3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.2 Pesquisa documental e análise de conteúdo
3.2.1 Pesquisa documental
Um dos métodos de investigação disponíveis no âmbito das abordagens quantitativa e qualitativa é a pesquisa documental. Trata-se de uma maneira indireta de se compreender a realidade por meio da análise dos diversos tipos de “materiais de natureza diversa, que ainda não receberam um tratamento analítico, ou que podem ser reexaminados, buscando-se novas e/ou interpretações complementares [...]” (GODOY, 1995, p. 21).
Esses materiais de natureza diversa mencionados acima são os chamados documentos: produções do ser humano; tudo o que indica sua ação e revela suas opiniões, ideias e modo de viver. Podem ser considerados documentos: jornais, revistas, diários, obras literárias, científicas e técnicas, cartas, memorandos, relatórios, estatísticas que produzem um registro de certos aspectos da vida de uma sociedade, sinais, grafismos, imagens, fotografias, filmes, autobiografias e notas de suicídios (GODOY, 1995).
A pesquisa desse tipo de material oferece ao pesquisador uma grande quantidade de informações, ampliando sua compreensão a respeito de determinados objetos em seu contexto histórico e sociocultural (SILVA; ALMEIDA; GUINDANI, 2009), bem como as tendências comportamentais dos fenômenos no decorrer do tempo (GODOY, 1995). Para tanto, a investigação documental exige do pesquisador
[...] uma capacidade reflexiva e criativa não só na forma como compreende o problema, mas nas relações que consegue estabelecer entre este e seu contexto, no modo como elabora suas conclusões e como as comunica (SILVA et al., 2009, p. 4556)
O pesquisador deve tratar os dados de tal modo que estes venham a ter um significado relevante em relação aos objetivos da pesquisa. Ele precisa estar atento para que durante a
investigação possa retirar do texto o ponto de vista do autor e não o seu próprio, comprometendo assim a validade de seu estudo (SILVA et al., 2009). Convém ainda
[...] lembrar que algumas pesquisas elaboradas com base em documentos são importantes não porque respondem definitivamente a um problema, mas porque proporcionam melhor visão desse problema ou, então, hipóteses que conduzem a sua verificação por outros meios (GIL, 2012, p. 6).
3.2.2 Análise de Conteúdo
Uma das metodologias que podem ser utilizadas na interpretação de documentos é a análise de conteúdo, cujo ponto de partida é sempre “a mensagem, seja ela verbal (oral ou escrita), gestual, silenciosa, figurativa, documental ou diretamente provocada” (FRANCO, 2012, p. 12). No entender de Bardin (2011, p. 37),
A análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações. Não se trata de um instrumento, mas de um leque de apetrechos; ou, com maior rigor, será um único instrumento, mas marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a um campo de aplicação muito vasto: as comunicações.
De modo semelhante, Godoy (1995, p.23) percebe a análise de conteúdo como sendo um “instrumental metodológico que se pode aplicar a discursos diversos e a todas as formas de comunicação”. Embora se mostre abrangente, é em sua função heurística que a análise de conteúdo se adequa melhor às características dos trabalhos qualitativos, já que “[...] enriquece a tentativa exploratória, aumenta a propensão para a descoberta. É a análise de conteúdo ‘para ver o que dá’”. (BARDIN, 2011, p.35).
Embora a declaração de Bardin possa causar algum desconforto, segundo Franco (2012, p. 37),
O alcance da análise de conteúdo está também vinculado à função de um classificador. E sua classificação é uma classificação lógica dos conteúdos manifestos, após a análise e interpretação dos valores semânticos desses mesmos conteúdos. De uma ou de outra maneira, o analista se vale de definições e definições são problemas de lógica.
A análise de conteúdo e a pesquisa documental estão intimamente associadas, chegando ao ponto de, em algum momento, se confundirem. Diz Bardin (2011, p. 51) em relação à análise de conteúdo: “[...] se limitarmos as suas possibilidades técnicas apenas à análise categorial ou temática, podemos, efetivamente, identificá-la como análise documental”. De acordo com
Franco (2012), essa metodologia foi primeiramente utilizada na crítica de jornais, livros, documentos oficiais e documentos pessoais, que caracterizam dados típicos de uma análise documental.
O tipo de análise de conteúdo mais antigo e também mais utilizado é a chamada análise categorial. Em sua obra, Franco (2012) apresenta três métodos (ou campos) pertinentes a esse tipo de crítica: 1) Métodos Lógico-Estéticos e Formais, que estão mais próximos à linguística tradicional; 2) Métodos Lógico-Semânticos, em uma posição intermediária; 3) Métodos Semânticos e Semântico-Estruturais, que fazem fronteira com a Hermenêutica, sendo considerados pela autora como “puramente semânticos”. Os métodos Lógico-Semânticos, pertencentes ao campo intermediário, dos quais esta pesquisa faz uso,
Aplicam-se às mais variadas modalidades de textos, após o index dos diversos conceitos utilizados (sua enumeração simples e seus desdobramentos) e a classificação dos elementos de informação (reagrupamento por categorias) –, desde a pesquisa, acerca das formas utilizadas para a apresentação dos dados, até a análise e interpretação das tendências, comparações e evolução das tendências explicitadas (FRANCO, 2012, p. 37-38).
A análise e o reagrupamento dos dados são feitos primeiramente pela identificação, por parte do pesquisador, de categorias presentes nos textos, para em seguida agrupá-las com base no que elas têm em comum (CAREGNATO; MUTTI, 2006). Essa categorização pode ser feita por meio de dois processos inversos. No método por “caixas”, o pesquisador fornece o sistema de categorias e, a partir daí, à medida que encontra os elementos pertinentes à sua investigação, aloca cada um deles em sua respectiva “caixa”. Já no procedimento por “acervo”, as categorias se estruturam de acordo com a classificação “analógica e progressiva dos elementos [...] O título conceitual de cada categoria somente é definido no final da operação” (BARDIN, 2011, p. 149).
Das técnicas mencionadas acima, na segunda, as categorias surgem das constantes comparações, feitas pelo pesquisador, entre o conteúdo manifesto e a teoria estabelecida. Como resultado inicial, surgem as primeiras descrições do significado e do sentido dado pelos autores do material que está em análise – as categorias. A partir daí:
Prossegue-se com a classificação das convergências e respectivas divergências. Feito isto [...] começa-se a criar um código para a leitura (sempre aberto a novas categorias) [...] As categorias vão sendo criadas à medida que surgem [...] para depois serem interpretadas à luz das teorias explicativas. (FRANCO, 2012, p. 65-66).
Quanto ao procedimento por “caixas”, mencionado por Bardin (2011), este é denominado por Franco (2012, p. 64) de “categorias criadas a priori. Neste caso, as categorias e seus respectivos indicadores são predeterminados em função da busca a uma resposta específica do investigador”. Este foi o procedimento utilizado nesta pesquisa na intenção de verificar se a produção científica das universidades do Grande ABC, por meio dos temas apresentados pelas teses e dissertações publicadas no período de 2011 a 2014, atendiam às recomendações e às expectativas apresentadas pelo PNPG 2011-2020. Para tanto, foram definidas como indicativas dessa postura duas categorias a priori, retiradas do próprio texto do respectivo PNPG: 1) Setor empresarial/elementos extra-acadêmicos; 2) Interdisciplinaridade. Os componentes estruturantes dessas categorias estão descritos nos parágrafos seguintes.
Os elementos constituintes das categorias são as chamadas unidades de registro e unidades de contexto. Segundo Franco (2012), as unidades de registro se caracterizam por serem a menor parte do conteúdo para análise. Podem ser de vários tipos, estão inter- relacionadas, são complementares e devem estar adaptadas à investigação que se está fazendo. Bardin (2011) menciona seis diferentes tipos de unidades de registro: a palavra, o tema, o objeto (ou referente), o personagem, o acontecimento e o documento. Segundo a autora, a unidade de registro passa a existir no ponto de encontro entre as unidades perceptíveis (a palavra, a frase, o documento material, o personagem físico) e as unidades semânticas (temas, acontecimentos e indivíduos).
Esses elementos, no entanto, não devem ser utilizados de modo exclusivo, no qual faz- se uso de uma postura rígida do tipo “ou esse ou aquele”. É bom compreender que
Não existe nenhuma razão plausível para endossar que um estudo particular se utilize apenas de um tipo de unidade de registro. Ao contrário, elas podem e devem ser combinadas compartilhadas e inter-relacionadas para garantir a possibilidade de realização de análises e interpretações mais amplas e que levem em conta as variadas instâncias de sentido e de significados implícitos nas comunicações orais, escritas ou simbólicas (FRANCO, 2012, p. 48-49). Nesta pesquisa, foram utilizados dois tipos de unidades de registro a fim de analisar e categorizar os dados de modo que possam ser interpretados:
1) O tema - é uma afirmação ou alusão acerca de um assunto, seu valor é psicológico e não linguístico, sua significação é retirada naturalmente do texto analisado de acordo com os critérios estabelecidos pela fundamentação teórica adotada. “Enfim, qualquer fragmento pode
remeter (e remete geralmente) para diversos temas” (D’UNRUG, 1974 apud BARDIN, 2011, p. 135).
O tema pode ser definido como sendo uma afirmação sobre determinado assunto. Pode ser uma simples sentença (sujeito e predicado), um conjunto delas ou um parágrafo [...] O Tema é considerado como a mais útil unidade de registro, em análise de conteúdo. Indispensável em estudos sobre propaganda, representações sociais, opiniões, expectativas, valores, conceitos, atitudes e crenças (FRANCO, 2012, p. 44).
Nesta investigação, foram utilizadas as seguintes alusões como unidades de registro temáticas, a fim de fornecer a referência para o agrupamento dos dados na categoria Setor empresarial/elementos extra-acadêmicos: liderança, trabalho compartilhado, gestão de equipes multidisciplinares, gestão de relacionamentos interpessoais, resultados, gestão de diferentes áreas do conhecimento, redes multiprofissionais, soluções aprendidas na prática, compartilhamento de informações e inovação.
Para a composição da categoria Interdisciplinaridade, os temas utilizados foram: visão totalizadora da realidade, preocupação humanista, dialética (problematização da situação e a sistematização dos conhecimentos por meio da integração das ciências e da parte com o todo), construção do conhecimento com base na relação do pesquisador com o seu contexto, sua realidade e sua cultura, trocas entre especialistas, integração das disciplinas no interior de um mesmo projeto e transferência de conceitos, problemas e métodos.
2) Os objetos (referentes ou ainda itens) – são os temas-eixo ao redor dos quais o discurso se organiza. O texto é recortado sob a orientação desses temas e o pesquisador reúne ao redor deles o que o autor, cujo conteúdo emitido está em análise, diz a seu respeito (BANDIN, 2012). Essa unidade de registro é especialmente útil quando combinada com outras categorias complementares, e deve ser utilizada quando
Um texto, um artigo literário, um livro, ou um programa de rádio são caracterizados a partir de alguns atributos definidores. Por exemplo: “que assunto é privilegiado no livro? ” “do que se trata? ” economia doméstica? turismo? educação? trabalho? drogas? E assim por diante (FRANCO, 2012, p. 47).
Os objetos (referentes ou itens) – combinados com os temas mencionados acima – utilizados como indicadores para a formação da categoria Interdisciplinaridade, foram: juventude urbana, envelhecimento, violência, clima, manipulação genética, educação, urbanismo, administração e problemas sociais.
Podemos dizer que a descoberta precisa do significado de uma unidade de registro, depende da compreensão de sua unidade de contexto. “Esta pode, por exemplo, ser a frase para a palavra e o parágrafo para o tema” (BARDIN, 2011, p. 137). As unidades de contexto formam o “pano de fundo” sobre o qual as unidades de registro ganham sentido e
Podem ser obtidas, mediante o recurso a dados que explicitem: a caracterização dos informantes; suas condições de subsistência; a especificidade de suas inserções em grupos sociais diversificados, seja na família de origem, no mercado de trabalho, em instituições consagradas e reconhecidas, sejam elas religiosas, beneméritas, concebidas para divulgação de programas voltados ao apoio pessoal, ligadas a organismos do sistema nacional ou direcionadas para o intercâmbio a ser efetuado junto a organismos internacionais, e assim por diante (FRANCO, 2012, p. 49).
No caso deste estudo, as unidades de contexto, utilizadas para dar suporte às unidades de registro encontradas nos textos das teses e dissertações analisadas, são os programas de pós- graduação de ciências sociais aplicadas das Universidades do Grande ABC.
A categorização, a definição de unidades de registro e unidades de contexto e a posterior análise e interpretação dos dados definidos nesses recortes, atividades próprias da análise de conteúdo, foram levadas a efeito a partir da perspectiva do pesquisador, apoiado pela teoria utilizada. Mas vale lembrar que em relação à análise de conteúdo:
Esta metodologia de análise de dados está atingindo novas e mais desafiadoras possibilidades na medida em que se integra cada vez mais na exploração qualitativa de mensagens e informações [...] utilizando especialmente a indução e a intuição como estratégias para atingir níveis de compreensão mais aprofundados dos fenômenos que se propõe a investigar (MORAES, 1999, p.1- 2)
O conhecimento e o uso da análise de conteúdo não são apenas possíveis em posturas metodológicas críticas, mas também são necessários em quaisquer abordagens “epistemologicamente apoiadas numa concepção de ciência que reconhece o papel ativo do sujeito na produção do conhecimento” (FRANCO, 2012, p. 10), sem dispensar a qualidade e a sistematização.