2.1 A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL NO QUADRO
2.3.2 Paradigma kantiano
O terceiro paradigma, que teve sua inspiração em Kant, considera possível ir além do modelo grociano de cooperação interessada, “admitindo a inserção operativa da razão abrangente do ponto-de-vista da humanidade” (LAFER, 1995, p. 172). Este modelo encontra a sua expressão nos chamados temas globais como o problema da paz, reconhecido como algo que diz respeito não apenas aos Estados, mas ao conjunto das pessoas humanas, que em última análise compõem a sociedade internacional (LAFER, 1995, p. 172).
Assim, o paradigma de inspiração kantiana tem como característica central a normatividade racional que impõe a solidariedade ao agir estatal, como consequência do imperativo categórico imposto a todos os seres humanos.
Na obra A paz perpétua Kant traduz para a esfera da política externa dos Estados as restrições morais impostas às pessoas. Nesse sentido, o Estado, para Kant, possui caráter personalista, e não patrimonialista, considerado a partir do seu terriório, mas uma sociedade de homens sobre a qual mais ninguém a não ser ele próprio tem que mandar e dispor. Assim, para Kant o Estado é considerado como uma pessoa moral (KANT, 2009a, p. 129; KANT, 2009b, p. 190), vivendo em relação com outro Estado na condição de liberdade natural e, portanto, numa condição de guerra constante (HURRELL, 1990, p. 186).
Na tradição kantiana, as relações internacionais são vistas mais como vínculo entre todos os seres humanos do que entre os Estados (BULL, 2002, p. 33). Assim, a proposição kantiana pretende atingir a paz perpétua porque, para muito além de transformar os Estados, idealiza a transformação da humanidade. Nesse sentido, para Hedley Bull:
[…] a tradição kantiana ou universalista assume que a natureza essencial da política internacional não reside no conflito entre os estados, mas nos vínculos sociais transnacionais entre os seres humanos, que são súditos ou cidadãos de algum estado. Para os kantianos, o tema dominante das relações internacionais parece ser o
relacionamento entre estados, mas é na realidade a relação entre todos os homens, participantes da comunidade representada pela humanidade, a qual existe potencialmente, embora não de modo efetivo, e que quando aflorar fará com que o sistema dos estados vá para o limbo (BULL, 2002, p. 33).
Daí a primeira característica do modelo kantiano das relações internacionais: “há a crença de que o sistema interestatal é de apenas de importância derivada e que a vida internacional deve ser vista em termos de uma sociedade global da humanidade e da existência de laços transnacionais que liga todos os seres humanos” (HURRELL, 1990, p. 185)60.
Em função disso, é possível pensar em uma oposição à cooperação grociana, dita interessada, afirmando que a cooperação kantiana seria desinteressada. Segundo Andrew Hurrell:
Na perspectiva universalista, dentro da comunidade humana, os interesses de todos os homens são os mesmos. Deste ponto de vista, a política internacional não é um jogo de soma zero, puramente distributivo como sustentam os hobbesianos, mas um exercício cooperativo, cuja soma final é maior que zero (BULL, 2002, p. 34). Isso é possível porque na filosofia política kantiana, a ética permeia a atuação dos atores da sociedade internacional, já que existe “o imperativo moral para se mover em direção a um mundo mais pacífico envolve a criação de novas formas de organização política internacional” (HURRELL, 1990, p. 185) 61. Dessa forma, são importantes as considerações kantianas sobre a moral nas relações internacionais:
Ao contrário da hobbesiana, a visão kantiana e universalista da moralidade internacional admite a existência de imperativos morais no campo das
60 Tradução livre. No original: “there is the belief that the interstate system is of only derivative significance and that international life should be viewed instead in terms of a global society of mankind and of the existence of transnational ties linking all human beings”.
61 Tradução livre. No original: “the moral imperative to move towards a more peaceful world even if this involves the creation of a new form of international political organization”.
relações internacionais, que limitam a ação dos estados; mas esses imperativos não pregam a coexistência e a cooperação entre os estados, e sim a derrubada do sistema de estados e sua substituição por uma sociedade cosmopolita (BULL, 2002, p. 34).
No entanto, uma leitura contemporânea mais precisa do paradigma kantiano sugere afirmar antes a existência de interesses comuns do que a atuação desinteressada dos Estados (HURRELL, 1990, p. 202). Afinal, a partir da imposição racional do agir moral, a perspectiva universalista kantiana percebe os conflitos entre os Estados como superficiais e transitórios. Em última instância, todos os povos compartilham dos mesmos interesses (BULL, 2002, p. 34), que encontram na ideia do imperativo categórico o seu ponto de convergência.
Esse enfoque vai além do paradigma grociano, pois agrega às relações internacionais um forte conteúdo humanista, sobretudo porque considera a pessoa humana, e não o Estado, como principal ator das relações internacionais. Uma consequência disso é o idealismo que advém do universalismo inspirado em Kant. Importante aqui é perceber os limites entre um idealismo fundamentado e um idealismo ingênuo, muitas vezes atribuído ao paradigma kantiano, já que este não se conforma com a domesticação dos Estados (advindo do internacionalismo grociano), exigindo que toda a humanidade se transforme.
Contrário à premissa realista de interesse de Estado, para Kant, a ação humana, para ser ética, deve ser motivada pela moral. Nas palavras de Soraya Nour:
Para Kant, os princípios jurídicos não podem ser ignorados por questões de ordem prática. Em Teoria e praxis, Kant define teoria como regras universais, das quais se abstraem as condições de sua execução , e a práxis como cumprimento de princípios universais de conduta. [...]. Entre teoria e práxis não pode haver conflito: como seria absurdo se não se pudesse agir conforme às leis da moral, pelas quais se deve agir, não pode, então, haver conflito entre a política, doutrina prática do direito, e a moral, doutrina teórica do direito (NOUR, 2004, p. 92).
Em função disso, alguns temas contemporâneos das relações internacionais são essencialmente kantianos, como o caráter pacífico das democracias, as instituições jurídicas internacionais, que ganharam a pauta dos estudos internacionais com o surgimento das organizações internacionais; o cosmopolitismo, que funda a noção de direitos humanos e a própria ideia de cooperação internacional; e também o princípio da publicidade, visto como ênfase na ordem pública.
Exemplo da atualidade desse paradigma e é força política que o discurso da cooperação internacional tem ganhado nas últimas décadas, usada muitas vezes para o cumprimento dos objetivos de desenvolvimento do milênio (previstos em muitos tratados multilaterais), os quais traduzem um consenso internacional em torno de uma comunidade de interesses. Por isso, mais do que uma cooperação desinteressada, o paradigma kantiano insinua ser mais apropriado falar em uma cooperação fundada em interesses comuns a toda a humanidade. No pensamento de Immanuel Kant, a hospitalidade universal é dever jurídico, configurado em oposição a um direito subjetivo, e não um mero ato de filantropia62. Trata-se de ter direito à face da terra, ou seja, ter direito, mesmo sendo estrangeiro, a não ser tratado como
62 Para Andrew Hurrell, “a sociedade global da humanidade tem uma realidade que não é apenas baseada nas leis morais universais. Este é o lugar onde a discussão de Kant do direito cosmopolita entra. Existe direito cosmopolita ‘na medida em que os indivíduos e Estados, coexistindo em um relacionamento externo de influências mútua, pode ser considerada como cidadãos de um estado universal da humanidade. Kant sublinha os limites deste direito cosmopolita. Em Metafísica dos Costumes, ele deixa claro que "esta não é uma comunidade legal de posse nem uma comunidade de propriedade”. Em Paz Perpétua, ele afirma que é limitado a “as condições de hospitalidade universal". Hospitality inclui o direito de acesso, de abrigo seguro e, mais importante, o dever de manter as condições em que o comércio ea convivência pacífica entre os povos são possíveis”. Tradução livre. No original: “the global society of mankind has a reality that is not solely based on universal moral laws. This is where Kant's discussion of cosmopolitan right comes in. Cosmopolitan right exists 'in so far as individuals and states, coexisting in an external relationship of mutal influences, may be regarded as citiziens of a universal state of mankind. Kant underlines the limits of this cosmopolitan right. In The Metaphysics of Morals he makes it clear that 'this is not a legal community of possession nor a community of ownership'. In Perpetual Peace he states that it is limited to 'the conditions of Universal Hospitality'. Hospitality includes the right of access, of safe shelter and, most important, the duty to maintain the conditions within which commerce and peaceful intercourse between peoples are possible” (HURRELL, 1990, p. 2003).
inimigo – este é o conteúdo do terceiro artigo definitivo para a paz perpétua. Para Kant:
Esta ideia racional de uma comunidade pacífica perpétua de todos os povos da Terra (mesmo quando não sejam amigos), entre os quais podem ser estabelecidas relações, não é um princípio filantrópico (moral), mas um princípio de direito. A natureza encerrou todos os homens juntos, por meio da forma redonda que deu ao seu domicílio comum (globus terraqueus), num espaço determinado (KANT, 1993, p. 201).
Esse dever de hospitalidade universal (HURRELL, 1990, p. 2002) de que fala Kant inspira Pasquale Stanislao Mancini a dizer que não existia, segundo o direito das gentes, em cada uma das soberanias independentes, o poder absoluto de recusar a aplicação de leis estrangeiras sobre o seu próprio território. Mancini dizia que o conceito de independência de um Estado não podia ser exagerado a ponto de autorizar a violação dos direitos de outro Estado (MANCINI, p. 10).
O cosmopolitismo de Immanuel Kant tem, no seu projeto de paz perpétua, o objetivo último de todas as nações. E sua ferramenta é o direito cosmopolita, cuja atualidade será debatido no próximo subcapítulo desta tese. O ideal kantiano pressupunha um mundo de grande interação, reconhecendo a notável influência que os abalos produzidos em um Estado produzem em todos os outros Estados63.
Se para alguns persiste ainda a visão de que Kant teria uma ética por demais abstrata e árida para que se possa ser usada em questões hodiernas64, muitos são os autores contemporâneos que se preocupam com a realização do ideal kantiano, no qual a política se sujeita à ética. Entre estes, Jürgen Habermas, Fábio Konder Comparato e Celso Lafer, para quem a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos de 1993 teve uma nítida inspiração kantiana, já que visa à:
[…] construção de um sistema internacional em
63 Uma crítica que se poderia fazer ao paradigma kantiano é o seu idealismo. Ocorre que o idealismo já não pode ser visto como uma simples opção retórica. O desenvolvimento já não é um problema só dos pobres, pois a perspectiva ambiental do desenvolvimento, que orienta o desenvolvimento sustentável, transforma o desenvolvimento do Sul na preocupação do Norte – por exemplo, no que se refere à saúde, ao meio ambiente e à segurança.
64 Para uma análise sistemática dos limites do “paradigma kantiano” das relações internacionais, ver: HURRELL, 1990, p. 183-205.
que a Política e a Ética deixam de ser esferas independentes, passando, ao contrário, a se interpenetrarem cada vez mais nas linhas do ideal kantiano de uma razão abrangente do ponto de vista da humanidade. Em outras palavras, a Conferência favorece a subordinação das soberanias à ética dos princípios representados pelos direitos humanos (LAFER, 1995, p. 170). Compartilhando com essa retomada das reflexões internacionalistas de Kant, Soraya Nour afirma que “em relações internacionais, o pensamento de Kant, associado ao idealismo-utópico do período entre guerras, tornou-se com a crítica realista um tema quase ‘tabu’. Com a ascensão na filosofia política de modelos predominantemente normativos, há um retorno da reflexão kantiana” (NOUR, 2004, p. 151). Segundo a autora: “como muitos filósofos vão se voltar para a reflexão da moral nos problemas internacionais, o ressurgimento do kantianismo nesse âmbito de análise torna-se inevitável, já que a esfera internacional ocupa um lugar central na reflexão jurídico-moral kantiana”(NOUR, 2004, p. 151).
Dentre esses autores se encontra Jürgen Habermas, que a partir de uma crítica normativa da sociedade, trata dos inúmeros desafios da globalização para a construção de uma “constelação pós-nacional”65. Esses desafios surgem, segundo ele, a partir de um desafio político- institucional lançado a partir da ideia de Estado Moderno, mas com a intenção de superá-lo (HABERMAS, 2001, p. 76).
Para Habermas, a globalização é um processo caracterizado pela quantidade cada vez maior e a intensificação das relações de troca, de
65
Referindo-se a essa constelação pós-nacional, Habermas menciona “o Estado territorial, a nação e uma economia constituída dentro das fronteiras nacionais formaram então uma constelação histórica na qual o processo democrático pôde assumir uma figura institucional mais ou menos convincente. Também só pôde se estabelecer no âmbito do Estado nacional a idéia segundo a qual uma sociedade composta democraticamente pode atuar reflexivamente sobre si de modo amplo graças à ação de uma de suas partes. Hoje essa constelação é posta em questão pelos desenvolvimentos que se encontram no centro das atenções e que leva o nome de ‘globalização’” (HABERMAS, 2001, p. 78).
comunicação e de trânsito para fora das fronteiras nacionais66. Segundo ele, na esteira kantiana, uma crescente interdependência das sociedades favoreceria a implementação da paz no mundo (HABERMAS, 2007, p. 154). Entretanto, tal tese deve ter cuidado para não cair em uma ingenuidade, pois na época em que Kant escreveu A paz perpétua, ainda não havia se desenvolvido a estrutura capitalista internacional que resultou no crescente conflito de classes sociais. Por isso Habermas diz, com toda a razão, que algumas premissas kantianas, trabalhadas no século XVIII, encontrariam dificuldades conceituais atualmente, necessitando de certas reformulações.
Por outro lado, Habermas adverte que o pessimismo desarrazoado não cria um horizonte desejável. Para ele, a ideia de paz perpétua estabelecida por Kant como uma força atrativa à ideia de condição cosmopolita é um projeto viável quando apresenta três propostas para uma maior participação do cidadão: um parlamento mundial que faça com que a ONU deixe de ser concebida como um “congresso permanente de Estados” e se converta em uma espécie de conselho federal67; a criação de uma corte internacional com jurisdição em todo o mundo e com capacidade de editar sentenças vinculantes; e a adaptação do Conselho de Segurança da ONU de forma a retratar de forma igualitária as relações efetivas do cenário internacional, como fim da obrigatoriedade do voto unânime entre os seus membros permanentes (HABERMAS, 2012, p. 218).
Habermas adverte que esses três elementos devem estar de acordo com os elementos organizativos das Constituições estatais, colocando
66 Para ele um exemplo paradigmático dessa transposição dos laços nacionais é o processo de construção da União Europeia. Hebermas afirma que tanto os eurocéticos, para quem apenas o Estado nacional tem força política, quanto os pró-Europragmáticos em grande monta da união dos mercados, parecem não ter razão. Segundo ele o futuro da política social europeia não depende da necessidade de institucionalização do mercado interno europeu, depende antes de se saber se a europa como sistema político pode levantar os recursos políticos necessários para impor obrigações redistributivas aos participantes do mercado (HABERMAS, 2001, p. 80).
67 “Nesse parlamento os povos estariam representados como totalidade dos cidadãos do mundo, mas não por seus governos, e sim por representantes eleitos. Países que se neguem a permitir a eleição de deputados segundo procedimentos democráticos (e levando em consideração as suas minorias éticas) poderiam ser representados provisioriamente por organizações não estatais designadas pelo próprio Parlamento Mundial como representantes das populações oprimidas” (HABERMAS, 2012, p. 218).
claramente que o direito cosmopolita é uma consequência lógica “da ideia de Estado de direito. Só com ele é que se constrói uma simetria entre a ordenação jurídica do trânsito social e político, para além e para aquém das fronteiras do Estado” (HABERMAS, 2012, p. 218).
Assim, na esteira de Kant, a proposta de Habermas dá mais protagonismo ao cidadão do que ao Estado nas questões internacionais. Nessa perspectiva pode-se entender a relativização do conceito de soberania identificada por Ferrajoli, na medida em que novos canais de participação política redefinem - não diminuem! – o papel do Estado (FERRAJOLI, 2002).
A compreensão desses três paradigmas é importante pata poder atribuir-lhes diferentes funções no estudo das relações internacionais. O paradigma hobbesiano-maquiavélico tem uma função analítica, no sentido de que, se dedica a formular uma descrição ontológica da realidade. Já o paradigma grociano vai mais além, pois ao lado de uma análise da realidade, ele, ao identificar valores comuns aos Estados, abre espaço para moldar comportamentos e ate induzir à cooperação, ainda que interessada. Por sua vez, o paradigma kantiano tem uma função normativa, comprometida com a transformação da realidade, de forma que os interesses dos Estados cedam diante do valor da dignidade humana na construção de uma sociedade global fundada em direitos humanos. A tabela sinóptica abaixo fornece um resumo das três tradições da teoria das relações internacionais.
Tabela 1. Paradigmas teóricos da teoria das relações internacionais68
68 Fonte: autor PARADIGMA HOBBESIANO- MAQUIAVÉLICO PARADIGMA
GROCIANO PARADIGMA KANTIANO Modelo teórico Realista Internacionalista Cosmopolita Tipo de relação entre os atores Anarquia internacional Sociedade internacional Sociedade Global Percepção da soberania
Absoluta Moderada Limitada
Enfoque político Interesse estatal Concerto internacional
Sociedade global Enfoque jurídico Direito estatal Direito
internacional Direitos humanos
Visto a potência do discurso kantiano na construção do discurso da cooperação internacional, a seguir será examinado qual o papel de uma teoria normativa das relações internacionais atualmente.