Este trabalho de pesquisa fundamenta-se em uma reflexão sobre a formação de professores indígenas no Brasil, a partir das narrativas produzidas por professores indígenas Guarani e Kaingang, na perspectiva de um currículo escolar e formação de professores intercultural no estado do Rio Grande do Sul, no município de Santa Maria.
A partir das narrativas de histórias de vida de professores indígenas Guarani e Kaingang e da discussão de um artefato teórico acerca da interculturalidade e seus imbricamentos com a educação escolar indígena, construímos um produto educacional, no formato de um documento, que apresenta algumas diretrizes que podem balizar as políticas públicas de formação de professores e dimensões da curriculares de escolas indígenas sob a perspectiva da interculturalidade.
A partir dos eixos norteadores Territórios, Resistências e Reconhecimento que se interligam na reflexão sobre a formação de professores indígenas, pudemos identificar alguns elementos importantes a serem debatidos, neste momento histórico de lutas e resistências das populações indígenas, sobretudo na afirmação da sua identidade cultural, frente à educação escolar indígena.
Para as populações indígenas, a defasagem educacional é um desafio muito grande. A descontinuidade dos estudos é ocasionada pela carência de outras políticas públicas (saúde, transporte), que aliadas às políticas públicas da educação poderiam asseguar o direito ao acesso e permanência na escola e em outros níveis de formação.
O conhecimento da legislação que garante os direitos dos povos indígenas é apenas o princípio para a efetivação destes direitos fundamentais, é preciso muita organização, luta e resistência para que as comunidades indígenas sejam ouvidas e atendidas nas suas necessidades.
Apesar da precarização dos espaços em algumas escolas indígenas, onde a dificuldade de acesso, de infraestrutura básica acaba interferindo na qualidade da educação, ela é uma das ferramentas principais na instrumentalização dos indígenas, na luta pela cidadania plena, o lugar onde além do estudo da língua portuguesa, inicia-se a compreensão da organização social da sociedade não indígena e o domínio dos códigos utilizados por ela, onde eles tem de assegurar os seus direitos. A questão do não domínio da língua portuguesa se torna uma barreira, quando a falta de compreensão de termos técnicos acaba privando os sujeitos de usufruir os seus direitos já estabelecidos por lei.
Para atuar numa escola diferenciada, bilíngue e intercultural, os professores também necessitam de uma formação diferenciada, específica, com enfoque ao fortalecimento da identidade cultural dos povos indígenas.
Nos espaços de capacitação de professores indígenas é importante, considerar, em primeiro lugar, os saberes indígenas, nas várias dimensões e possibilidades de interlocução os outros saberes.
Neste contexto, é muito importante o estudo da língua da materna e compreender que os processos de comunicação são diferentes entre as culturas. Nas suas narrativas, os professores indígenas alertam para a falta de tempo para conversar e debater sobre as questões pertinentes à educação indígena, porque para os indígenas “os brancos” ficam controlando o tempo da discussão, e os indígenas não trabalham desta maneira, precisam de mais tempo para falar a respeito das questões que consideram importante.
É importante a qualificação dos profissionais, no estudo e preparação do uso da língua portuguesa e da língua materna (escrita e oral), pois já está acontecendo que muitos professores indígenas, principalmente os kaingangs, já não são mais falantes da língua indígena, por não estarem mais tão inseridos na sua cultura, não falam a língua indígena, apresentando dificuldades de fazer um trabalho qualificado nas escolas, em relação à esta temática, pois o estudo da língua materna passou a fazer parte da revitalização da cultura indígena.
Considerando o aspecto cultural, como se dá o crescimento e desenvolvimento das crianças indígenas, é importante a discussão de metodologias dialógicas e voltadas para a prática, que considere a educação tradicional indígena ancorada no fazer, na perspectiva da interdisciplinaridade, buscando um currículo intercultural. A educação da criança indígena acontece na vivência e de maneira global, neste sentido as abordagens metodológicas pautadas na experiência, na pesquisa, na ação junto com a teoria, buscando o desenvolvimento de formas de aprender por meio da imersão do estudante em experiências reais, encontram uma maior aceitação entre as crianças.
O Programa Saberes Indígenas é um dos espaços apontados como uma das únicas formações que está acontecendo, importante no debate e na troca de conhecimentos entre os professores indígenas e na produção de material didático específico.
As políticas públicas de formação dos professores, devem instigar uma avaliação contínua da sua atuação pedagógica, através da reflexão sobre a prática, de modo que tenham o olhar voltado para a construção de um currículo que promova a interculturalidade, num
espaço de diálogo entre as diversidades, buscando, junto aos alunos indígenas, práticas que promovam o exercício pleno da cidadania .
A formação dos professores indígenas deve contribuir para que a escola indígena cumpra o seu papel de formar cidadãos, que por sua vez, terão a possibilidade de fazer suas escolhas profissionais e de vida, qualificando os espaços de suas comunidades, com num círculo virtuoso.
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APÊNDICES
APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO
Nome (como gostaria de ser identificado: _________Idade:
Ano de Ingresso na Escolarização e Instituição(ões): _____
Ano de Ingresso na(s) Graduação(ões) e Instituição(ões):__
Ano de Conclusão da(s) Graduação(ões):
Tempo de atuação profissional:
Quantas escolas já trabalhou?
Níveis de ensino de atuação profissional:
Pós-Graduação(ões) (Especialização, Mestrado, Doutorado –Instituições):
APÊNDICE B – TEMAS GERADORES DAS NARRATIVAS
CULTURA EDUCAÇÃO INDÍGENA
EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA
ESCOLA PRÁTICA
CURRICULAR METODOLOGIA DE ENSINO
SABERES
INTERCULTURAIS FORMAÇÃO DE
PROFESSORES FAMÍLIA
GESTÃO ESCOLAR
SABERES
INDÍGENAS SONHOS
POLÍTICAS EDUCACIONAIS
PROFESSORES INDÍGENAS
PROFESSORES
NÃO INDÍGENAS
APÊNDICE C – MAPA DOS MUNICÍPIOS COM TERRA INDÍGENAS RS
Fonte: Ilustração: Mapa dos municípios com Terras Indígenas RS.