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Para ajudar Aécio, Mídia desaparece com aeroporto dado à

Monclar Guinarães Lopes Vanda Maria Cardozo de Menezes

5. Para ajudar Aécio, Mídia desaparece com aeroporto dado à

sua família (manchete do século XXI).

Num último estágio, ocorre a convencionalização da nova construção, em que apenas uma interpretação transitiva é permitida num contexto isolante. Em (5), por exemplo, não é possível compreender o sujeito como sendo paciente da ação do verbo, apenas a interpretação de um sujeito agente é possível. Neste último caso, a construção passa a compor novos nós na rede de construções, hierarquicamente organizados: no nível da microconstrução, do sub-esquema e do esquema. Na neoa- nálise, está implicado um processo indutivo, isto é, os nós são criados de baixo para cima, da microconstrução para o esquema. Uma vez formado o esquema, ele pode tornar-se produtivo e

formar novas microconstruções por regra ou dedução, isto é, analogização, em que a rede opera de cima para baixo (Veja a figura 1, mais abaixo). Vale ressaltar que, na analogização, as microconstruções mais produtivas também motivam a analo- gização, na medida em que servem como exemplares para a instanciação de outras microconstruções na língua.

Como exemplo de analogização, pode-se citar o uso tran- sitivo do verbo sumir. Diferentemente de desaparecer, SUMIR.COM só apareceu no PB quando a construção transitiva de desaparecer já estava convencionalizada. Como o emprego inacusativo de

sumir seguido de com era raro até o século XX – e, quando surge

a construção transitiva, esta se mostra bem mais frequente que a primeira –, defende-se que o processo de mudança se deu por analogização, isto é, uma vez que já existia um sub-esquema V.COM na constructicon, sumir foi recrutado para essa construção, até mesmo por possuir sentido análogo a desaparecer.

Para melhor compreender a figura 2, é importante escla- recer que Traugott & Trousdale (2013) fazem uso da seguinte notação científica para a representação das construciona- lizações lexicais. Nas microconstruções, separam-se os dois elementos por ponto, o qual representa tanto o entrincheira- mento das formas quanto a diminuição de composicionalidade da construção. O elemento lexical é representado em caixa-alta grande e o elemento gramatical em caixa-alta pequena. No sub-esquema, o procedimento é o mesmo, sendo que o elemento lexical é, na verdade, um slot, isto é, um espaço que pode ser preenchido paradigmaticamente por outros elementos de cate- goria e/ou sentido semelhante. Na construção em estudo, esse

slot só pode ser preenchido por verbos que instanciam esse tipo

de construção. No esquema, tem-se apenas uma representação abstrata dos slots das categorias previstas pela construção.

Figura 1. Processo de construcionalização de V.PREP

Fonte: os autores. Figura 2. Representação do esquema V.PREP

Fonte: os autores

3 Análise das construções V.PREP

Uma vez que esta pesquisa investiga o processo de construciona- lização de três microconstruções (ACABAR.COM, DESAPARECER. COM e SUMIR.COM), cujas trajetórias ocorrem em períodos

distintos, teve-se de recorrer a três diferentes corpora: a) Corpus

informatizado do Português Medieval3, composto por 2.635 docu-

mentos, para análise de acabar nos documentos remanescentes no português arcaico, o primeiro caso da construção transi- tiva entre as microconstruções estudadas; b) Corpus Vercial4, composto de 309 obras literárias do século XVI ao século XX, para análise das construcionalizações de acabar, desaparecer e

sumir; c) Corpus do Português Brasileiro5, que conta com mais de 1

bilhão de palavras do português contemporâneo, para verificar o aumento de frequência de uso e a convencionalização das construções investigadas. Nessa investigação, empregou-se metodologia quantitativa e qualitativa.

Sabe-se que na investigação dos fenômenos linguísticos, o ideal é um maior controle na seleção dos corpora, tanto no que diz respeito ao período quanto na seleção dos gêneros discursivos. Porém, uma vez que esta pesquisa versa sobre uma construção lexical com relativa baixa frequência na língua, houve a necessidade de se recorrer a diferentes corpora disponíveis, constituídos por diferentes gêneros da modalidade escrita, de sequência narrativa. Mesmo assim, crê-se que os dados permitiram captar os processos de mudança linguística.

DESAPARECER.COM

A construção transitiva DESAPARECER.COM surge no portu- guês brasileiro a partir de um processo de neoanálise, cuja fonte é a construção inacusativa em que está presente um

3 http://cipm.fcsh.unl.pt/

4 http://www.linguateca.pt/acesso/corpus.php?corpus=VERCIAL 5 https://the.sketchengine.co.uk/auth/corpora/

adjunto adverbial de causa, condição ou instrumento, que é neoanalisado como sendo um complemento do verbo. Sob essa perspectiva, uma nova construção na língua emerge de um processo de inferência sugerida, conforme dito anteriormente.

Com base em um dos arquétipos da Gramática Cognitiva (LANGACKER, 2008), a cadeia de ações, argumenta-se que os termos sintáticos que possuem propriedade semântica de causação competem para a posição de sujeito da oração. Segundo o autor (2008, p.355), no processo de representação linguística, uma vez que nossa atenção está centrada no elemento de maior agentividade, é natural que esse, quando perfilado, assuma o papel sintático de sujeito da oração.

Como exemplo, tome-se a frase João abriu a porta com

a chave. Em termos representacionais, pode-se conceber

João como a causa original, de modo que João exerce uma força X sobre a chave, que exerce uma força Y sobre a porta. Imageticamente, esses elementos (todos perfilados na oração), poderiam ser assim representados:

Figura 3. Representação do arquétipo cadeia de ações.

Fonte: o autor

Caso o primeiro elemento, a fonte da energia (isto é, a causa primária) não fosse perfilada na oração, a tendência seria

que o segundo elemento ocupasse o papel de sujeito sintático (A chave abriu a porta). Por fim, se nem o primeiro nem o segundo elementos (João e chave) fossem perfilados, o último elemento tenderia a preencher essa função sintática (A porta abriu).

Sob esse ponto de vista, quando a uma construção inacusativa acrescenta-se um adjunto adverbial que contenha a propriedade semântica de causação (como os adjuntos adver- biais de causa, por exemplo), eles competem, cognitivamente, pela posição de sujeito sintático. Portanto, defende-se que o processo inicial de neoanálise não se dá ao acaso, na medida em que é cognitivamente motivado.

Lopes (2015), em sua tese de doutorado, procedeu a um teste formal. Num primeiro momento, separou diversas ocorrên- cias em que a construção inacusativa de desaparecer era seguida da preposição com e dividiu-as em dois grupos distintos. De um lado, havia as orações em que “com” encabeçava adjuntos adver- biais com propriedade de causação (como causa, condição ou instrumento); de outro, adjuntos adverbiais sem essa propriedade (como companhia e modo) ou, inclusive, adjuntos adnominais. Num segundo momento, fez um teste de inversão, substituindo os adjuntos adverbiais pelos sujeitos e os sujeitos pelos adjuntos. Como resultado, observou que os adjuntos adverbiais que conti- nham propriedade de causação permitiam a instanciação da construção transitiva, enquanto aqueles que não tinham essa propriedade, construíam frases incoerentes. Veja:

Quadro 2. Teste de inversão: da construção inacusativa à transitiva.

Adjuntos com propriedade de causação

Construção inacusativa Teste de inversão

As verbas do tesouro desapareceriam com os cortes

orçamentários e a corrosão inflacionária (causa).

Os cortes orçamentários e a corrosão inflacionária desapareceriam com as verbas do tesouro.

A caspa desaparece com Clear

(instrumento). Clear desaparece com a caspa.

Adjuntos sem propriedade de causação

Construção inacusativa Teste de inversão

Primeiro, pegar um molho de macela e colocar para cozinhar. Depois, lavar a cabeça com a macela cozida e a gripe vai desaparecer

com muita facilidade.

* (...) muita facilidade vai desaparecer com a gripe. (...) Ainda mais se considerarmos

que o período abordado não ultrapassa praticamente duas décadas de música: de 1830 a 1850 aproximadamente, isto é, um período de grande fertilidade dos compositores nascidos em torno de 1810, alguns prematuramente desapareceram com mais ou menos 40

anos de idade.

* (...) Mais ou menos 40 anos de idade desapareceram com alguns compositores prematuramente.

Fonte: os autores

Com base nos resultados desse teste, concluiu-se que a propriedade semântica da causação representa um importante fator conceptual no processo de neoanálise. É interessante ressaltar que, no levantamento diacrônico dos dados, a despeito

de se identificarem ocorrências de desaparecer do século XIV ao XVIII, apenas na segunda metade do século XIX encontram-se ocorrências em que desaparecer era seguido da preposição com. O uso transitivo, por sua vez, em contextos isolantes, ocorre apenas no século XX, como se pode observar em (6), em que três

coisas é objeto de desaparecer.