lugar, por exemplo.

Já nas atividades metalinguísticas, emprega-se terminologia adequada para explicar o funcionamento da própria língua, também chamada de gramática teórica:

O que se faz então é a construção de um conhecimento (normalmente de natureza científica) sobre a própria língua; portanto, a atividade metalinguística, na maioria das vezes, está relacionada diretamente a teorias linguísticas e métodos de análise da língua. (Ibid., p. 35)

Há também outras concepções de gramática voltadas para a área de pesquisa sobre a língua, como as gramáticas contrastiva, geral, universal, histórica e comparada.

O ensino da gramática normativa deve ter por objetivo oferecer ao aprendente conhecimentos linguísticos para poder identificar, refletir e utilizar a língua. É um domínio construído gradativamente, iniciando-se por meio de atividades epilinguísticas e, aos poucos, desenvolvendo-se a metalinguagem como instrumento auxiliar para descrição e reflexão. O resultado é o domínio do uso adequado. Esse processo se concretiza ao reunir atividades de uso, comparação, pesquisa, reflexão e registro das conclusões, para que o aprendente possa construir seus conhecimentos.

Mas tal proposta de ensino para a gramática normativa precisa envolver e modificar a postura passiva do aprendente diante da aquisição do conhecimento linguístico. É preciso torná-lo também um pesquisador da própria língua, que possa empregar a metalinguagem adequada ao relatar as ocorrências e produzir de modo consciente. Concluímos, então, que docente e aprendente necessitam rever seus papéis também diante do ensino da gramática. Trata-se do novo papel do aprendente proposto pela EL no qual ele deve se tornar responsável pela própria aprendizagem.

Sabe-se que esse objetivo de ensino não é de fácil concretização, pois há diferentes realidades que podem interferir no desenvolvimento dessas ações, como a diversidade de interesses entre os discentes (alguns desejam apenas o diploma, outros querem aprender); a intercalação de aulas, que faz com que o desenvolvimento das atividades seja interrompido, impedindo a resolução de dúvidas junto ao professor; a indisciplina; e a necessidade de planejamento da aula que exige muito tempo dos docentes, que muitas vezes acumulam uma extensa jornada de trabalho, inviabilizando tal dedicação, entre outras situações.

No próximo tópico, apresenta-se de que modo a língua se torna elemento social por meio dos gêneros textuais. Sua definição está relacionada ao ensino contextualizado da gramática. Iniciamos com a definição de gêneros textuais, depois, tipos textuais, domínio discursivo, sociorretórica, tipologia.

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