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PALAVRAS INICIAIS

No documento Sheila Andréia Ruwer (páginas 9-12)

O interesse pela Educação Escolar Indígena surgiu a partir de minha inserção na EEIEF Yvyra’Ijá Tenonde Vera Miri, etnia Guarani Mbya, em 2014, e na EEIEF Augusto Ope da Silva, etnia Kaingang, quando fui trabalhar como docente nestas escolas, com o passar do tempo assumi a direção da escola Guarani e então me desliguei como docente da escola Kaingang. A partir de inquietações e do meu ingresso no Curso de Mestrado Profissional em Política Públicas e Gestão Educacional na Universidade Federal de Santa Maria/RS no ano de 2019, busco respostas parciais para auxiliar nas práticas de escolarização diferenciada e bilíngue em favor de uma educação que contemple a diversidade dos povos, bem como os direitos e especificidades de cada etnia, pois a discussão sobre as políticas públicas que envolvem a educação escolarizada indígena precisam ainda de muita pesquisa dos povos indígenas e indigenistas que se solidarizam com a causa.

A educação escolar indígena é diferente da educação indígena. Levando em conta todo o estudo e luta dos povos indígenas a partir da Constituição Federal de 1988, onde surge uma nova forma de se fazer políticas educacionais aos povos indígenas. As leis específicas publicadas a partir desta data, asseguram a determinação constitucional e formam um marco legal que garantem os direitos a educação escolar indígena e seus entes federados a cumprir com a lei e permitem aos povos indígenas uma educação tradicional respeitada perante a lei.

Surge então a necessidade de formar pessoas da própria comunidade para serem os protagonistas desta educação intercultural, diferenciada e bilíngue, que atenda e respeite o modo próprio de cada etnia, neste imenso Brasil, que é muito diversificado culturalmente, oferecendo aos povos indígenas a modalidade de magistério em nível de segundo grau, ou seja, uma primeira formação.

O ensino médio na modalidade magistério, curso normal, inclusive magistério indígena, é a formação mínima exigida para a docência em escolas de educação infantil, pré- escola e anos iniciais do ensino fundamental. Conforme MEC/Inep/Deep (2008) apontam que o contingente de professores indígenas leigos é grande.

O desafio presente é provocar estes professores a se qualificar e produzir material didático em suas línguas e bilíngue para uma transformação pautada na garantia da educação de qualidade e interculturalidade, que deve estar associada aos projetos e currículos de manutenção e fortalecimento da identidade dos povos indígenas. O papel que se espera dos docentes é que estejam preparados para formar educandos para a vida, com habilidade e competência, assumindo uma nova responsabilidade, sendo mediador no processo de

apropriação e construção do conhecimento de si mesmos e a valorização de suas línguas maternas.

A prática pedagógica do professor está relacionada com qualidade de sua formação docente, a qual garante ou não a qualidade na transmissão dos conteúdos a na construção de conhecimentos indígenas ao longo da vida. Silveira e Silveira (2012, p. 27), em sua obra Direito Fundamental à Educação Indígena afirma que “A defasagem educacional dos povos indígenas está relacionada também com a falta de qualidade das condições ideais para a aprendizagem, [...] aliados a não qualificação docente, tornam o cenário educacional indígena no Brasil tão desafiador”.

Este estudo pretende dar continuidade ao trabalho realizado na monografia de especialização intitulada “Petêin Jeguata Mbya Guarani Nhembo’ea: olhares à formação de professores indígenas”, apresentada no Curso de Especialização do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Gestão Educacional da Universidade Federal de Santa Maria/RS. No referido trabalho constatou-se uma grande demanda na área da formação inicial dos professores da etnia Mbya Guarani no Rio Grande do Sul, além de lacunas na escolarização dos referidos professores.

As necessidades apontadas referiam-se a um currículo nos cursos de formação inicial e continuada de professores indígenas que atendesse as dificuldades enfrentadas em relação ao uso da língua materna e da língua portuguesa, além de uma preparação adequada para atuar futuramente numa escola indígena.

A partir da vivência como professora, como gestora de uma escola indígena, observa- se que a mesma ainda se encontra ‘em construção’, por ser uma realidade recente no que diz respeito à legislação no país e também como efetivação desta política pública de educação. E a partir desta inquietação é que surge esta temática, o que os professores indígenas que atuam nas escolas indígenas de Santa Maria têm a contribuir neste processo de construção de um currículo diferenciado que possa atender as necessidades das comunidades indígenas. A partir da observação e convivência com professores indígenas, percebe-se que alguns estão preocupados com a educação realizada na escola, no caso dos Kaingang já estão engajados na temática educação escolar há mais tempo, pois no estado do Rio Grande do Sul a maioria dos professores já possuem graduação, e a formação mínima de magistério já é exigida pela SEDUC na contratação dos professores, diferente dos guarani, que ainda permeiam a passos mais lentos neste caminho, onde ainda se pode contratar professores com a escolarização de sua formação para atuar nas escolas com ensino fundamental completo e até incompleto dependendo da região do Estado.

Refletindo sobre estas questões, pensou-se em realizar uma pesquisa a partir da seguinte problemática: quais narrativas são produzidas por professores indígenas Guarani e Kaingang na perspectiva de um currículo escolar e formação de professores intercultural?

Com isso objetiva-se: construir uma diretriz que balize políticas públicas de formação de professores e dimensões curriculares de escolas indígenas sob a perspectiva da interculturalidade. Para tanto, tem-se como objetivos específicos:

a. Reconhecer narrativas de histórias de vida de professores indígenas Guarani e Kaingang;

b. Discutir um artefato teórico acerca da interculturalidade e seus imbricamentos com a educação escolar indígena;

c. Debater saberes interculturais necessários à produção curricular da escola indígena e à formação de professores;

d. Interpretar as narrativas dos professores em um movimento autobiográfico, de modo que seus conhecimentos contribuam na construção do produto educacional.

Assim, esta dissertação subdividiu-se do seguinte modo: Após a reflexão acerca do problema central, da definição do objeto de estudo, procuramos expor o percurso trilhado para configuração do presente trabalho. No segundo capítulo apresentamos os pressupostos metodológicos que orientaram o trabalho na perspectiva de uma pesquisa qualitativa.

Buscamos analisar os documentos “Regimento Coletivo das Escolas Estaduais Indígenas Kaingang”, “Escolas Estaduais Indígenas Guarani Regimento Coletivo”, Estatuto do Índio, Constituição Federal de 1988 e a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), realizamos entrevistas narrativas com alguns professores indígenas das etnias Kaingang e Mbya Guarani que atuam nas Escolas Indígenas de Santa Maria e apresentamos a construção do Produto Educacional que obtivemos através desta pesquisa. No terceiro capítulo foi apresentado um panorama geral de educação escolar indígena no contexto brasileiro e de modo particular, no estado do Rio Grande do Sul. No quarto capítulo foi discutida a Interculturalidade e os processos formativos de professores e de produção curricular no contexto das escolas indígenas, em intercâmbio com as análises das narrativas autobiográficas.

No documento Sheila Andréia Ruwer (páginas 9-12)