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CÍRCULO SEGUNDO:

2.2 PERSONAGEM E PESSOA: INTERFACE

Até então partimos de ideias desenvolvidas por Compagnon, Eagleton e Noa, dentre outros, com o propósito de evidenciar que o conceito de literatura não se encerra nessa ou naquela vertente, as quais correspondem a determinadas visões acerca da linguagem literária em suas transmutações temporais. Sendo assim, nosso intuito é entrelaçar as respectivas contribuições, de modo a estabelecer possíveis diálogos entre a relação “interna e externa do texto literário” que resultam da acepção literária de Candido (1992), sendo explicitada por Khéde (1990) e, sobretudo, retomada pelos mentores da Negritude e da Literatura Negra brasileira.

Norteamo-nos, portanto, nos campos teóricos que lançam luzes para a interface analítica. Compreendemos, nesse prisma, que os personagens não surgem do nada, não

estão alheios às injunções do tempo, muito embora não se reduzam a retratar a realidade humana, ou seja, o denominado “mundo empírico” (NOA, 2002, p. 87).

As contribuições dos estudiosos aos quais recorremos são fundamentais para situar os campos teóricos por eles estudados e, deles, ampliarmos a noção dos personagens, os quais foram concebidos, em alguns momentos, como representação e reflexo da realidade e, em outros, como “alheios” ao universo humano, sob o prisma da imanência.

Embora não desconsidere a faceta representativa dos personagens desde a era clássica até a modernidade, partindo primeiro da Arte Poética de Aristóteles e depois de Vladimir Propp, Segolin (1978) retoma a formulação aristotélica no que se refere à associação entre personagem e pessoa humana. Surge, desde então, a polêmica instaurada quando a crítica literária reinterpreta a “mimese” aristotélica. Assim seguiram-se trilhas teóricas em face dos “movimentos de fluxo e refluxo da atividade crítica diante de [um] problema sempre reproposto, relativo à natureza da Arte e da Literatura” (SEGOLIN, 1978, p. 15). A asserção de Segolin vai ao ponto crucial de quem tenta percorrer as facetas humanas e/ou imanentes dos seres ficcionais e, nestas, imbricadas questões ressurgem.

Ainda reportando-se a Aristóteles, argumentando que a referência corresponde ao “fazer artístico”, ao “modo” de elaboração desse fazer, e não à imitação tal qual do objeto imitado, afirma Segolin (cit., p. 16):

o autor da Poética estava igualmente atento em relação ao fato de que todo trabalho imitativo, por mais fiel que seja ao modelo a cópia oferecida, exige o desenvolvimento de uma operação ordenadora que, ao mesmo tempo que nos remete para o ser imitado, igualmente aponta para a própria imitação, isto é, para a obra enquanto produto de um gesto mimético, que realça não mais o referente, mas o próprio modo como a imitação deste se configura.

Segolin assevera que através da Arte Poética não só se possibilita a associaçãa personagem e pessoa, em uma perspectiva “ético-representacional”, mas, também, há dissociação do “modelo” humano, remetendo “para o ser imitado”. Assim, “se podemos ver a obra como representação do mundo e a personagem como reflexo [...] da pessoa humana [...]”, pondera Segolin (cit., p. 16-17), “devemos também nos lembrar de que ambos se nos oferecem como organismos capazes de se valerem e se explicarem por si mesmos, sem que se leve em conta sua comum analogia com a realidade de que fazemos parte e que também somos”. É esse o propósito do trabalho do referido

pesquisador, pautar-se em perspectivas teóricas que norteiam uma acepção da personagem dissociada do ser humano.

A Arte Poética, sabemos, resulta dos ensinamentos de Aristóteles sobre a arte de encenar a tragédia e também da sua composição enquanto texto artístico. Para tanto, ele se reportou a outros textos da época. Ali está um manancial teórico retomado, reinterpretado e associado às perspectivas dos pesquisadores no afã de defender suas teses, no que concerne à arte enquanto representação ou não da realidade humana. Isso está posto, sim; afinal, se afirma ser a tragédia a “imitação não de homens, mas de ações da vida, da felicidade, da infelicidade” (ARISTÓTELES, 2006, p. 36).

A atenção de Aristóteles pela ação tem a ver com o contexto dos festivais realizados com peças que deveriam ser encenadas em um limitado espaço de tempo, contendo certo número de atores, de modo a ocasionar a comoção e a catarse (LUNA, 2005). Disso dependeria não só a arte de se entrelaçar a trama trágica como, também, a sua representação. Daí advêm as demais elucidações acerca das partes constitutivas da peça trágica, e pouco se faz menção aos personagens, especificamente.

Se Aristóteles (cit., p. 38) evidencia que a “tragédia existe por si independente da representação e dos atores” ele, com isso, destaca o importante papel da tessitura artística, da composição textual no que tange à linguagem, especificamente, pois o grande mérito, a seu ver, consiste em se saber elaborar a tragédia dentro dos rigores pré- estabelecidos, e suas orientações têm esse fim. Mas não só isso, já que o ato de representá-la era fundamental para se obter o sucesso desejado. É esse manancial de informações que alguns estudiosos revisitam para defender suas teorias e perspectivas analíticas, como faz Segolin.

A tese de Segolin traz à tona as polêmicas instauradas anteriormente no campo da teoria literária no tocante à referência. Portanto, quando o estudioso se volta para a noção de personagem no âmbito da linguagem literária, estritamente, dissociando-a do universo circundante, ele pauta-se na linha imanente da literatura, e o faz a partir da reinterpretação da mimese aristotélica, mas o ponto de vista é da arte pela arte. Muito embora não desconsideremos a importância da sua pesquisa, principalmente a parte diacrônica dos seres ficcionais desde o mundo clássico sob o prisma aristotélico até a contemporaneidade, por outro lado entendemos que há um extremismo quando da obstinação em dissociar a face dialógica da personagem do universo circundante. Assim, ele chega à denominada “anti-personagem”, antecedida pelo “personagem- texto”. Para tanto são elencadas as sucessivas transformações sofridas pela “personagem

função” proppiana, considerando que os “agentes narrativos, descaracterizados funcionalmente [são], destemporalizados” metalinguisticamente [...]” (SEGOLIN, 1978, p. 78)”

Conforme Segolin, a “personagem-texto” advém dos novos papéis atribuídos a alguns personagens modernos, na medida em que estes não se enquadram nas funções tradicionais aventadas por Propp74. Aquelas referências de linearidade temporal, de feixes de ação, de um fio narrativo a enredar a trama, entre outros elementos da narrativa são postos em xeque, à medida que novas ações dos seres ficcionais são suscitadas em algumas obras literárias modernas, observa o pesquisador.

Segolin (1978, p. 78) assevera, pois, que algumos personagens modernas “distanciam-se ainda mais da personagem proppiana, configurando-se como código ou código-linguagem que se atualizam na trama-linguagem de um texto-herói”. Essa ótica visa à distinção, à demarcação de território, digamos assim, entre personagem e pessoa, como se destituindo a máscara antropomórfica ao longo do estudo diacrônico. Interessa- lhe, tão somente, a “personagem metalinguística, ocupada em explicar sua essência verbal e em negar/anular seu pretendido compromisso representativo com o homem e o mundo” (op. cit, p. 108).

Segolin toma como exemplo algumas narrativas modernas, argumentando que rompem com a linearidade temporal, com um eixo temático enredado. Nestas, argumenta, não seria possível identificar o início, meio e fim da trama, tampouco um clímax dentro dos ditames dos textos proppianos. Eis, então, a seu ver, a distinção entre os personagens modernas e as funções identificadas nos contos maravilhosos observados pelo folclorista russo. Mesmo assim, nos instiga a dissenção, pois compreendemos que se modifica o modo de expressar, no entanto a referencialidade pode ser observada através dos conflitos suscitados pelos referidos seres ficcionais.

Para Segolin nem todas as personagens modernas se aproximam dessa perspectiva de ruptura com os contos tradicionais. Como ele se refere a algumas obras que não são do nosso rol de leitura, podemos exemplificar através de duas narrativas de Clarice Lispector (1998) que apresentam personagens imersas em divagações e questionamentos existenciais. Da escritora, Água Viva e A paixão Segundo GH, de modo geral, são obras que não seguem um fio narrativo semelhante ao que Propp

investiga nos Contos Maravilhosos. E a ação temporal se funde nos fluxos de consciência da protagonista imersa em divagações existenciais.

Nas duas obras de Clarice não há um “antagonista”, um “doador”, “auxiliar” ou “mandante”, conforme constam da teoria proppiana na Morfologia dos contos

maravilhosos. Não há como se delimitar um fio narrativo, tampouco as ações sociais da

personagem, que não trava uma luta com o universo externo; o conflito emerge de suas angústias, das indagações.

Enfim, aventamos, aqui, algumas questões que evidenciam a necessidade de outras abordagens que deem conta dessa nova ótica de se narrar e enredar os seres sitiados em si mesmos e em constantes embates com o Drama da linguagem, como os compreende Gotlib (1990), ao debruçar-se sobre a produção de Clarice Lispector. Os estudos de Segolin, de certa forma, se aproximam desse viés, quando ele se reporta à “anti-personagem”. Esta, por sua vez, destoa da perspectiva teórica de Propp, em termos temáticos, no que se refere ao enredo, às funções e ações, por exemplo.

Nossa perspectiva dos aludidos seres ficcionais não se pauta no binarismo de Segolin nem corresponde às densos personagens claricianas. Também não se restringe às funções delineadas por Propp, embora algumas das funções estudadas por ele nos sirvam de base analítica.

Um estudo histórico e mais introdutório dos sered ficcionais é o de Beth Brait (1990, p. 28) que, logo de início ressalta a importancia de seguirmos “alguns caminhos trilhados pela crítica no sentido de definir seu objeto e buscar o instrumental adequado à análise e à fundamentação dos juízos acerca desse objeto”. Nesse intento a pesquisadora parte de Aristóteles para enfatizar que “não cabe à narrativa poética reproduzir o que existe, mas compor as suas possibilidades”.

Considerando tais possibilidades Brait (1990, p. 12) se atém às “maneiras que o homem inventou para reproduzir e definir suas relações com o mundo”. Uma delas é a fotografia. No entanto realça que nem esta, em sua função documentária, a foto 3/4 ou a artística, quando da busca de “criar uma realidade”, a reproduz com fidedignidade. Ou seja, a fotografia também não deixa de ser uma invenção, uma recriação, a partir de determinados pontos de vista do artista sobre o que é fotografado no espaço social.

Se, no caso da fotografia e da pintura, o artista utiliza-se do jogo de luzes, claro/escuro entre outras técnicas, para “registrar” criativamente a realidade, em se tratando da literatura, é “por meio das palavras” que “o autor vai erigindo os seres que compõem o universo de ficção”, complementa Brait (1990, p. 18).

Enfim, observamos que a polêmica personagem e pessoa permanece atual, o que fica evidente nos estudos de Segolin (1978), Brait (1990) e, muito antes, na Arte Poética de Aristóteles e respectivos seguidores. Logo, seria muita pretensão e/ou ingenuidade tentar demarcar um campo fixo para tal ser ficcional. Afinal, afirma Compagnon (2002, p. 105), “toda época reinterpreta e reintroduz os textos fundamentais à sua maneira”.

Refutar, aqui, a pertinente asserção de Compagnon poderia resultar em uma fracassada proposição, já que ao pensarmos os personagens negros estamos, necessariamente, partindo da relação entre literatura e realidade, mas, no entanto, sem a pretensão de, através deles, retratar uma dada realidade. Buscamos, contudo, entendê- los como recriação, como possíveis caminhos para redimensionar o universo social em suas idiossincrasias e vicissitudes. Para tanto avançaremos, agora, na direção do “entremeio analítico”.