2.6 Os agrocombustíveis
2.6.3 Os grandes projetos
Os projetos de infraestrutura para a Amazônia têm em vista garantir a integração econômica da América do Sul. São iniciativas arquitetadas para o atendimento do mercado externo mundial. O fato de a Amazônia fazer fronteira com oito países sul-americanos torna-a estratégica do ponto de vista geopolítico e geoeconômico para poderosos grupos econômicos com forte atuação no mercado internacional (CARVALHO, 2006).
30 Por comunidades tradicionais entende-se comunidades fruto de fortes processos de miscigenação (branco, negro e indígena) com características culturais próprias, restritas a cada grupo, com laços relacionais mais ou menos estreitos entre si.
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Conforme Milani et al. (2008), os estados do Mato Grosso, Maranhão e Pará estão entre os estados com maior número de terras indígenas e quilombolas. Cabe ressaltar que quilombolas são os descendentes de escravos que se refugiavam em quilombos.
32 De acordo com o parágrafo primeiro do artigo 231 da Constituição Federal, a definição de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios são aquelas onde são “reconhecidos aos índios sua organização social,
costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. No artigo 20 está estabelecido que essas terras são bens da União, sendo reconhecidos aos índios a posse permanente e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
56 Com a implementação do Programa Piloto para Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras (PPG-7), na primeira metade dos anos 1990, as atividades estatais na região amazônica passaram a se desenvolver de modo desigual. Quanto aos objetivos do Estado, estes se pautavam na melhoria da infraestrutura, na promoção do crescimento econômico regional e no fortalecimento da integração ao mercado. Por outro lado, em função do PPG-7, havia o acordo de cumprir com o desenvolvimento sustentável e a proteção do espaço vital da população local e regional, assim como do ambiente, enquanto objetivo da política regional. A política nacional integrada para a Amazônia Legal tem em vista o uso sustentável dos recursos naturais ajustada aos interesses e ao bem-estar da população amazônica (KOHLHEPP, 2002).
Tem-se de um lado os países do G-733 pregando um programa ambiental de preservação e proteção à floresta tropical, entretanto, por outro lado, verifica-se que vários de seus membros europeus e o Japão estimulam a expansão da soja no Brasil central, deixando os campos do Cerrado para as áreas da Floresta Amazônica, com um grande apoio não só de investimento privado em infraestrutura e pesquisa, mas também investimentos públicos (KOHLHEPP, 2002). Um exemplo de empresa estatal voltada à pesquisa agropecuária é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que patrocina todo esforço de geração, adaptação e difusão da tecnologia moderna.
Como se tem observado por tudo o que foi analisado anteriormente, a ideia de sustentabilidade contrasta com o programa de desenvolvimento Avança Brasil34, concebido pelo Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão (MPOG), para 2000-2003, com perspectivas de planejamento até 2007 (MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO ORÇAMENTO E GESTÃO, 1999).
Esses programas são idealizados para promover a atividade econômica além das ações financiadas diretamente pelo plano oficial. Grande parte das verbas para esses investimentos deve vir do setor privado, em geral de fontes internacionais. Fearnside e Laurance (2002)
33 O G7 é um grupo internacional que reúne os sete países mais industrializados e desenvolvidos economicamente do mundo, são eles: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá, atualmente conhecido como G8 incluindo a Rússia.
34O programa Avança Brasil, sucessor do programa nacional para o período 1996-1999 (Brasil em Ação.) é o nome dado pelo governo brasileiro ao seu grande programa de investimentos para implantação de infraestrutura e outras atividades, em todo o país. O programa prevê, segundo Fearnside e Laurance (2002), a aplicação na Amazônia Legal, entre 2000 e 2007, de cerca de US$ 43 bilhões, sendo US$ 20 bilhões para obras de infraestrutura que terão impactos diretos no ambiente. Até 2007, o planejamento do governo federal incluía diversos outros programas, totalizando com isso um pacote de 338 projetos distribuídos por todo o país.
57 ressaltam que o plano era apresentado a potenciais investidores europeus antes mesmo dos estudos sobre os impactos ambientais. Nas palavras dos autores:
São altos os custos ambientais e sociais da destruição e degradação da floresta amazônica. Oportunidades para uso sustentável da floresta são perdidas, entre elas a captação de valores em serviços ambientais, como manutenção de biodiversidade, ciclagem de água e armazenamento de carbono. Por outro lado, os benefícios da infraestrutura de exportação são escassos, especialmente quanto à geração de emprego e a outros efeitos socialmente desejáveis. A maior parte da infraestrutura planejada de transporte destina-se ao escoamento da soja, e as usinas hidrelétricas apoiam basicamente a indústria do alumínio. Tais produtos geram poucos empregos e monopolizam recursos (financeiros e outros) que, usados de outra forma, trariam maiores benefícios à região. (FEARNSIDE; LAURANCE, 2002, p. 62).
Conforme já se tem observado, há diversos conflitos de grande significado regional em razão da existência de interesses privados envolvidos. De acordo com Kolhepp (2002):
Muitos desses projetos de infraestrutura oferecem oportunidades de investimentos a empresas privadas via privatização, joint ventures e outras formas de participação. Os projetos foram avaliados em grupos, a fim de identificar sinergias potenciais, e analisados dentro do contexto de nove regiões principais de desenvolvimento, os denominados "eixos nacionais de integração e desenvolvimento". Essas regiões têm uma certa identidade, uma "vocação econômica" distinta, e fazem parte de uma visão geoestratégica de longo prazo do desenvolvimento nacional. O governo brasileiro planeja realizar investimentos de grande escala (US$ 40 bilhões) em projetos de desenvolvimento, especialmente na região amazônica, por meio do programa
Avança Brasil (KOHLHEPP, 2002,p.12,grifos do autor).
O objetivo dos projetos de infraestrutura é permitir o transporte da produção agrícola, por meio da ligação dos transportes fluviais e rodoviários. O acesso navegável do Rio Madeira foi melhorado com custos baixos e está ganhando importância no transporte, especialmente de soja. O novo terminal no Rio Amazonas permite o transporte do grão para o mercado europeu por meio de cargueiros de até 80 mil toneladas, o que reduz o tempo e os custos de transporte em relação aos portos graneleiros de Paranaguá e Santos, distantes até dois mil quilômetros por rodovia (KOHLHEPP, 2002).
O Complexo do Rio Madeira, que envolve além do transporte a energia, vai possibilitar a incorporação de 30 milhões de hectares para o cultivo da soja na Amazônia. Os empreendimentos de rodovias e hidrovias previstos para a região têm como papel garantir a vazante da soja e de outros produtos de grande aceitação no exterior.
É importante ressaltar que em relação à quantidade de investimentos planejados, dois terços são financiados pelo governo e, conforme Kohlhepp (2002), estão bem acima do
58 horizonte financeiro do Programa Piloto implementado pelo Ministério do Meio Ambiente, baseado na sustentabilidade do uso dos recursos da floresta tropical para o bem-estar da população amazônica. A partir desses fatos, pode-se concluir o antagonismo e a dificuldade da implantação do desenvolvimento baseado em projetos sustentáveis. É histórico que o desenvolvimento do país não se deu de maneira sustentável prezando o lado social e os recursos naturais. A “modernização” buscada desde a década de 1960 com a modernização conservadora da agricultura, baseada em processos de espoliação e degradação ambiental, mostra bem este fato. A contrapartida dos governos federal, estadual e municipal é muito aquém deste processo de “desenvolvimento”.
Em 28 de janeiro de 2007 é lançado no Brasil o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), programa do governo federal brasileiro que engloba um conjunto de políticas econômicas com o objetivo acelerar o crescimento econômico do país. O PAC tem como proposta cinco medidas de infraestrutura, incluindo a infraestrutura social, como habitação, saneamento, e transporte em massa, medidas para estimular crédito e financiamento, desoneração tributária e medidas fiscais de longo prazo. O PAC busca continuar o projeto Avança Brasil, lançado por FHC no fim de agosto de 1999, deixando alguns de seus 365 projetos para este programa de “velhas novidades deste novo governo”. Entre as obras que passaram do Avança Brasil para o PAC estão pelo menos seis rodovias (ESTADÃO, 2007).
Conforme reportagem veiculada pelo jornal O Estado do Maranhão (2009), o ministro-chefe da Secretaria Especial de Portos da Presidência da República (SEP-PR), Pedro Brito, assegurou que o setor portuário brasileiro é prioridade e terá nos próximos anos um investimento de R$ 3,2 bilhões do PAC. No caso do Maranhão, há previsão de R$ 540 milhões em recursos para aplicar em serviços de dragagem, recuperação de atracadouros e construção de novos píeres. Segundo o ministro, a capacidade dos portos deve ser melhorada e ampliada.
Ainda no que se refere ao desenvolvimento do setor portuário do Maranhão, destacam- se o projeto do Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram) e a ampliação do Porto do Itaqui, empreendimentos financiados pelo PAC para aplicação até fins de 2010. No total há cinco obras de infraestrutura portuária, parte delas já iniciadas, como a construção do berço 100 e o alargamento do cais sul (R$ 112 milhões); recuperação dos berços 101 e 102 e a construção da retroárea dos berços 100 e 101 (R$ 94 milhões). Há também a dragagem dos berços 100 a 103 para receber navios de grande porte (R$ 34 milhões).
59 Todo esse investimento em infraestrutura portuária nada mais é do que uma facilitação para o escoamento de parte da produção do país que se dirige ao mercado externo. Geralmente são grãos e outros produtos do agronegócio. Como a maioria refere-se a produtos primários, o escoamento dos produtos lembra o processo de exploração colonial, com a diferença de ser apoiado pelo Estado-Nação.