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Perspectivas científicas e funcionalidades do estereótipo

2.3 Humor e estereótipos

2.3.1 Perspectivas científicas e funcionalidades do estereótipo

Etimologicamente, estereótipo origina-se de termos gregos. O primeiro é “stereos” que significa “sólido” e o segundo “týpos” o qual significa “moldes”; ou seja, a própria palavra já carrega consigo uma ideia de referência de algo anterior, pré-determinado, que por sua vez, está solidificado, fixado e tende a sofrer replicação. Ainda na Grécia Antiga, o termo denominava uma placa que uma vez gravada sobre o metal fazia cópias de imagens e de

78 textos. Essa peculiaridade de solidificar-se e de sofrer fácil replicação proporciona aos estereótipos um distanciamento considerável daquilo que é real no âmbito das relações sociais, assumindo nessas relações um caráter pejorativo, falso e nocivo, convertendo-se muitas vezes em rótulos negativos. Entretanto, ao adotar determinado prisma teórico para compreender o conceito de estereótipos, pode-se obter diferentes concepções.

Na Psicologia Social, aborda-se o estudo dos estereótipos dentro do conceito da construção das representações sociais56 que a partir da análise das relações e interações

sociais, propõe os termos maioria e minoria, instaurando as origens do preconceito. Instaura- se nessa visão, que os estereótipos são concepções simbólicas que se solidificam em grupos sociais e interferem nas relações e interações que lá existem, propondo uma organização do tecido social (Lysardo-Dias, 2007, pp. 26-27).

Na Sociologia, refere-se aos estereótipos no conceito de representações coletivas57.

Em estudos, define-se estereótipo a partir de uma imagem mental coletiva. Essa imagem exerce duas funções principais: geradoras de coesão entre os grupos e geradoras de sensação de pertencimento. Portanto, Durkheim tem uma visão mais otimista em relação à segregação dos indivíduos causada pelos estereótipos, porque, uma vez que eles propõem uma homogeneidade nas visões de mundo, também, compõem modelos que integralizam os indivíduos a uma comunidade (Lysardo-Dias, 2007, p.27).

Nas Ciências Sociais, mais especificamente, relaciona-se estereótipos com a formação da opinião pública58. Dois princípios são instaurados para a definição de

estereótipos: a primeira, retrata-os como um paradigma de pensamento para sociedade cujas diferenças são exacerbadas como uma fórmula de ordenamento social; já a outra, de viés extremante político, instaura os estereótipos como um artificio de segregação democrático, a fim de enviesar outros pontos de vistas contrários àquele que é dominante (Lins da Silva, 2014, pp. 443-444).

Na Semântica, o estereótipo vincula-se com a semântica lexical59. Relaciona-se a uma

“ideia convencional” relacionada com uma palavra em uma determinada cultura. O estereótipo serve como componente de um sistema referencial para a memória lexical (Lysardo-Dias, 2006, p.27).

Na Análise do Discurso, associa-se o conceito de estereótipo à noção de pré- construído60. Concebe-se essa ideia a partir de duas premissas: a primeira se concentra na

afirmação discursiva do enunciador, e a segunda, nos elementos discursivos anteriores que caracterizam a afirmação do enunciador. Assim, o estereótipo é dado a partir de um elemento

56 Para ver mais detalhes, ver: Moscovici (1976). 57 Para ver mais detalhes, ver: Durkheim (1996). 58 Para ver mais detalhes, ver: Lippmann (1922). 59 Para ver mais detalhes, ver: Putnam (1975).

79 que agrega e estabelece um espaço de reconhecimento por meio de um referencial notório já concebidos (Lysardo-Dias, 2006, p.27).

Charaudeau (2006, 2011) assim como versa sobre a relação da ironia com o humor, o investigador também aborda a questão dos estereótipos (2007) em seus estudos. Apesar de não relacionar diretamente o conceito de estereótipo com humor, o autor elucida de maneira bem pertinente a relação que os estereótipos têm com os indivíduos num ponto de vista linguístico-discursivo.

Diante dessa perspectiva, o autor define que a noção dos estereótipos

[...] é dependente do julgamento de um sujeito e que esse julgamento seja negativo, ocultando a possibilidade de que o que é dito ainda contenha alguma verdade. Esse mascaramento é ainda mais óbvio quando a caracterização diz respeito a indivíduos ou grupos humanos [...] (Charaudeau, 2007, p. 1)61.

Entretanto, há uma ressalva que pressupõe que o estereótipo é capaz de relatar algo errado e verdadeiro ao mesmo tempo, uma vez que o julgamento do outro pode ser ao mesmo tempo autorrevelador ao afirmar digressivo em relação ao outro, mas da mesma maneira, afirma uma verdade a respeito de quem faz o julgamento (Charaudeau, 2007, p. 1).

Frequentemente, então, as representações intrínsecas nos estereótipos são deferidas de maneira parcial e abrupta desprezando os conflitos e as negociações do cotidiano onde essa atribuição representativa se encontra, sim, em dissidência e em exercício social. Ainda, Charaudeau (2007, p. 2) reforça o viés social que é atribuído à habilidade dos estereótipos em construir ou formatar o significado de determinado objeto na realidade, colaborando para a geração de um imaginário social cujo conhecimento é engendrado mecanicamente na sociedade.

Conforme esse cenário, preconizando no âmbito da Análise do Discurso, Lysardo-Dias (2006, p.28) identifica funções do estereótipo que coexistem. Tais funções são: função interacional, função pragmática, função construtiva, função lúdica e função cognitiva. A interacional compreende o estereótipo como “um instrumento de produção e de recepção de mensagem”, para isso é necessário que haja um “denominador comum” entre os sujeitos. A pragmática prevê que o estereótipo estabeleça normas a partir de valores que uma vez incorporados determinam a realidade e a convivência dos sujeitos. A construtiva infere que as relações e interações sociais dependem de um fator em comum, o qual, por sua vez é dado pelos estereótipos. A lúdica pressupõe que os estereótipos originalmente se localizam num jogo de imagens/textos cujas finalidades são meramente estéticas, podendo reforçar aquilo que é pré-construído ou deslocar-se do pré-construído. E a cognitiva determina que o

61 Texto original: “[...] est dépendante du jugement d’un sujet, et que ce jugement en étant négatif occulte la

possibilité que ce qui est dit renferme malgré tout une part de vérité. Ce masquage est encore plus patent lorsque la caractérisation concerne des individus ou des groupes humains [...]” (Charaudeau, 2007, p. 1).

80 estereotipo é um “esquema organizador” que categoriza os novos conhecimentos dos indivíduos de acordo com a relação que eles detiveram com conhecimentos anteriores.

As funções dos estereótipos serão válidas a partir do momento em que os estereótipos existirem, logo a elaboração dos estereótipos começa com o processo de estereotipia. Vale ressaltar o poder da linguagem nesse processo, uma vez que aquela assume uma função importante. Por meio de uma linguagem é que o processo de estereotipia se materializa numa comunidade, afinal, os estereótipos circulam e podem ser dispersados em qualquer grupo social, portanto o que é imprescindível é o esforço em retomar o sentido pré-construído para modelar o novo conhecimento, tarefa que só é possível graças à linguagem (Lysardo-Dias, 2007, p.28).

O processo de estereotipia inicia com a retomada de modelos culturais já existentes na difusão de novos modelos; os quais, por sua vez, são difundidos por conceitos e generalizações que proporcionam ao indivíduo, membros de uma comunidade, a capacidade de apreender algo sobre a realidade o que lhe torna possível sentir-se pertencentes daquela determinada comunidade, estabelecendo uma homogeneização de perspectivas de mundo. Portanto, a visão homogeneizada propõe a legitimação de certa comunidade, atribuindo imposições de como os indivíduos devem se relacionar. O resultado dessa interação nessa comunidade, cuja apreensão de sentido é homogênea, é a produção de estereótipos (Lysardo-Dias, 2007, p.28).