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O crescimento da sociedade civil como um ator político faz com que apareçam novos sujeitos no espaço público, como as ONGs, gerando uma série de discussões, pesquisas e questionamentos a respeito das relações entre o público e o privado, nesse contexto. Há quem regule as ações dessas ONGs? Corre-se o risco de privatizarmos a educação segundo interesses privados? Assim, faz-se necessário discutir a tensão que a história dessas ONGs traz para o campo da política, desenvolvendo uma discussão sobre a relação entre o público, o privado e o estatal.

Destaco que esse tema se constitui um debate complexo e profundo. Dessa forma, faço uma breve reflexão a respeito da tensão existente entre as esferas pública e privada e o papel do Estado, tendo em vista que essa tensão se constitui pano de fundo deste trabalho.

Bresser Pereira e Grau (1999) consideram a existência de quatro esferas relevantes no capitalismo contemporâneo: a corporativa, a privada, a pública estatal e a pública não estatal. Eles caracterizam essas esferas da seguinte forma: a privada é aquela voltada para o lucro ou o consumo privado, individual, de interesse de um grupo; a corporativa, apesar de não ter fins lucrativos, está orientada para defender os interesses de um grupo ou uma corporação; a “pública estatal” detém o poder de Estado e/ou é subordinada ao aparato do Estado; e a “pública não estatal” compreende as organizações as quais, mesmo sendo de direito privado, não têm fins lucrativos e possuem interesses públicos voltados para a sociedade como um todo, mas não fazem parte do Estado, porque não utilizam servidores públicos ou porque não coincidem com os agentes políticos tradicionais.

A noção do público não estatal é vista por Bresser Pereira e Grau (1999) como sendo uma construção social, que vai para além do terceiro setor e contribui para assinalar a importância da sociedade como fonte do poder político, podendo constituir-se em uma dimensão-chave da vida social, à medida que se mostra como um norte promissor para o fortalecimento da sociedade e para a emancipação social, bem como para a consolidação da democracia brasileira. De acordo com a Abong (2014), a própria Constituição prevê o fortalecimento das organizações da sociedade civil como um indicador do nível de organização da sociedade e da qualidade da democracia.

Um aspecto que se faz presente nesse debate é o de que as organizações que deveriam representar a sociedade civil passam, cada vez mais, a responder para o Estado e para as agências financiadoras, fato que reduz o caráter público da atuação dessas

organizações, afirma Dagnino (2002). A mesma autora argumenta ainda que há uma “confluência perversa” entre um projeto neoliberal, o qual propõe a substituição do Estado de tal forma que ele vai se isentando progressivamente do seu papel de garantidor de direitos, através do encolhimento de suas responsabilidades sociais, e transferindo-o para a sociedade civil, e um projeto democratizante participativo, o qual visa à defesa de uma sociedade civil “ativa e propositiva” (DAGNINO, 2004).

Lopes e Abreu (2014) avaliam que as ONGs não são substitutas do Estado, mas um canal para fortalecer suas políticas através da complementaridade de suas ações. Eles defendem que o ajustamento de papéis entre ONGs e Estado não sugere, em nenhum momento, a exclusão das organizações no desenho e na concepção das políticas públicas, nem do Estado na implementação dessas políticas.

Oliveira e Haddad (2001) discutem os termos “sociedade civil”, “ONGs” e “terceiro setor” a partir da trajetória da ONGs brasileiras, num contexto mais amplo da sociedade civil organizada, e do dilema da privatização dos deveres constitucionais do Estado. Essa discussão ajuda-nos a compreender o contexto político em que se deram as parcerias pública e privada aqui no Brasil, ressaltando que um dos aspectos mais importantes dos sistemas educacionais é a redefinição dos limites entre o público e o privado e a redefinição do papel do Estado no atendimento dos direitos educativos.

Os autores explicam que, se, antes, a participação da sociedade civil circunscrevia-se aos processos de democratização do Estado, pelo seu papel de controle e direcionamento dos serviços públicos, neste momento, ela é conduzida a colaborar diretamente com a oferta dos serviços educacionais, na lógica de diminuição das responsabilidades do Estado.

A forte presença do capital no plano das ações sociais e da educação, em particular, demonstra duas faces contraditórias. De um lado, tal envolvimento aponta para um importante compromisso social de parte do capital, compromisso fundamental em sociedades como a brasileira, com elevada concentração de renda e considerável desnível social. Mas, ao mesmo tempo, aponta também para um crescente descomprometimento do setor público com a educação, correndo-se o risco de rompimento de um dos aspectos mais importantes na construção da democracia social brasileira. (OLIVEIRA; HADDAD, 2001, p. 80).

Entretanto, apesar do risco de esvaziamento do papel do Estado, os autores apontam que a atuação das ONGs no campo da educação pode ajudar na qualificação das ações educacionais oferecidas pelo Estado, garantindo o fortalecimento delas. Destaca-se o

fato de que as ONGs, por sua ligação com a população, por sua capacidade de se articular politicamente e pela experiência acumulada, não podem se furtar ao dever de propor alternativas viáveis para o conjunto da população.

A partir dessas constatações, em tempos de retraimento e esvaziamento dos espaços públicos e do exercício da cidadania e do alargamento da dimensão privada sobre os mais variados aspectos de nossas vidas, a pergunta que devemos colocar é justamente a seguinte: de que forma as políticas educacionais, as ONGs e a escola materializam suas intencionalidades de “formação para a cidadania”, ou seja, de formação para a vida pública?.

Isso leva-nos a refletir se a própria escola estatal pode ser chamada, na experiência, de pública. Campos (2013, p. 360) expõe que:

O caráter excludente da experiência de “escola pública” entre nós revela-se, historicamente, nos elevados índices de analfabetismo, nas altas taxas de evasão e repetência, no relativamente pequeno número de anos de estudos da população brasileira, entre outros aspectos.

Ao mesmo tempo, Filho (1994) insiste que pensar a qualidade da educação para as ONGs deve significar pensar numa experiência que, incorporando a aprendizagem de conhecimentos, seja muito mais do que isso, que seja também um elemento formador e potencializador das várias dimensões do ser humano. Só conseguiremos realizar essa tarefa se pensarmos na lógica das relações sociais e culturais que se dão, em última instância, nas relações pedagógicas, no interior da escola. Dessa forma, melhorar a escola pública não significa somente melhorar a matemática, história e geografia e fazer com que mais alunos passem no vestibular.

Camba (2009) sustenta que a escola pública pode ter qualidade se a sociedade civil for fomentando e manifestando a discussão e participação nas esferas governamentais, nos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Assim, a sociedade civil pode vir a contribuir para o fortalecimento da escola pública como espaço educativo capaz de promover a cidadania e a justiça social.

Essa concepção é complementada por Oliveira e Haddad (2001, p. 81), quando eles enfatizam que:

É preciso, a muitas ONGs de diversas naturezas, compreender que na verdade elas já participam e são parte da política pública. Isto por dois motivos: em primeiro lugar porque nos últimos anos temos construído na América Latina um sentido do público que ultrapassa o estatal, inclusive para questionar um Estado que tem sido muito pouco público. Por outro

lado, boa parte das ONGs se mantém com algum tipo de recurso público, seja este estatal ou não. Assumir este caráter público traz para as ONGs a possibilidade de propor e discutir a partir de dentro das políticas públicas e não apenas como alguém de fora do aparelho estatal.

Diante dessas discussões, Campos (2013) considera que as pressões vindas da sociedade civil e das organizações não governamentais representam um importante papel na ampliação das oportunidades de acesso e nas condições de permanência dos grupos subalternos na escola básica, além de trazerem à tona os limites da dimensão pública do Estado brasileiro. Dessa forma, não é apenas o Estado que assume o papel de protagonista na ampliação do alcance das políticas públicas, especialmente na ampliação da rede estatal de Ensino Fundamental.

Dagnino (2002) explicita três possibilidades para uma ação conjunta entre Estado e sociedade civil. A primeira é nomeada de Projeto Compartilhado, que demonstra um tom otimista e possibilidades construtivas no que concerne a essa relação, de tal forma que ora destacam-se as convergências positivas, ora são estabelecidos conflitos devido aos interesses distintos dos projetos políticos. A segunda, chamada Complementaridades, é caracterizada por certa perversidade, pois, à medida que busca um aprofundamento da democracia, caminha também em direção a um Estado que se isenta, cada vez mais, do seu papel de garantidor de direitos. Assim, com o foco em direções opostas, um dos dois projetos acaba recuando. Por último, a autora cita as Parcerias, as quais podem vir a transformar as pautas das ações do Estado. As parcerias acontecem, na maioria das vezes, quando as ONGs possuem experiências em determinada área específica na qual o Estado sozinho não é capaz de atuar. Essas parcerias fazem-nos repensar os conceitos de sociedade civil e terceiro setor, pois sua base é construída a partir de uma disputa, um jogo de interesses, e não de uma relação entre representantes e representados.

É fato que a Educação é um projeto em disputa, e, nas palavras de Paulo Freire (1993, p. 44): [...] não há, finalmente, educação neutra nem qualidade por que lutar no sentido de reorientar a educação que não implique uma opção política e não demande uma decisão, também política, de materializá-la.

Trazendo essa questão para a Educação Integral, podemos indicar que um dos caminhos possíveis para pensarmos a formação democrática para a vida pública e para o exercício da cidadania passa pela dimensão da participação. Assim, de que forma a escola e a ONG potencializam e estimulam a participação das crianças e dos adolescentes? Como elas apresentam as possibilidades de participação e exercício da cidadania no mundo

contemporâneo? Como podemos potencializar o que os jovens já fazem nas escolas, nos projetos, nos bairros e nas cidades onde vivem, e incorporar os processos educativos advindos dessas experiências? Essas são questões importantes para refletirmos acerca de um trabalho educativo que leve em conta a formação para a vida pública e a qualidade da educação.

Não se pode negar que esse seja um campo vasto para discussões, no qual há muitas controvérsias. Porém, por uma questão de opção e tempo para a pesquisa, delimitarei meu campo de exploração, focalizando a experiência da parceria entre a escola pública e as ONGs, numa experiência de Educação Integral.