CONTEXTUALIZAÇÃO RURAL BRASILEIRA E A AGRICULTURA FAMILIAR
1.3 PEQUENA E GRANDE PROPRIEDADE EM PONTA GROSSA
A região dos Campos Gerais, onde está situada Ponta Grossa, já era conhecida dos europeus desde o século XVI. Chamma (1988)3 conta que o espanhol Alvar Nuñes Cabeza de Vacca foi um dos primeiros europeus a passar pelos Campos Gerais, em 1541, indo para o Paraguai. Um século depois os jesuítas construíram um pequeno oratório próximo ao Rio Pitangui, que viria a ser parte do município ponta-grossense.
Chamma (1988) diz que, ao passarem pelos Campos Gerais, muitos paulistas se entusiasmaram com a região, "que parecia promissora para a criação" (1988, p. 7). Em 1704, famílias de São Paulo, relacionadas com a Coroa, requereram, por sesmarias, terras localizadas na região. A Igreja Católica também participou desse povoamento, com a aquisição de áreas. A autora explica que monges beneditinos adquiriram a Sesmaria do Rio Verde, onde construíram uma fazenda de criação e invernada.
No ano de 1792, Ponta Grossa virou bairro, pertencente a Castro. Em 15 de setembro de 1823 passou à condição de freguesia.
Em pouco tempo a região passou a ser percorrida por pessoas que iam ao Rio Grande do Sul procurar gado para iniciar rebanhos ou vender na feira de Sorocaba, São Paulo. Esses tropeiros, segundo Chamma (1988), ajudaram a desbravar e colonizar o Sul do Brasil. De acordo com a autora, muitas sesmarias da região foram desmembradas entre herdeiros, com a morte de seus proprietários, dando origem às grandes fazendas que iam povoando os Campos Gerais. Vários tropeiros também solicitaram sesmarias.
As fazendas eram auto-suficientes, para a subsistência. Também criavam gado bovino para vender nas feiras de Sorocaba. Inicialmente, de
3 Embora a obra em questão não trate especificamente do tema proposto, em suas ruralidades, foi
objeto de pesquisa documental, uma vez que traz elementos históricos da formação do povo e ocupação em Ponta Grossa.
acordo com Chamma (1988), tropeiros, quando passavam por aqui, invernavam o gado em terras do governo. Com o tempo, as grandes fazendas foram anexando essas áreas. Ai era necessário licença do fazendeiro para descansar a tropa. Muitos alugavam as pastagens, conseguindo um bom dinheiro com isso. A idéia de "viver de aluguel" fez com que vários fazendeiros, já no século XIX, deixassem até de criar gado para locar seus espaços.
Gonçalves e Pinto (1983) explicam que Ponta Grossa surgiu principalmente através da atividade pecuarista. Situado ao longo do caminho das tropas, o vilarejo oferecia boas condições para a comercialização de animais entre criadores e compradores, que levavam o gado para Sorocaba. Ainda como Freguesia, se integrou à economia nacional, justamente por estar no caminho das tropas, com criatório, invernagem e comercialização do gado. Havia grande procura de animais de carga e transporte para a região de Minas Gerais, inicialmente e depois, com o café e o açúcar, para o Rio de Janeiro e São Paulo. "Trabalho bastante rentável, proporcionou acúmulo de capitais e concentração de propriedades" (1983, p. 48).
Quando Ponta Grossa foi elevada a cidade, em 1862, a economia girava em torno da erva-mate, madeira, gado e outros produtos, produzidos e comercializados com a presença de imigrantes nacionais e estrangeiros, segundo levantamentos de Gonçalves e Pinto (1983). De acordo com as autoras, a intensidade das atividades de criação e comércio de animais, além da produção de erva-mate, fizeram com que a agricultura, no século XIX, não se desenvolvesse, já que os lucros daquelas atividades eram muito maiores. A agricultura era reduzida e produzia o estritamente necessário para o consumo local.
O desabastecimento interno de alimentos que se verifica em todo o País, especialmente nos centros urbanos, destacado por Priore e Venâncio (2006), também se observou nessa região. Segundo Gonçalves e Pinto (1983), houve uma queda sensível na produção de alimentos no Paraná. Por isso, em 1857 o Ministério da Agricultura pediu para as autoridades das Vilas de Ponta Grossa, Castro e Lapa, através de circular, os motivos da elevação dos preços dos produtos alimentares. A resposta, via de regra, era a falta de pessoas para trabalharem. Os homens da região preferiam lidar com a pecuária, como explicado anteriormente. Além disso, reclamavam da proibição do tráfico de escravos e fim da abertura de novas posses de terras devolutas.
De acordo com Gonçalves e Pinto (1983), era a mão-de-obra escrava que garantia a produção de alimentos, como milho e feijão, já naquela época as culturas preferenciais, como ocorre ainda hoje na agricultura familiar. Esses grãos eram indispensáveis para o regime alimentar da época. As autoras dizem que para o branco de origem portuguesa o trabalho na terra não era considerado digno, por isso os proprietários não faziam as atividades pesadas.
1.3.1 Consolidação da atividade primária
Os imigrantes europeus surgiram como opção para resolver o problema da produção. "A escassez de mão-de-obra para a lavoura determinou a política imigratória a ser adotada pelo império" (GONÇALVES; PINTO, 1983, p.110).
No Paraná, a maior parte dos imigrantes veio para desenvolver uma agricultura de subsistência. Foram, então, criadas colônias agrícolas próximas dos centros urbanos, como forma de aproximá-los dos mercados consumidores. Assim, os imigrantes ajudaram a consolidar a pequena propriedade na província e em Ponta Grossa. Se juntaram a outros pequenos ocupantes que já viviam de forma precária, desde o século XVIII na região. Chamma (1988) conta que naquela época a população do então bairro ia crescendo. Ao longo do caminho existiam casas com moradores vivendo de pequenas roças e artesanatos, como chapéus, balaios, cestos, arreios de couro e baixeiros, que eram vendidos aos tropeiros.
Segundo Gonçalves e Pinto (1983), o governo da Província entendia que a crise alimentícia de 1857 tinha como causa a falta de produção. Era necessário criar condições para melhorar a agricultura. Para isso, entendiam as autoridades, os europeus, com seus conhecimentos e técnicas, poderiam ser bastante úteis no desenvolvimento agrícola. De acordo com as autoras, o governo acreditava que os imigrantes da Europa produziriam mais, gerando sobras para abastecer os centros urbanos e exportar alimentos.
De acordo com Gonçalves e Pinto (1983), entre 1877 e 1878, 3.809 russos-alemães entraram no Paraná. Desse total, 2.381 foram instalados em colônias de Ponta Grossa. Nem todos ficaram, muitos foram para outras regiões e até deixaram o país. Um dos motivos da reimigração foi a pobreza do solo, que resultou em colheitas fracassadas. De qualquer forma, muitos ficaram, se
tornando alguns dos primeiros imigrantes a se instalarem no município. Ainda em fins do século XIX chegaram poloneses.
Gonçalves e Pinto (1983) explicam que havia contentes e descontentes convivendo lado a lado. Também, conforme relata Chamma (1988), muitos imigrantes tiveram suas terras tomadas por fazendeiros, que os expulsavam com jagunços. Eles vinham, então, para a cidade, trabalhar em atividades artesanais e manufatureiras. Foram poucos, portanto, os imigrantes que realmente se fixaram na terra.
Com a saída de muitos russos-alemães, as áreas destinadas inicialmente ao grupo foram reocupadas por outros imigrantes que chegavam, como poloneses, alemães e italianos. Conforme explicam Gonçalves e Pinto (1983), os europeus contribuíram para o desenvolvimento econômico urbano e rural de Ponta Grossa.
Chamma (1988) explica que no final do século XIX o comércio de muares e gado vindo do Sul vai se exaurindo e Ponta Grossa, cada vez mais, vai deixando a atividade pecuária e agrícola em segundo plano. Mas os grandes fazendeiros mantêm suas terras. A agricultura, propriamente dita, é atividade, principalmente, da pequena propriedade. Para os fazendeiros, com a extinção paulatina da escravidão, trabalhar na lavoura não era dignificante. A terra fraca para a agricultura, conforme explicam as autoras, também não ajudava.
A partir do enfraquecimento da atividade tropeira, a região foi aos poucos constituindo uma vida econômica própria, baseada nas atividades manufatureiras industriais e comerciais em Ponta Grossa. No meio rural, que é o que interessa neste trabalho, as formas de produção começam a dar origem à pequena propriedade. De acordo com o Censo de 1920 (GONÇALVES; PINTO, 1983), as atividades primárias representavam, então, apenas 17,7% da ocupação da população masculina, a maioria na agricultura, produzindo para suprir o consumo local. Naquele ano foram recenseadas 434 propriedades, que produziam cereais e outros alimentos, sendo os mais significativos o milho e o feijão. Os levantamentos são ricos em detalhes, mostrando que os agricultores da época produziam mandioca, batata, trigo e arroz. A maioria também tinha bovinos e eqüinos, além de, em menor proporção, ovinos, muares, suínos e caprinos. Havia ainda apicultura em algumas propriedades, galinhas em quase todas, e também patos e perus. Seis propriedades tinham erva-mate, 196 faziam farinha de mandioca e sete produziam vinho de uva. Outras duas faziam outros tipos de vinho, não especificados.
A atividade agrícola, ao contrário do que ocorria com os primeiros colonizadores, agora era desenvolvida em pequenas propriedades, exploradas de forma diversificada, conforme explicam Gonçalves e Pinto (1983). Os agricultores vendiam seus excedentes e adquiriam outros produtos de que necessitavam, na cidade. Mas muitos foram para a área urbana. Registros de 1889 a 1920, publicados pelas autoras, mostram que apenas 20,6% dos imigrantes dedicavam-se à agricultura. Conforme levantamento de Gonçalves e Pinto (1983), no período, havia 90 famílias de imigrantes declaradas como "lavradores" no registro de casamento do Cartório Santana.
Grande parte dos pequenos produtores de base familiar que vivem e trabalham atualmente em Ponta Grossa são descendentes desses pioneiros, que chegaram já no período da ocupação das áreas e imigrantes europeus. Eles continuam na atividade e adotam muitas formas de produção, hábitos e costumes de seus pais e avós.