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Os parâmetros suprassegmentais/prosódicos

No documento danielpereiraalves (páginas 33-36)

3. FENÔMENOS SUPRASSEGMENTAIS

3.1. Os parâmetros suprassegmentais/prosódicos

Os sons são produzidos em movimentos ondulatórios que se caracterizam pelas diferenças de pressão ocorridas no meio em que se propagam, no caso do ar, pela alternância de fases de compressão e de rarefação de suas moléculas. Algumas das características da onda sonora são (i) a frequência com que ocorre, (ii) a amplitude de suas oscilações e (iii) a sua extensão no eixo do tempo, características que são mapeadas, respectivamente, nos parâmetros suprassegmentais (i) frequência fundamental, (ii) intensidade e (iii) duração. No diagrama abaixo, a duração é representada no eixo horizontal (tempo), a intensidade no eixo vertical (variação de pressão do ar) e a frequência fundamental se exterioriza no diagrama pela 'densidade' da onda, correspondendo ao número de vezes em que cada ciclo se completa em um determinado lapso de tempo (MORAES, 1998):

Figura 2: Esquema de onda sonora

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Neste trabalho, seguiremos Scarpa (1999) e Matsuoka (2006) que adotam o uso da forma entoação, em vez de entonação e intonação, também dicionarizados.

O conceito de frequência, como antecipado acima, define-se pelo número de ocorrências de um evento específico – no caso das ondas sonoras, de um ciclo completo de oscilação – em um intervalo de tempo determinado. Esse intervalo de tempo decorrido durante a ocorrência de uma oscilação é chamado Período (T) e seu valor equivale ao inverso do valor da frequência, relação resumida na equação:

T f  1

f: número de ocorrência de um fenômeno qualquer em um espaço de tempo. T: valor relativo ao tempo, medido em segundos.

Na composição de um som periódico, faz-se presente um conjunto de ondas que recebe o nome de série harmônica. Tal série é composta pela frequência fundamental (f0) e seus respectivos múltiplos inteiros, que correspondem às demais frequências da série. A fundamental (f0) corresponde à frequência mais baixa presente na série harmônica e está relacionada às variações de altura (de grave e agudo) de um evento sonoro.

No caso dos sons da fala, a frequência fundamental (f0) corresponderia, do ponto de vista da produção, ao número de vezes que as pregas vocais abrem-se e fecham-se a cada segundo, o que, no nível fisiológico, é determinado pela tensão exercida pelos músculos da laringe sobre as pregas vocais. As demais frequências da série harmônica, múltiplas da f0, corresponderiam aos formantes, que imprimem uma determinada forma à onda, devido à filtragem ou modelagem ocorrida nas cavidades supraglóticas – oral, nasal e faringal (MORAES, 1998). Os formantes não são considerados fenômenos suprassegmentais, sendo relevantes para a descrição da qualidade de consoantes e vogais.

O valor da f0 varia em função da configuração anatômica da laringe, especialmente o comprimento das pregas vocais, por isso a diferença de valores para falantes masculinos, femininos e crianças, visto que apresentam estruturas laríngeas distintas (VANZELLA, 2005). Isso também explica, obviamente, as diferenças entre os indivíduos de cada grupo. De modo geral, a variação típica de valores desta frequência é de 80 a 200 Hz na fala masculina, 200 a 300 Hz na feminina e 400 a 500 Hz na infantil. (TEIXEIRA, 1995).

Para Gussenhoven (2004), a frequência fundamental é o traço mais significativo na determinação do padrão entonacional de um enunciado. As modulações de frequência fundamental são percebidas pelos ouvintes como variações de altura melódica, o que lhes permite discriminar os sons entre mais graves ou mais agudos. A esse correlato perceptual da

f0 dá-se o nome de pitch. Quanto maior o valor da f0, mais alto será o pitch (o som será percebido como mais agudo) e, inversamente, quanto menor o valor da f0, mais baixo será o pitch (som percebido como mais grave). O pitch seria, portanto, a propriedade auditiva que permite ao ouvinte dispor em uma escala de grave a agudo as variações de f0 de um som por ele percebidas (LADEFOGED, 2001).

Os outros dois parâmetros suprassegmentais que podem atuar na entoação são, como apresentado anteriormente, a duração e a intensidade. A duração pode ser definida como o tempo decorrido na execução de um determinado evento sonoro, o que, na análise da fala, corresponde à porção do enunciado que se pretende examinar (um segmento, uma sílaba, uma pausa, o enunciado inteiro, etc.). A medida da duração é expressa em uma unidade de tempo, como segundos (s), milissegundos (ms). Do ponto de vista perceptual, a duração corresponde a "longura5", de modo que o ouvinte interpreta um determinado som – uma vogal, por exemplo – como mais longo ou mais breve não em termos absolutos, mas em comparação a outro som/segmento presente no eixo sintagmático.

A intensidade, por sua vez, relaciona-se à amplitude da onda sonora, determinada fisiologicamente pela amplitude de vibração das pregas vocais, que varia com a pressão exercida sobre elas pelo ar na região subglótica. No nível perceptual, a energia presente no som é captada pelo ouvinte e 'analisada' subjetivamente em termos de fraco ou forte. A intensidade é usualmente medida em decibéis (dB) e os valores produzidos pelo aparato vocal humano vão, em média, dos 30 dB de uma fala sussurrada até os cerca de 75 dB de um grito alto6. A média de intensidade de uma conversação normal à curta distância é de aproximadamente 60dB (Fry, 1979 apud Garman, 1990).

Esse três parâmetros – frequência fundamental, duração e intensidade – serão aferidos nos pontos críticos de cada uma das sentenças experimentais deste trabalho e analisados estatisticamente, a fim de se verificar se ocorrem de maneira sistemática nas fronteiras dos constituintes prosódicos em nosso estudo, a saber, fronteiras de palavra prosódica e de sintagma fonológico. Em caso positivo – se um ou mais desses parâmetros se revelarem índices significativos para a determinação das fronteiras desses constituintes – pretende-se verificar, por meio de experimentos psicolinguísticos, se tais fronteiras seriam percebidas on- line pelos ouvintes e se teriam papel relevante na restrição do acesso lexical.

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Termo utilizado por Moraes (1968).

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No português cotidiano, há ambiguidade no uso dos termos 'altura/alto/baixo', quando empregados em referência a eventos sonoros, podendo tanto significar variação de frequência fundamental, quanto de intensidade. Na expressão 'grito alto', entenda-se o uso da segunda acepção, de som com maior energia e volume sonoro.

A análise acústica das sentenças e os experimentos psicolinguísticos constituem o capitulo X da presente dissertação. Antes, porém, a seção seguinte tratará dos constituintes prosódicos, contextualizados dentro da teoria da Fonologia Prosódica.

No documento danielpereiraalves (páginas 33-36)