2. Contextualização e Enquadramento Teórico
2.2. O jornalismo televisivo face à convergência noticiosa
2.2.1. A televisão como meio de produção e de difusão de conteúdos jornalísticos
2.2.1.2. Os conteúdos noticiosos transmitidos pela televisão
De acordo com Fernando Cascais (Mar de Fontcuberta, 1999), a notícia é um bem de primeira necessidade, sendo que o direito à informação, isto é, o direito à notícia, instituído por várias Constituições, como a portuguesa, pode ser comparado a outros, como a saúde ou a edu- cação. Tanto mais que as sociedades modernas não podem progredir sem um fluxo contínuo de informações atualizadas, ou seja, não podem desenvolver-se sem notícias (Sorlin, 1997). Elas, as notícias, são socialmente importantes, sobretudo nas sociedades democráticas, onde o aces- so à informação, mais do que um direito, pode ser encarado como uma necessidade que pro- vém dos próprios fundamentos do sistema (Sousa, 2000).
As notícias são uma forma elementar de conhecimento, na medida em que ajudam o indivíduo a interpretar a realidade que o rodeia (Park, 2009). No entanto, as notícias são repre- sentações da realidade e não a própria realidade (Bird e Dardenne, 1988; Patterson, 2000; Tra- quina, 2007), quer dizer, as notícias são como uma realidade construída (Tuchman, 2009). Ainda que as notícias não sejam ficcionais, elas são “estórias” acerca da realidade e não a rea- lidade (Bird e Dardenne, 1988). E porque as notícias são “estórias”, elas constroem uma reali- dade para lá da factualidade social (Lopes, 1999).
Por outro lado, as notícias proporcionam temas de diálogo entre os indivíduos. Neste contexto, as notícias são objetos de conversa, fomentam comentários e, possivelmente, dão início a discussões (Park, 2009). Para Robert E. Park (2009: 43), «(…) o que é singular nesse processo é que, no momento em que a discussão começa, o acontecimento em discussão deixa de ser notícia, e, enquanto interpretações divergentes de um acontecimento, as discussões des- locam-se da notícia que as motivou para as questões que originaram a própria notícia». Nesta linha, Doris Graber (2000: 192) escreve que «a partilha das notícias foi sempre um importante
vínculo nacional (…)». Desta forma, a circulação de notícias cria laços entre os indivíduos (Sorlin, 1997).
Neste âmbito, a televisão continua a ser para muitas pessoas a única ou a mais impor- tante fonte de notícias (Bourdieu, 2005; Brandão, 2010; OberCom, 2011), tendo uma espécie de monopólio sobre a formação dos cérebros de uma parte significativa parte da população (Bourdieu, 2005). Muitas das crenças hoje existentes acerca do mundo advêm da televisão (Brandão, 2010). Parte da informação que os indivíduos absorvem é transmitida pelo pequeno ecrã e «o mundo lá vai redimensionando-se à medida daquilo que o audiovisual reconstrói» (Lopes, 2007: 13).
Neste seguimento, os acontecimentos convertidos em notícias pela TV dão «a percep- ção e o sentido das grandes questões do dia-a-dia aos cidadãos, estabelecendo a hierarquia e a prioridade dos temas da actualidade» (Brandão, 2006: 151). Este pressuposto está fundamenta- do no modelo de Agenda-Setting14, no sentido em que os conteúdos noticiosos adquirem um valor acrescentado, quer isto dizer, «ao chamarem a atenção para certos factos, hierarquizam os problemas e condicionam a percepção que os indivíduos têm das questões da atualidade» (Lo- pes, 1999: 70). Ainda a respeito do “Agenda-Setting”, José Rodrigues dos Santos (1992) apon- ta que os media jornalísticos, neste caso particular a televisão, é que diz ao cidadão quais são os temas importantes da atualidade.
A informação disseminada pelo pequeno ecrã é considerada a mais credível, pelo me- nos é o que se pode constatar pela consulta de um estudo levado a cabo pelo OberCom (2011)15, durante o ano de 2010, tendo como referência a realidade portuguesa. Na referida investigação (ver Gráfico 1), apurou-se que entre os media noticiosos, a televisão é o que me- rece a maior confiança sobre a informação que veicula (71,3%), face à rádio (57,3%), à im- pressa (56,1%) e à Internet (37,3%).
14
Conceito proposto pelos teóricos americanos Malcolm McCombs e Donald Shaw num artigo com o título «Agenda-Setting Function of Mass Media», publicado no Public Opinion Quarterly, em 1972. Esta teoria, sendo elaborada a partir do estudo da campanha eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos de 1968, sustenta que os mass media possuem a capacidade não intencional de agendar temas que são objeto de debate público em cada momento (Sousa, 2000).
15
O universo deste estudo foi composto por indivíduos com 15 e mais anos de idade, residentes em Portugal Continental, tendo sido constituída uma amostra de 1255 entrevistados (OberCom, 2011: 44).
3,1% 3,5% 2,2% 14,9% 8,1% 5,2% 3,2% 19,7% 32,7% 33,9% 23,4% 28,1% 56,1% 57,3% 71,3% 37,3% 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Imprensa Rádio Televisão Internet
confio neutro não confio ns/nr
19,8% 24,3% 16,4% 26,5% 24,9% 20,1% 17,1% 19,3% 17,8% 15,7% 80,9% 80,6% 80,0% 84,5% 83,2% 8,4% 9,1% 9,6% 8,7% 9,2% 0 20 40 60 80 100
Se informar acerca de algo que acabou de acontecer
Se informar acerca do desenvolvimento de um dado acontecimento
Se informar acerca de algo que ocorreu há já algumas horas
Se informar acerca de acontecimentos/notícias nacionais
Se informar acerca de
acontecimentos/notícias internacionais
Jornais online Televisão Rádio Imprensa
Fonte: OberCom, 2011: 36
Por outro lado, no mesmo estudo, é realçado que o pequeno ecrã continua a ser a plata- forma preferida dos indivíduos para acederem a conteúdos informativos (ver gráfico seguinte). Todavia, o dispositivo televisivo poderá não ser o meio ideal para as pessoas obterem informa- ção sobre o que realmente se passa (Lopes, 1999).
Fonte: OberCom, 2011: 43
Gráfico 1 - Avalie o seu grau de confiança acerca da informação disponível
Os conteúdos noticiosos televisivos são considerados mercadorias e, como tal, estão sujeitos às regras do mercado, da oferta e da procura, que se sobrepõem a outras normas, de- signadamente às cívicas e às éticas (Ramonet, 1999). Assim, esses conteúdos são vistos pelos seus produtores não como um bem público, mas como uma mercadoria ou como um produto gerado mais para atrair e proporcionar audiências aos anunciantes do que informar os seus públicos (Patterson, 2002; Wolf, 2009). Os operadores televisivos, sobretudo os privados, são financiados por receitas publicitárias e, consequentemente, estas estão diretamente dependentes das audiências. Isto significa que somente com audiências é que os operadores de televisão conseguem vender espaços publicitários aos anunciantes. Porém, os conteúdos jornalísticos televisivos, convertidos em mercadoria, cumprem cada vez menos a sua função cívica (Ramo- net, 1999; Brandão, 2006).
Por outra parte, os conteúdos informativos concebidos e difundidos pela televisão são encarados, por vários autores (Minc, 1994; Jespers, 1998; Ramonet, 1999; Santos, 2000; Sarto- ri, 2000; Fernandes, 2001; Penedo, 2003; Bourdieu, 2005; Brandão, 2006, 2010; Wolton, 2006), como informação-espetáculo. A TV transforma tudo em espetáculo, incluindo os seus conteúdos de cariz noticioso (Sartori, 2000). Na opinião de Dominique Wolton (2006), esses conteúdos resvalam para o espetáculo, para a exclusividade e para a dramatização. O autor vai ainda mais longe, sustentando que «a globalização da informação, a concorrência, as guerras, o terrorismo dão a imagem de uma “informação-circo”» (Wolton, 2006: 36). Para Cristina Pene- do (2003), existe um esbatimento de fronteiras entre géneros que dá origem a uma programa- ção híbrida como os reality-show ou a informação formatada em espetáculo, fórmulas que pro- curam aumentar audiências. Deste modo, os conteúdos informativos televisivos convertem-se em espetáculo, sendo o sensacional um produto de atração e a rapidez uma qualidade primor- dial (Minc, 1994). Também Ignacio Ramonet (1999) entende que esses conteúdos são essenci- almente espetáculos, nutrindo-se principalmente de sangue, de violência e de morte. Assim, Nuno Goulart Brandão (2006) assinala o “impacto espetacular” como primordial critério da informação televisiva. De facto, a televisão privilegia os acontecimentos de maior espetacula- ridade em prejuízo de acontecimentos de maior significado político, cultural, social ou científi- co (Santos, 2000; Cruz, 2008; Brandão 2006, 2010).
Daí, o registo dramático ser o mais utilizado na cobertura jornalística efetuada pela te- levisão (Torres, 2006). Na grande parte das ocasiões, o principal não é o que se difunde, mas o que é realmente importante é que seja produtor de imagens-choque, dramáticas, que surpreen- dam os telespetadores (Brandão, 2006; Torres, 2006). Contudo, esta prática distorce a perceção que os cidadãos têm da própria realidade e dos mais relevantes acontecimentos que sucedem
na sociedade (Brandão, 2006). Nuno Goulart Brandão (2006: 201), após uma investigação feita aos telejornais da televisão generalista, diz que «(…) estamos em face de uma informação as- sente em valores negativos, que acentuam os acontecimentos espectaculares geradores de notí- cias dramáticas e cheias de emoção». Para o autor, a grande questão da informação-espetáculo é que ela “rouba” o lugar a outras notícias, ou seja, retira a inclusão de outros conteúdos jorna- lísticos ou relega-as para segundo plano. Ora, tal como conclui Nuno Goulart Brandão (2006), no jornalismo televisivo, as notícias são selecionadas em função da sua capacidade de chamar a atenção do telespectador, acompanhando-as especialmente com imagens e sons que apelam à emoção e que dramatizam os conflitos. Como parece ser mais do que evidente, cresce o domí- nio de uma informação-espetáculo, tendo como principal função entreter os telespetadores.
Na verdade, o jornalismo televisivo está influenciado pela lógica do entretenimento vi- gente nos programas televisivos de ficção, da publicidade, dos concursos e das variedades (Mesquita, 2003). Neste cenário, surge o infotainment, cuja palavra deriva da contratação das palavras information (informação) e entertainment (entretenimento), significando «a combina- ção da reportagem factual com as convenções normalmente associadas ao entretenimento fic- cional» (Hartley, 2004: 145). Este termo, podendo também ser designado em português por
infodivertimento (Mesquita, 2000), representa o meio pelo qual o dispositivo televisivo trans-
mite conhecimento sob forma de entretenimento (Hartley, 2004). Portanto, os conteúdos noti- ciosos televisivos entretêm e divertem os telespetadores, com o propósito de os operadores televisivos aumentarem as suas audiências (Curran e Seaton, 2001).
Não obstante, no entendimento de John Hartley (2004), os conteúdos informativos não devem afastar-se da necessidade de entreter e de atrair os telespetadores, já que a captação de audiências é a grande prioridade para qualquer estação de televisão, independentemente do tipo de programa, seja factual ou de entretenimento. Então, não é de estranhar que os conteúdos jornalísticos tenham ido buscar características aos formatos não noticiosos. Ainda a este respei- to, John Hartley (2004) identifica que elementos como a narrativa, o espetáculo, as personali- dades como apresentadores, a banda sonora não diegética e o discurso personalizado são es- senciais para a transmissão de conteúdos noticiosos de forma divertida.
Para Nuno Goulart Brandão (2010), os conteúdos informativos televisivos devem ter em conta as reais necessidades dos cidadãos, dirigida fundamentalmente para as grandes ques- tões da vida social. Então, esses conteúdos devem afastar-se das atuais tendências de valoriza- ção do impacto afetivo e da imagem choque; do conteúdo como mercadoria e do espetáculo sobrepostos ao bem social; da encenação dos efeitos sobre a análise das suas causas; da cres-
cente encenação da informação que tem substituído a sua contextualização; e das visões sim- plistas da realidade onde a “forma” se sobrepõe ao “conteúdo” informativo (Brandão, 2010).