2.3 CARACTERÍSTICAS SOCIAIS E POLÍTICAS DOS
2.3.1 Os germanos nos textos latinos da antiguidade
O primeiro texto que trata dos germânicos – mas sem menção aos longobardos –, ainda que de forma fragmetária e com destaque principal aos feitos bélicos de um comandante romano, é o De Bello
Gallico, escrito por Júlio César por volta do ano 50 a. C.. No Livro I,
parágrafo XXXI, de sua obra, o comandante romano narra um conflito envolvendo facções de gauleses e germânicos, referindo-se ao comandante germânico Ariovisto e seu povo como: “superbe”, “barbarum”, “iracundum”, “temerarium”;162
termos estes bastante
161 GIORDANI, Mário Curtis. Op. cit., p. 16. 162
CESAR, Caius Julius. Comentários (De Bello Gallico). Tradução de Francisco Sotero dos Reis. EbooksBrasil. Edição bilíngue português/latim. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/cesarPL.html >. Acesso em 15 de agosto de 2010. […] Ariovistum autem, […], superbe et crudeliter imperare, [...]. Hominem esse barbarum, iracundum, temerarium: non posse eius imperia, diutius sustineri.” Sobre a fama dos germânicos, importante verificar que eles não possuíam escrita e as informações provenientes da antiguidade latina tiveram a oportunidade de registra r um discuso de “incultura” dos povos germânicos. Michel Rouche (In: Alta idade média ocidental. Op. cit. p. 405-7), por exemplo, embora filiado à Escola dos Annales, não hesita em salientar que os povos bárbaros desconheciam a noção abstrata de res publica e que os germanos eram, em grande parte, violentos, porquanto estremeciam, inclusive, diante da menor injúria. Por outro lado, Jacques Le Goff (In: A civilização do ocidente medieval. Op. cit., p. 22-3) nos esclarece, com a devida prudência, que os textos a respeito dos bárbaros foram elaborados
comuns nas obras literárias contemporâneas que tratam dos germânicos na antiguidade.
A respeito da cultura social dos germanos, o general romano relatou, a partir do parágrafo XXI, do Livro VI, que eles se dedicavam desde pequenos às artes bélicas e estavam acostumados à aspereza; seriam pouco dedicados à agricultura e que as terras eram comunais, distribuídas todos os anos entre as parentelas, justamente para impedir a fixação do indivíduo à terra em detrimento da guerra e evitar o alargamento das posses e riquezas de uns em relação aos outros.163
No parágrafo XXIII, do Livro VI, Júlio César fez menção às autoridades políticas dos germanos, destacando o respeito e a equidade entre as pessoas que viviam em grupo. Do relato, chama a atenção que os germânicos primariam por repelir os vizinhos e em tempos de guerra elegiam autoridades que exerceriam o direito de vida e de morte sob os comandados, mas:
In pace nullus est communis magistratus, sed principes regionum atque pagorum inter suos ius dicunt controversiasque minuunt. Latrocinia nullam habent infamiam, quae extra fines cuiusque civitatis fiunt, atque ea iuventutis exercendae ac desidiae minuendae causa fieri praedicant. Atque ubi quis ex principibus in concilio dixit se ducem fore, qui sequi velint, profiteantur, consurgunt ei qui et causam et hominem probant suumque auxilium pollicentur atque ab multitudine collaudantur: qui ex his secuti non sunt, in desertorum ac proditorum numero ducuntur, omniumque his rerum postea fides derogatur. Hospitem violare fas non putant; qui quacumque de causa ad eos venerunt, ab por herdeiros da cultura greco-romana que odiavam os invasores, “porque eles aniquilavam por fora e por dentro sua civilização, destruindo-a ou aviltando-a.”
163
iniuria prohibent, sanctos habent, hisque omnium domus patent victusque communicatur. 164
Essas narrativas de Júlio César indicam importantes características concernentes à convivência social entre os germânicos com destaque à ausência da ideia de rei publicae – como em Roma – e, ainda, que os germanos possuíam um chefe eleito nas guerras, mas não na administração comunitária, o que sugere a inexistência de uma figura régia como autoridade disciplinadora das relações sociais e com poderes legislativos.
Como o texto do general romano trata mais das virtudes bélicas romanas, é a obra Germania, escrita no ano 98 d.C. por Publius Cornelius Tacito, a principal fonte de informações sobre os germanos na antiguidade; embora tal historiador romano nunca tivesse ido à região por ele descrita.165 Na sua escrita, ele situou a Germânia entre os rios Reno e o Danúbio e disse que os germânicos eram naturais da própria
164 CESAR, Caius Julius. Op. cit.. [Durante a paz não há autoridade alguma comum mas os
maiorais dos cantões e aldeias distribuem justiça entre os seus e terminam as contendas. Os latrocínios, que se praticam fora das fronteiras, nenhuma deshonra trazem; tem-se como próprios para exercer a mocidade e diminuir-lhe a ociosidade. Quando algum dos principais declara no concelho, que há de ser chefe de uma expedição, e que, os que quiserem segui-lo, o dêm a conhecer, levantam-se aqueles que têm confiança na empresa e no homem, prometem-lhe o seu auxílio e são louvados pela multidão; os que dentre estes o não seguem, são tidos em conta de desertores e traidores, e a ninguém mais merecem crédito em coisa alguma. Não julgam permitido violar a hospitalidade; os que entre eles se acolhem por qualquer motivo, são protegidos e tidos por sagrados; todas as casas se lhes abrem, e facultam-se-lhes víveres.]
165
TÁCITO, Publius Cornélio. Op. cit.. Tal afirmativa, registrada por grande parte dos historiadores contemporêneos, encontra o seu fundamento nas próprias palavras de Tácito, que após a sua explanação sobre as características dos provos germânicos, no final do capítulo XXVII revela: “Haec in commune de omnium Germanorum origine ac moribus accepimus: nunc singularum gentium instituta ritusque, quatenus differant, quae nationes e Germania in Gallias commigraverint, expediam.” [Isto é o que em geral aprendemos da origem e dos costumes entre todos os germanos: agora faremos referência aos ritos institucionais de cada povo, e em que diferem uns dos outros.]
terra166 e que teriam sido conhecidos pouco tempo antes pelos latinos. Referiu-se à região abordada como um local áspero, de clima duro e de aspecto ingrato. No capítulo VII, disse que os reis eram escolhidos entre os nobres e os generais segundo suas próprias virtudes, mas que eles não possuíam poder ilimitado e que não lhes era permitido a aplicação de punições corporais aos súditos, tarefa esta confiada aos sacerdotes inspirados pelos deuses que, acreditavam, presidiam os combates.167
Tais informações, que coincidem com as de Júlio César, apontam para o fato de que os germanos, mesmo preservadores de uma notável equidade entre eles168, possuíam graduações sociais que se estruturavam em momentos de guerra, mas os chefes germânicos não possuíam o poder de infligir seus subordinados, sendo que isso era de competência dos sacerdotes e, dessarte, as ofensas corporais teriam eventual fundamento religioso e não um ius puniendi com o fim de
166 Stefano Gasparri (In: Prima delle nazioni. Op. Cit., p. 60) lembra que o tema a respeito das
raças, assunto que contaminou o cenário político do século XIX e parte do XX – como a unificação da Alemanha e Itália como nações e ideologia nazista na Segunda Guerra Mundial –, teve uma polêmica que começou muito tempo antes, pois o texto Germania foi encontrado no séc. XV e levado a Roma em 1455, tendo sido usado primeiramente por eclesiásticos que queriam incitar os tedescos à cruzada contra os turcos. Mas os humanistas reformadores alemães, ao revés, o utilizaram para denunciar os vícios contemporâneos – mito do “bom selvagem” – e propalaram as virtudes natas do povo germânico, mormente pelo fato se eles serem autóctones da Germânia e constituídos de uma raça pura de guerreiros; discursos estes que seriam reforçados com as descobertas, no século XVIII, a respeito dos povos indo-europeus.
167 TÁCITO, Publius Cornélio. Op. cit.: “Reges ex nobilitate, duces ex virtute sumunt. Nec
regibus infinita aut libera potestas […]. Ceterum neque animadvertere neque vincire, ne verberare quidem nisi sacerdotibus permissum, non quasi in poenam nec ducis iussu, sed velut deo imperante, quem adesse bellantibus credunt.” [Os reis são escolhidos entre a nobreza, os generais pelo mérito. Nem os reis desfrutam de infinito e livre poder (…) A ninguém é permitido senão aos sacerdotes, punir, amarrar, e nem vergastar nem como pena, nem por ordem do chefe, mas como por inspiração de deus, que eles creem dirigir as guerras.]
168 Isso aos olhos dos romanos, porquanto a diferença de status era um dos principais
postulados da sociedade greco-romana que tinha como fundamento para a distinção entre os indivíduos os cultos aos antepassados, tornando a sociedade estratificada entre as família tradicionais e aqueles que estavam fora dos rituais pertinentes aos protetores das cidades. Sobre o assunto, consultar: COULANGES, Fustel. A cidade antiga. São Paulo: Martin Claret, 2007.
eliminar os corruptores da coesão social.169 Nessa perspectiva, comenta Radbruch e Gwinner:
El comprobado carácter de sacrificio parece justificado hacerlo extensivo a todas las penas capitales de la protohistoria germánica. Pues sólo así resulta compreensible la amplia competencia que Tácito atribuye a los sacerdotes en materia penal. Sólo a ellos incumbe la potestad penal en el ejército, y no se fundamenta en órdenes del caudillo sino iguamente en el mandato de un dios que, según su fe, acompaña a los combatientes […] Estas atribuiciones sacerdotales nos enseñan al mismo tiempo que en aquella etapa cultural de los germanos todos los valores políticos y religiosos, todas las normas de la ética y de la honorabilidad populares formaban un conjunto entrelazado y que el relincuente [sic] era culpable según todas ellas al mismo tiempo.170
Outros indícios, oriundos dos discursos latinos da antiguidade, de que os germanos davam importância à separação e preservação dos assuntos privados na esfera familiar é o comentário de Tácito sobre a religiosidade, superstições e rituais dos germanos (capítulos IX e X), no qual ele disse que caberia aos sacerdotes procederem aos rituais de adivinhação em relação ao interesses públicos e ao pai de família se fossem assuntos privados.171
169
Sobre “coesão social”, consultar: RUSSELL, Bertrand. A autoridade e o indivíduo. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. Embora sem muitas fontes primárias e parcos achados arqueológicos, não se exclui a possibilidade de que a atuação de sacerdotes para a imolação de corpos humanos não seria a aplicação de castigo, mas rituais de manifestação de um sentimento religioso em que o sacrifício de seres humanos teria a função de homenagear os Deuses guerreiros. Sobre o assunto – explorando a cultura celta –, consultar: CAHILL, Tomas. Op. cit., p. 153-61.
170 RADBRUCH, Gustavo; GWINNER, Enrique. Historia de la criminalidad: ensaio de una
Criminologia histórica. Barcelona: Bosch, 1955, p. 22.
171 TÁCITO, Publius Cornélio. Op. cit..“Mox, si publice consultetur, sacerdos civitatis, sin
privatim, ipse pater familiae, precatus deos caelumque suspiciens ter singulos tollit, sublatos secundum impressam ante notam interpretatur.” [Ao depois, se houver consulta
Condicente aos assuntos em comum, no capítulo XI Tácito descreveu o ritual das reuniões nas tribos, salientando que, a despeito da existência de chefes (principes), os germânicos deliberavam em conjunto quando os assuntos eram de grande importância. explicou que o rei e os outros guerreiros expunham suas proposições e, conforme a eloquência e persuasão, os demais se manifestavam: “Si displicuit
sententia, fremitu aspernantur; sin placuit, frameas concutiunt. Honoratissimum adsensus genus est armis laudare.”172
Levando-se em consideração essas informações, constata-se que os principais textos da antiguidade apontam para o fato de que as autoridades germânicas não tinham a noção de legitimidade do poder público em relação a um território173 – que era transferido e de interesse público, o sacerdote da cidade, ou o próprio chefe de família, no interesse privado (particular), depreca aos deuses, auscultando os céus: toma-os cada um por três vezes, e os interpreta segundo o sinal observado (notado antes).]
172 TÁCITO, Publius Cornélio. Op. cit.. [Se desagradou a decisão, repelem-na em clamor;
mas se agradou, agitam as frêmeas; é a forma mais honrada de assentimento (aprovação), de louvar com as armas.]
173 Como diz Mário Curtis Giordani (In: Op. cit.,p . 18-9): “Os germanos não conheceram a
organização estatal clássica. As próprias Confederações citadas por Plínio e por Tácito revestem, antes, um caráter cultural que pròpriamente político.” Deveras, o domínio sobre um território está diretamente ligado à noção de autoridade e poder na antiguidade clássica, como pode ser visto na clássica obra de Fustel de Coulange: Cidade Antiga, cuja teoria seria que os espectros dos antepassados tornavam o território em objeto sacro e, portanto, além de inviolável, fonte de autoridade aos seus sacerdotes privados, os paterfamilias . Na mesma linha de raciocínio, Francesco Schupfer da Chioggia (In: Delle istituzione politiche longobardiche. Firenze, Felice Le Monnier, 1863, p. 03-4) – professor de História do Direito do século XIX, em Pádua –, ao elaborar uma panorâmica noção da sociedade romana fornece as informações para se compreender a noção de legitimidade na sociedade clássica antiga: “La tradizione gelosamente custodita dall'autorità religiosa, imprese a governare la volontà humana. Diffati: fissò l'uomo in certo punto determinatto della terra, entro determinati confini, creando la proprietà immobiliare, che affidò alla custodia di un Nume; legò l'uomo alla famiglia legittima, consagrata dal matrimonio, incarnata al culto degli avi e al dogma della solidarietà; mise l'ordine nella società collo stabilirvi una gerarchia di caste, assegnando all'uomo nuovi limiti che doveva rispettare.” [A tradição zelosamente custodiada pelas autoridades religiosas, empreendeu o governo das vontades humanas. De fato: fixou o homem em um ponto determinado da terra, entre determinados limites, criando a propriedade imobiliária, que confiou à custódia de uma divindade; ligou o homem à família legítima, consagrada pelo matrimônio e incorporada ao culto dos antepassados e ao dogma da solidariedade; ordenou a sociedade com o
redistribuído com frequência – e tampouco utilizavam o poder militar de comando em todos os aspectos da vida social, como acontecia na cultura da antiguidade clássica greco-romana, na qual os reis e imperadores rapidamente assumiam personalidades típicas de divindades, depositárias do poder público e das magistraturas.174 Finalmente, no que diz respeito ao poder punitivo, não há menção de que os reis germânicos o possuiriam, pois o poder de infligir castigos corporais era exclusivo dos sacerdotes em certas situações e o restante dos atos ilícitos eram resolvidos diretamente entre as famílias dos envolvidos na situação jurídica ensejadora da vingança, isto é, o ius puniendi era exercido no âmbito privado.175
estabelecimento de uma hierarquia de casta, atribuíndo ao homem novos limites que deveriam ser respeitados.]
174
Sobre a fundamentação divina das autoridades na antiguidade, consultar: Epístola de São Paulo aos Romanos, Capítulo 13, 1-7; ROSTOVTZEFF, Michael Ivanovitch. Op. cit. p. 163-5; WELLS, Herbert Georges. Op. cit., p. 136; METRO, Antonino. Istituzioni e ordinamento di roma nell‟età del dominato. In: CERAMI, Pietro; CORBINO, Alessandro; METRO, Antonino; PURPURA, Gianfranco. Storia del diritto romano. Messina: Rubbettino, 1996, p. 252. Quanto à influência da religião nos mais diversos aspectos da política romana, consultar: DAL RI, Luciene. Ius fetiale: as origens do direito internacional no universalismo romano. Ijuí: Unijuí: 2011.
175 Embora Mário Sbriccoli (In: Giustizia criminale. In: FIORAVANTI, Maurizio [a cura di].
Lo estato moderno in europa: istituzione e diritto. Roma-Bari: Laterza, 2004, p. 164-5) estivesse se referindo à vingança privada nas experiências jurídicas citadinas nos primeiros séculos da Baixa Idade Média, o autor dá uma idéia ponderada sobre seu exercício: “Come tale, essa finisce per assorbire una quota rilevante della giustizia praticata: non si trata dunque di una riprovevole pretesa privata, e nemmeno di un eccesso tollerato, ma piuttosto di un modo riconosciuto per ristabilire equilibri violati, per conseguire un risarcimento e ottenere soddisfazione. Un mezzo ordinario di giustizia, dunque, che ha risalenti origini germaniche, si è radicato nelle mentalità e nel costume e riposa sulla convinzione che i crimini che colpiscono le persone – nella vita, nell'incolumità, nei beni, nell'onore – sono affare privato, da sbrigare tra gli interessati, coinvolgendo famiglie e amici, se necessario, ma non i poteri pubblici.” [Como tal, essa termina por absorver uma cota relevante da prática judiciária: não se trata portanto de reprováveis pretensões privadas e tampouco de um excesso tolerado, mas antes de um modo reconhecido para restabelecer equilíbrios violados, por conseguir um ressarcimento e obter satisfação. Um meio ordinário de justiça, portanto, que remonta às origens germânicas, radicando-se na mentalidade e no costume e repousa sobre a convicção que os crimes que afetam as pessoas – na vida, na incolumidade, nos bens, na honra – são assuntos privados entre as partes interessadas, envolvendo junto famílias e amigos, se necessário, mas não os poderes públicos.]