Como definir os conceitos de saberes, tecnologias e paradigma emergente, tendo em vista que eles admitem significados diversos? Segundo Charlot (2000) falar, escrever, cantar, tocar, gesticular são maneiras de uma pessoa produzir e veicular informações, conhecimentos e saberes. As informações, conhecimentos e saberes são construídos na relação entre as pessoas e os objetos na dimensão em que estas buscam compreender os objetos com os quais convivem em suas vidas, bem como representá-los e explicá-los sob diferentes formas.
Para Charlot (2000), as informações são registradas pelas pessoas por meio de diferentes suportes. Os conhecimentos são apreendidos pelas suas subjetividades de maneira dinâmica para serem reelaborados continuamente. Os saberes são aquelas informações e conhecimentos que as pessoas utilizam para se relacionarem com o mundo, interagirem com seus semelhantes, com a sociedade, com o universo e com a vida. Assim, no ambiente do fórum, discutir mensagens, refletir, perceber, problematizar e agir são ações significativas de construções de saberes.
Neste trabalho a compreensão que se destaca é que de um lado, existe uma diferença entre os dados e entre dados e informação (ASSMANN, 2000). Dessa forma, para a informação se relacionar aos processos de apreensão/transmissão de conhecimentos não é tão somente um exercício de tecnologia. Cada dado produzido não significa a criação de informação. E entende-se que as informações podem ser manipuladas, categorizadas, refletidas ou analisadas visando a construção de saberes. Por outro, compreende-se que uma grande quantidade de informação não seja suficiente para caracterizar um ambiente educativo. O importante é observar no ambiente a dinâmica de um continuado processo de reflexão e de possibilidades e motivação das pessoas para apreender e ensinar.
Em relação aos avanços tecnológicos, Galizia (2009) enfatiza que “além de permitir o consumo de muita música, esses mesmos avanços tecnológicos também permitem que se produza muita música” (p. 80). Isso significa entender que atualmente as ferramentas de produção musical estão mais acessíveis a todos e as sucessivas transformações tecnológicas são responsáveis por diferentes possibilidades da produção e veiculação de informações, conhecimentos e saberes. O processamento das informações armazenadas nas diversas mídias possibilita a articulação de saberes de naturezas variadas: musicais, extramusicais, educativas,
tecnológicas, entre outras. Essas considerações permitem reconhecer processos não lineares de apreensão/transmissão ligados às explorações da Internet e dos dispositivos informacionais e de comunicação. As tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem no ambiente virtual permitem propiciar a escolha e a busca da atualização da informação para a construção de saberes. Segundo Assmann (2000),
As novas tecnologias da informação e da comunicação já não são meros instrumentos no sentido técnico tradicional, mas feixes de propriedades ativas. São algo tecnologicamente novo e diferente. As tecnologias tradicionais serviam como instrumentos para aumentar o alcance dos sentidos (braço, visão, movimento etc.). As novas tecnologias ampliam o potencial cognitivo do ser humano (seu cérebro/mente) e possibilitam mixagens cognitivas complexas e cooperativas. Uma quantidade imensa de insumos informativos está à disposição nas redes (entre as quais ainda sobressai a Internet). Um grande número de agentes cognitivos humanos pode interligar-se em um mesmo processo de construção de conhecimentos. E os próprios sistemas interagentes artificiais se transformaram em máquinas cooperativas, com as quais podemos estabelecer parcerias na pesquisa e no aviamento de experiências de aprendizagem (ASSMANN, 2000, p.7).
Para o autor o que há de novo e inédito com as tecnologias da informação e da comunicação é a parceria cognitiva estabelecida entre os frequentadores da rede e essas tecnologias. Assim, tais tecnologias participam ativamente passando de informação para a construção de conhecimento. Nesse sentido há uma mudança do paradigma da educação, tendo em vista que essas formas de conhecer, apreender e transmitir passam a ter o ingrediente que veio da parceria cognitiva das pessoas com as tecnologias.
Isso significa entender que concepções de educação musical articuladas com as tecnologias sinalizam buscas constantes de bases teóricas e metodológicas para novas práticas educativas muito além da visão da ciência clássica científica, e/ou da interpretação da realidade como sendo estável, em que os acontecimentos sejam vistos como previsíveis. Para Maturana; Varela (2001) o paradigma educacional emergente, complexo ou sistêmico é capaz de dar base aos processos reflexivos, motivacionais, interativos e colaborativos que nascem em ambientes tanto presenciais quanto virtuais.
Nesta direção, Edgar Morin (1981) examina que um dos princípios acerca do saber do conhecimento em relação ao ser humano, valoriza a motivação, a sua iniciativa em querer
apreender além de valorizar a criatividade, a complexidade, entre outros elementos. O autor sublinha que o ponto de encontro de seus estudos sobre o paradigma emergente está na procura de uma visão ampla e/ou de totalidade em que o enfoque da aprendizagem e a produção do conhecimento, envolvam os sujeitos que apreendem e ensinam. Isso permite considerar que em um exercício educativo musical, ao ser mais flexível e não linear, por meio dos princípios de uma pedagogia em rede, é possível promover motivações no sujeito, interatividade, articular saberes, enfrentar desafios e conflitos colocados na dinâmica da participação individual e coletiva que são características do fórum.
Para Santos (2001), a música como produto cultural e histórico necessita ser pensada em um paradigma pedagógico musical que rompe com uma visão de aprendizagem linear. Santos e demais autores interessam-se em atualizar o debate enfocando um estudo que dá ênfase às novas perspectivas para o pensamento pedagógico-musical. Segundo os autores, essa perspectiva rompe com o paradigma cartesiano-newtoniano que rege a modernidade para apontar mudanças na linguagem pedagógica capaz de proporcionar compreensões sobre o múltiplo e o diverso. Moraes (1997) também examina que os ambientes virtuais de aprendizagens permitem desvelar características de um paradigma educativo emergente que busca bases educativas mais distantes do paradigma cartesiano visando encontrar uma percepção integrada e complexa dos processos de ensinar e apreender (MORAES, 1997).
No âmbito dessa percepção integrada e complexa, busca-se o entendimento dos recursos tecnológicos na relação entre o individual, o grupal e o social nos processos de apreensão/transmissão de conhecimentos. Segundo Moran (2000), na medida em que avançam as tecnologias de comunicação virtual, o conceito de presencialidade também se altera permitindo interações espaço-temporais mais livres e abertas, além de propiciar novos contatos com pessoas fisicamente distantes. O autor destaca que o conceito de educação, curso e aula também se modifica, tendo em vista que o tempo e o espaço ficam mais flexíveis e que atualmente há cada vez mais a possibilidade de estarmos todos presentes em muitos tempos e espaços diferentes.