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Periodicidade e suas consequências financeiras

4.2 CAPITALIZAÇÃO DE JUROS

4.2.2 Periodicidade e suas consequências financeiras

Conforme será analisado nos tópicos posteriores, existe grande divergência jurisprudêncial quanto ao período da capitalização, uma vez que, em determinados casos, a lei autoriza tal cômputo em períodos inferiores ao anual. Esta discussão tem grande relevância uma vez que os resultados obtidos desta capitalização em períodos diversos são evidentemente significativos.

No tópico anterior, quando exemplificou-se a evolução do débito com capitalização, utilizou-se o período mensal, tendo em vista se tratar do mais usual nas operações bancárias49.

O período de capitalização pode ser diário, mensal, anual, etc. Conforme informado no parágrafo anterior, verifica-se que na grande parte dos contratos bancários incidem a capitalização mensal, mas nada impende, matematicamente (legalmente e juridicamente, a questão será abordada nos próximos tópicos), sua incidência diária, por

A avaliação é do economista Willian Eid Júnior, coordenador do Centro de Estados de Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Os oligopólios, pequenos grupos de empresas que dominam segmentos de mercado, impondo suas condições e barrando a concorrência, precisam ser “coesos”, observa Eid Jr, o que não acontece com os bancos brasileiros neste momento." (BB, 2012)

49

A exemplo: "CONTRATOS BANCÁRIOS. Revisional parcialmente procedente. Insurgência de ambas as partes. Nulidade dos contratos. Falta de inscrição junto ao Sistema de Informação de Crédito do Banco Central - SCR. Inovação recursal. Conhecimento inviabilizado. Juros remuneratórios. Limitação à taxa legal na falta de pactuação. Redução à média de mercado quando superior a este patamar. Capitalização mensal de juros vedada. Afronta ao princípio da transparência. Sucumbência redistribuída. Recurso da empresa correntista conhecido em parte e parcialmente provido e apelo do banco desprovido." (SANTA CATARINA, 2012)

exemplo. Isso porque, a periodicidade apenas indica qual o período em que deverá ser somado os juros - até então computados - ao capital para que haja a incidência de novos juros.

A escolha do período de capitalização tem expressiva consequência no resultado final do capital. Demonstram-se, por meio de quadro exemplificativo, os resultados obtidos quando capitalizados com periodicidade distinta, tendo como base um capital inicial de R$ 1.000,00 (dez mil reais) aplicado à taxa de 10% (dez por cento) ao mês por um lapso temporal de dois anos (vinte e quatro meses):

Quadro 6 - Diferença entre a evolução do saldo com capitalização mensal e anual Valor do financiamento...

Valor dos juros no período...

R$ 1.000,00 10% ao mês

Mês Capitalização mensal Capitalização anual

0 R$ 1.000,00 R$ 1.000,00 2 R$ 1.210,00 R$ 1.200,00 4 R$ 1.464,10 R$ 1.400,00 6 R$ 1.771,56 R$ 1.600,00 8 R$ 2.143,59 R$ 1.800,00 10 R$ 2.593,74 R$ 2.000,00 12 R$ 3.138,43 R$ 2.200,00 14 R$ 3.797,50 R$ 2.640,00 16 R$ 4.594,97 R$ 3.080,00 18 R$ 5.559,92 R$ 3.520,00 20 R$ 6.727,50 R$ 3.960,00 22 R$ 8.140,27 R$ 4.400,00 24 R$ 9.849,73 R$ 4.840,00

Fonte: Elaborado pelo autor

Analisando estes dados, conclui-se que o saldo total apurado pela capitalização mensal é quase o dobro do apurado por período anual. Indubitável, portanto, que o uso da capitalização mensal, mormente nas operações bancárias, onera sobremaneira o capital em um curto período de tempo, porquanto a cada mês o capital cresce de maneira exponencial.

Na capitalização mensal, o saldo mensal (já embutido os juros) serve como base de cálculo para a aplicação dos juros no próximo mês. Destarte, a cada mês aplicam-se juros sobre o saldo anterior, desconsiderando-se o capital inicial (que serve apenas como base de cálculo no primeiro mês).

Doutro norte, na capitalização anual, há a incidência de juros simples durante os doze primeiros meses, e, a partir de então, somam-se todos os juros (que foram aplicados separadamente) para que sejam incluídos ao capital inicial. O resultado desta última soma será a base de cálculo para a incidência de juros nos próximos doze meses, e assim sucessivamente.

Diante disso, relembrando o caso hipotético lançado no tópico anterior, acaso os juros aplicados no "cheque especial" fossem capitalizados anualmente, ao final dos cinco anos haveria um saldo devedor de R$ 451.338,98 (quatrocentos e cinquenta e um mil, trezentos e trinta e oito reais e noventa e oito centavos), ou seja, menos de 1/5 (um quinto) do valor obtido através da capitalização mensal.

Assim sendo, diante destes fatos, é incontestável que a capitalização mensal nas operações bancárias torna a dívida demasiadamente onerosa, restando patente a iniquidade do contrato que contenha tal pactuação50. Com efeito, a capitalização mensal "implica uma desproporção radical entre prestação e contraprestação" (DALLAGNOL, 2002).

Sobre este efeito devastador, cumpre fazer alusão a uma parábola que apresenta algo de muito verdadeiro a respeito do tema em estudo, cuja leitura permite a fácil compreensão do que se pretende expressar:

Recentemente foi realizado o leilão de uma rara moedinha americana de 5 cents, cunhada em 1.913. Foi arrematada por 3 milhões de dólares. Essa série de moedas tem, no anverso, a imagem de um indígena austero e, no reverso, um búfalo em posição de ataque. Ao serem cunhadas, os três primeiros exemplares tiveram o búfalo gravado com uma pata a menos, o que as tornou raridades.

Imaginei o Tio Patinhas, naquela época ainda menino, mas com a visão a longo prazo, emprestando uma moedinha comum de 5 cents, por um período de dois anos, e recebendo, como juros, uma outra moeda igual, no final do prazo.

Em 1.913, Tio Patinhas emprestou ao Pateta uma moedinha de 5 cents para receber 2 moedinhas dois anos depois (1.915), uma destas representando o capital e a outra os juros. Ao receber o pagamento, emprestou as duas moedas para, no final do outro período de dois anos, cada uma delas gerar outra igual. Seu capital, em 1.917 (quatro anos depois, ou dois períodos) totalizou 4 = 2² (2 ao quadrado) moedas de 5 cents, representando uma delas o capital e as outras três, os juros.

Ao emprestar essas 4 moedas por um novo período de dois anos, recebeu, em 1.919, 8 moedinhas de 5 cents (8 = 2³ onde a base 2 representa o dobro e o expoente 3 o número de períodos). Destas oito, uma corresponde ao capital inicial e as outras sete, aos juros.

Isto é o que acontece com o dinheiro emprestado á taxa de 2,93% ao mês, a juros com capitalização mensal: o capital de quem empresta o dinheiro dobra em um período, quadruplica em dois períodos, octuplica em três períodos, etc..., assim como a dívida de quem toma emprestado.

50 "Enquanto o legislador não agir consonante à previsão ditada pela Lei maior, sinalizando a taxa legal dos juros, na dependência de lei complementar, sem o preenchimento desta laguna, cujo vazio completou quase uma década, naturalmente o comodismo e a anemia centrada na timidez do processo legislativo interferirão na política macroeconômica, com os índices percentuais perversos que governam as taxas de juros. A se permitir o anatocismo, seguramente, as circunstâncias seriam imorais e violariam a Lei de Usura, que, apesar de vetusta, é o sistema de peso e contrapeso que se destaca do conteúdo da realidade, a sinalizar limite que possa refrear o desequilíbrio entre os contratantes." (ABRÃO, 2008, p. 107-108)

No ano de 2.005, o empréstimo teria completado 92 anos ou 46 períodos. O número de moedinhas acumulado seria 2 elevado à potência 46, ou seja, mais de 70 trilhões de moedinhas que equivalem a US$ 3.518.437.208.883,20 (3 trilhões, 518 bilhões, 437 milhões, 208 mil, 883 dólares e 20 cents), dos quais 5 cents correspondem ao capital inicial aplicado e os restantes três bilhões e meio de dólares aos juros gerados por aquela moedinha.

Notem que a taxa de juros aplicada neste exemplo é bem menor que as taxas que são utilizadas pelos bancos e comerciantes no Brasil, mesmo nos empréstimos a empresários e nos consignados na folha de pagamento.

O crescimento exponencial leva a números inimagináveis. Este é um exemplo da perversidade dos juros capitalizados mês a mês. (ALMEIDA apud BAPTISTA, 2008, p. XI-XII)

Passa-se, agora, à análise do comportamento legislativo quando à permissibilidade da capitalização de juros no Brasil.