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Jeferson Cristiano Tavares

1. PANORAMA CONCEITUAL DA SUSTENTABILIDADE URBANA

Para introduzirmos o assunto, buscamos identificar a origem, a função e as diferentes maneiras de tratar o termo e os conceitos sobre sustentabilidade urbana. De maneira preliminar, buscamos apresentar essa caracterização afim de estabelecer uma aproximação das formulações teóricas desse tema.

1.1 Terminologias e Discursos

O termo sustentabilidade começou a ser debatido no meio acadêmico no fim da década de 1970, consolidando-se uma década depois com a publicação do Relatório de Bruntland, em 1987 (Silva & Shimbo, 2001; Acserald, 1999), embora esteja envolto a diferentes e contraditórias inter- pretações. Definir de maneira universal o conceito de Sustentabilidade, diante da diversidade de seu uso, tornou-se tarefa complexa, portanto, não pretendemos aqui encerrar esse assunto, mas apontar algumas linhas de pensamento que convergem para interpretações afins.

No início desse debate, os temas relacionados à sustentabilidade estavam associados à questão ambiental, posteriormente outras áreas de conhecimento passaram a se apropriar do termo. Essa apropriação por parte de outros campos de estudos permitiu que o discurso de sustentabilidade se diversificasse e abrangesse principalmente os campos econômicos, sociais e políticos (Silva & Shimbo, 2001). Para Silva e Shimbo, além da pluralização que o termo acabou adquirindo com o tempo, o fato de ser um relativamente tema novo no meio acadêmico e é outra razão para sua difícil definição.

Acserald, em “Discursos da Sustentabilidade” (1999), aborda a problemática da concei- tuação do termo também destacando esse processo de construção:

O que prevalece são, porém, expressões interrogativas recorrentes, nas quais a sustentabilidade é vista como “um princípio em evolução”, “um conceito infinito”, “que poucos sabem o que é” e “que requer muita pesquisa adicional” (Acserald, 1999, p. 80)

O autor complementa dizendo que essa imprecisão explicita a falta de hegemonia entre discursos dos diversos profissionais e que esse fato aliado ao raciocínio da sustentabilidade está ligado às práticas que permitem que exista uma “luta simbólica pelo reconhecimento da autori- dade” sobre o assunto.

Acserald classifica dois modos de tratar a sustentabilidade urbana: uma vertente pragmá- tica e uma vertente teórica:

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[...] Um tratamento normativo, empenhado em delinear o perfil da “cidade susten- tável” a partir de princípios do que se entende por um urbanismo ambientalizado; e um tratamento analítico, que parte da problematização das condições sócio-políticas em que emerge o discurso sobre sustentabilidade aplicado às cidades. (Acserald, 2011, p. 2)

Isso posto, percebemos que existe uma necessidade de esclarecer em que contexto o termo sustentabilidade será abordado. Traçar com mais precisão os pontos a serem levados em conside- ração e a abordagem que será feita passa a ser de suma importância para que não haja ambigui- dades ou confusões. Nesse estudo, a sustentabilidade remete-se à perspectiva do espaço urbano a partir de uma abordagem ligada ao planejamento urbano. E mais especificamente, dialogando com a classificação de “cidade sustentável” de Acserald (2011), buscando compreender como as diretrizes podem afetar e dialogar com as práticas sustentáveis adotadas nas cidades atuais.

1.2 Alguns Conceitos

Desde o início da década de 1990, no Brasil, os discursos negativos sobre a vida nas cidades urbanas começaram a se intensificar. Insegurança, precariedade dos serviços públicos, falta de moradias, desemprego, degradação da paisagem são algumas das mais diversas críticas que as grandes cidades recebem diariamente. Essa visão das cidades aliada com, na maioria dos casos, o descaso do poder público com o espaço público e a visão deturpada do cidadão do papel do órgão público sobre esses espaços fizeram com que a população desacreditasse em uma mudança e solução coletiva para cidade. Cada vez mais a lógica de construção das cidades passou a privi- legiar o individual, o particular em detrimento do coletivo e do público (Bonduki, 2011).

No século XXI, mais de 50% das pessoas já habitam o ambiente urbano (Siebert, 2014). Pensando nisso e somado à crescente preocupação com a qualidade de vida nas cidades, novas interpretações surgiram no campo do planejamento urbano. Para Acserald (2011) a crise identi- tária das cidades foi um dos fatores dessas novas interpretações:

A identidade das cidades torna-se assim cada vez mais um instrumento de legiti- mação dos operadores políticos que pretendem resgatá-la não mais como circuns- crita a seu tempo presente, mas como referente a um passado de glória e a um futuro radioso. (Acserald, 2011, p. 2)

Essa condição é um dos fatores que proporciona ao mercado imobiliário mais força. Essa força é clara quando processos econômicos passam a subordinar as medidas sociais; e as cidades passam a competir entre si para atrair o capital. Ainda nessa temática, o autor aborda que quando essa “reversão competitiva” acontece, bens de consumo coletivos são fornecidos de maneira frag- mentada e desigual na cidade.

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Com uma flexibilização da ação do governo, onde atores não governamentais, semipú- blicos e privados criam uma multiplicidade de iniciativas, segmentos empresariais se favorecem e exercem seu poder na “mediação de normas urbanísticas, liberação do controle do uso do solo, renúncia fiscal e subsídio ao investimento privado, mediante a oferta de infraestrutura, terrenos, formação de mão de obra etc.” (Acserald, 2011, p. 4). Essa condição proporciona desintegração social a longo prazo interferindo na questão social, na constituições de nichos de vulnerabilidade e, portanto interferindo diretamente no processo de sustentabilidade urbana.

Em resposta, movimentos sociais, tratados regulatórios, projetos e correntes de pensa- mento surgem no âmbito nacional e internacional buscando fomentar esse debate sobre a relação entre o homem e o ambiente construído e com fins a refletir a maneira com que as cidades pode- riam ser ocupadas minimizando o ônus causado pela antropização desses espaços (Siebert, 2014, p. 6).

No bojo de uma intensa produção acadêmica, surgem conceitos sobre sustentabilidade, como: urbanismo verde, urbanismo sustentável, biocidade, eco urbanismo e planejamento verde. Esses conceitos são comumente confundidos como se fossem sinônimos de uma única linha de pensamento. Contudo a diferenciação entre eles é fundamental para que haja a identificação da pluralidade de ideias e soluções no planejamento urbano das cidades. Siebert (2014, pp. 14-16) realiza essa diferenciação:

• Urbanismo Verde, termo adotado por Beatley (2000), é utilizado para descrever um movimento europeu, iniciado em 1990, em busca de cidades sustentáveis. Esse conceito está mais ligado à ética ambiental que procura viver a cidade dentro dos seus limites ecológicos, reduzindo a pegada ecológica das cidades e de seus habitantes. No âmbito do planejamento urbano, o urbanismo verde percebe a influência que ele exerce na vida dos moradores de uma determinada cidade, desde decisões sobre mobilidade urbana até sobre a produção e consumo de alimentos nas cidades, com uma abordagem sobre como esse poder de tomada de decisão pode criar uma relação simbiótica entre cidade e natureza (Beatley, 2000, apud Siebert, 2014, p. 14);

• Segundo Ruano (2000), o conceito de Eco urbanismo trata do desenho urbano e suas múltiplas e complexas variáveis. Eco urbanismo é definido pelo próprio autor como o “desenvolvimento de comunidades humanas multidimensionais e sustentáveis dentro de ambientes edificados harmônicos e equilibrados” (Ruano, 2000, apud Siebert, 2014, p. 15);

• Biocidade, adotado por Gouvêa (2003), aborda o Desenho Ambiental urbano em cidades de clima tropical, tratando o ambiente urbano como “uma cidade densa, complexa, dinâmica e equilibrada com a natureza tropical, em suma ‘viva’ (ecológica e cultural- mente) e diversificada [...]” (Gouvêa, 2003, apud Siebert, 2014, p. 15);

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• Palomo (2003), apresenta a visão de Planejamento Verde como um conceito vinculado aos valores e recursos naturais, ecológicos, ambientais e paisagísticos da cidade, os espaços verdes como elementos estruturadores da cidade e as áreas não urbanizadas em seu entorno pertencentes a ela (Palomo, 2003, apud Siebert, 2014, pp. 15-16);

• E, finalmente, Farr (2008) define Urbanismo Sustentável como termo para um novo projeto de cidade que mistura a corrente do Novo Urbanismo, dos edifícios susten- táveis e do crescimento inteligente. Por meio desses três conceitos, o autor consolida estratégias de mobilidade com ênfase em deslocamentos a pé, uso misto, compacto e denso e em infraestruturas com alto desempenho energético e de recursos naturais, criando assim um projeto de urbanismo integrado e sustentável (Farr, 2008, apud Siebert, 2014, p. 14)

2. INFRAESTRUTURA VERDE: MATERIALIDADE DA