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Pausa no “blues”: acertando o compasso com a razão

2 Fundamentos e Argumentos

2.6 Por que um estudo de caso?

2.6.3 Notas em “blues”

2.6.3.4 Pausa no “blues”: acertando o compasso com a razão

O “blues” pede uma pausa para fundamentação. E neste momento nos encontramos com o neurologista português António Damásio e o seu “O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano”. É nesta obra que nos apoiamos para colocar em compasso com a razão (principalmente a necessária à investigação científica), o sentimento e as emoções que emanam das “notas em blues”.

Para este autor, “[...] os sentimentos exercem uma forte influência sobre a razão, já que os sistemas cerebrais necessários aos primeiros se encontram enredados nos sistemas necessários à segunda e que esses sistemas específicos estão interligados com os que regulam o corpo” (1996, p. 276). E propõe que

[...] a razão pode não ser tão pura quanto a maioria de nós pensa que é ou desejaria que fosse, e que as emoções e os sentimentos podem não ser de todo uns intrusos no bastião da razão, podendo encontrar-se, pelo contrário, enredados nas suas teias, para o melhor e para o pior [...] Não se pretende negar com isso que as emoções e os sentimentos podem provocar distúrbios destrutivos nos processos de raciocínio em determinadas circunstâncias. O bom senso tradicional ensinou-nos que isso acontece na realidade. (p. 12, grifo nosso)

Nem tanto nem tampouco. Nesta visão neurológica, a ausência de emoção é também incapacitadora como sua excessiva preponderância sobre a razão. Damásio diz apenas que se limita “a sugerir que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade”, já que “os níveis mais baixos do edifício neurológico da razão são os mesmos que regulam o processamento das emoções e dos sentimentos e ainda as funções do corpo necessárias para a sobrevivência do organismo”, ou seja, “emoção, sentimento e regulação biológica, desempenham um papel na razão humana” (p. 12-13). “Os

sentimentos, juntamente com as emoções que os originam, não são luxo. Servem de guias internos e ajudam-nos a comunicar aos outros sinais que também os podem guiar” (p.

15, grifo nosso). “A emoção e os sentimentos constituem a base daquilo que os seres humanos têm descrito há milênios como alma ou espírito humano” (p. 16).

Para ilustrar esta perspectiva, nada mais interessante do que uma passagem na qual o próprio autor fala sobre como fora habituado a pensar sobre razão e emoção e assim conta a história de uma “sugestiva” experiência que viveu:

Cresci habituado a aceitar que os mecanismos da razão existiam numa região separada da mente onde as emoções não estavam autorizadas a penetrar [...]. Essa era então uma perspectiva largamente difundida acerca da relação entre razão e emoção, tanto em termos mentais como em termos neurológicos. Tinha agora, porém, diante de mim, o ser inteligente mais frio e menos emotivo que se poderia imaginar e, apesar disso, o seu raciocínio prático encontrava-se tão prejudicado que produzia, nas andanças da vida cotidiana, erros sucessivos numa contínua violação do que o leitor e eu consideraríamos ser socialmente adequado e pessoalmente vantajoso. Ele tivera uma mente completamente saudável até ser afetado com uma doença neurológica que danificou um setor específico do cérebro, originando, de um dia para o outro, essa profunda deficiência na sua capacidade de decisão. Os

um comportamento racional encontravam-se inatos. Ele possuía o

conhecimento, a atenção, e a memória indispensáveis para tal, sua linguagem era impecável; conseguia executar cálculos; lidar com a lógica de um problema abstrato. Apenas um outro defeito se aliava à sua deficiência de

decisão: uma pronunciada alteração da capacidade de sentir emoções.

Razão embotada e sentimentos deficientes surgiam a par, como conseqüência de uma lesão cerebral específica, e essa correlação foi para mim bastante sugestiva de que a emoção era um componente integral da maquinaria razão. (p. 11-12, grifo nosso)

Mas qual seria a argumentação para tal posição?

[...] Os sentimentos parecem depender de um delicado sistema com múltiplos componentes que é indissociável da regulação biológica; e a razão parece, na verdade, depender de sistemas cerebrais específicos, alguns dos quais processam sentimentos. Assim pode existir um elo de ligação em termos anatômicos e funcionais, entre razão e sentimentos e entre esses e o corpo. É como se estivéssemos possuídos por uma paixão pela razão, um impulso que tem origem no cerne do cérebro, atravessa outros níveis do sistema nervoso e, finalmente, emerge quer como sentimento quer como predisposições não conscientes que orientam a tomada de decisão. A razão, da prática à teórica, baseia-se provavelmente nesse impulso natural por meio de um processo que faz lembrar o domínio de uma técnica ou de uma arte. Retire-se o impulso, e não é mais possível alcançar essa perícia. Mas o fato de se possuir esse impulso não faz de nós, automaticamente, peritos. (p. 276)

O que quisemos com esta pausa? Aqui trazer o argumento de Damásio (1996) que diz ser “anti-cartesiano” o ponto de partida da ciência e da filosofia. “Existimos (e naturalmente sentimos) e depois pensamos e só pensamos na medida em que existimos, visto o pensamento ser, na verdade, causado por estruturas e operações do ser” (p. 279). Ou seja, em suas palavras, “existo (e sinto), logo penso”.

Isto posto, atentar para o fato de que ter conhecimento da importância basilar do sentimento e das emoções – no que tange “questões de razão” – pode nos possibilitar uma maior clareza perante as atraentes armadilhas da observação científica.

Sendo assim, um último senão é pertinente e necessário antes de seguirmos adiante. Conhecer a relevância das emoções nos processos de raciocínio não significa que a razão seja menos importante do que as emoções, que deva ser relegada para segundo plano ou deva ser menos cultivada. Pelo contrário, ao verificarmos a função alargada das emoções, é possível realçar seus efeitos positivos e reduzir seu potencial negativo. (p. 277, grifo do autor)

De posse deste devido fundamento, cônscios da “significância neurológica” do que emana de um bom blues, nos sentimos à vontade para convidar o leitor a retomar a “audição”...

2.6.3.5 “Acordes” reflexivos

Pesquisar é, acima de tudo, uma atividade humana. Pode esta espécie agir, pensar e refletir cientificamente sem sentir? Porque não deixar que uma “boa melodia” desperte sentimentos e nos leve a refletir sobre os mesmos?

Sabemos que a pesquisa acadêmica pede por objetivação, mas não seria esta, como a conhecemos corriqueiramente, uma grande armadilha – tal e qual argumentamos, juntamente com Machado Pais (vide seção 2.5). Será que esta necessária, porém não inquestionável, objetividade, nos obriga a reduzir o trabalho de pesquisar a este “ideal de objetivação”? Não há espaço para que “escutemos um bom blues”?

Feitas as devidas ressalvas ao improviso da transposição do “anthropological blues” para o “blues” na administração, podemos e escutamos esta melodia por aqui. Caso o leitor discorde desta nossa afirmação, pedimos que, mansamente, releia a seção 2.6.3.3. Alguma “melodia” se faz presente?

O “blues” recebeu abrigo, por entre observações e constatações, nas notas de campo desta pesquisa. Este é um primeiro aspecto que queremos mostrar nos excertos apresentados. Eles trouxeram ensinamentos para aquele que os escreveu. Está registrado no caderninho do pesquisador e em sua história acadêmica.

Indo além. Sentir também é conhecer, conhecer-se, relacionar-se com pessoas, ouvir suas brincadeiras e tentar interpretar o que está “para além” delas, abrir-se ao mundo. É preciso nos lembrar constantemente que, o que quer que façamos, estaremos sentindo algo.

Em termos neurológicos, vimos com Damásio (1996) que existimos e sentimos antes

mesmo de pensar. E, sendo assim, a razão humana está imbricada à emoção, ao sentimento.

Podemos ignorar isso na atividade científica? Seria racional? Acreditamos que não. Não apenas como aspecto inerente às atividades investigativas humanas, mas também, e principalmente – quando pensamos em sua utilidade à pragmática científica – como o primeiro passo à razão científica, início da construção empírica que no campo se dá.

Seguimos inspirados neste autor, e na analogia musical, no sentido de clarificar o “efeito interpretativo” do que aqui denominamos “blues”. Como uma música, o cotidiano precisa ser interpretado. É justamente este interpretar que, inevitavelmente, surge com sentimento. Como uma música, apesar de haver “uma partitura”, cada intérprete o faz à sua maneira, dá o seu “tom” e isso torna cada interpretação única – quer queiramos assim vê-la ou não.

A interpretação é o que, de fato, nos é importante e possível já que a música, exatamente tal e qual está na partitura, nunca será escutada. O que poderemos ouvir são interpretações “racionais” desta. Mas estas sempre virão recheadas de “blues” já que o

“blues” surge antes da razão. Para nós, a racionalização na pesquisa somente se dá após o

“sentir”. Não concordamos com o paradigma dominante que afirma ser a razão o fundamento “incontestável” das decisões investigativas. Para Damásio, este foi o grande erro que herdamos do pensamento cartesiano, ou seja, pensar que a razão surge antes (ou independentemente) do sentimento. Na verdade, quer aceitemos ou não, quando pensamos já estamos influenciados pelo que aqui chamamos de “blues”.

Partindo desta constatação, o que devemos fazer então? Atentar para este aspecto antes de tentarmos “racionalizar tudo”. Afinal, sem levá-lo em consideração, corremos o grande risco de apenas focalizar “dados” que estão no escopo de nossa racionalização. Seriam estes representativos de um cotidiano também repleto de “blues”? É assim que observamos o

cotidiano e é assim que o “blues” inevitavelmente se fará presente em toda nossa investigação e interpretação...

2.6.4 No hemisfério da razão, consolidando focos e questões de