Seu olhar vagueia e esquadrinha os espaços e o que ele observa pode ser, em muitos aspectos, bastante
4.3. As etapas de constituição dos corpora
4.3.1. Pesquisa documental e entrevistas exploratórias
Para a seleção dos documentos que fizeram parte do Corpus I, inicialmente, visitamos os sites dos órgãos oficiais de Educação do Estado de Pernambuco (Secretaria Estadual de Educação), do Município de Recife (Secretaria Municipal de Educação) e do Governo Federal (Ministério da Educação) com a intenção de ter uma visão geral destas instituições, seus departamentos e identificar que setor/área é responsável por produzir e veicular os discursos sobre diversidade sexual; se trabalham em parcerias com outros órgãos, instituições ou ONGs; que materiais e documentos têm produzido.
Ao visitar o site do MEC95 verificamos que a “Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade - SECAD” havia formado um grupo de trabalho para debater e implementar o Programa “Brasil Sem Homofobia” na área educacional e que programas de formação de professores na área de gênero e diversidade sexual estavam em desenvolvimento em alguns municípios do país com o apoio financeiro do Governo Federal96. Além disso, a referida página citava a existência de
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O site do MEC pode ser acessado através do endereço eletrônico: http://portal.mec.gov.br
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Um desses programas, por exemplo, chama-se “Gênero e Diversidade na Escola”. Teve como objetivo capacitar 1.200 professores/as de 5ª a 8ª série do ensino fundamental de escolas públicas de Salvador (BA), Dourados (MS), Porto Velho (RO), Maringá (PR), Niterói (RJ) e Nova Iguaçu (RJ). Contou com a parceria do MEC, Conselho Britânico no Brasil e das secretarias de educação dos respectivos municípios e estados.
editais para fomentação de cursos de formação de professores neste campo.
A partir dessas informações iniciais, fizemos contato telefônico com um representante da referida secretaria solicitando documentos e materiais sobre estes programas, especialmente, sobre ações realizadas em Recife. No mesmo dia, a pessoa enviou por e-mail três documentos:
•••• Cadernos SECAD 4: publicação que engloba informações sobre os programas, projetos e atividades da SECAD a partir de julho de 2004, quando foi criada.
•••• Revista “Diferentes Diferenças - educação de qualidade para todos”: publicação da SECAD, com diversos artigos sobre as políticas educacionais inclusivas da secretaria.
•••• Programa do evento “Diferentes diferenças: caminhos de uma educação de qualidade para todos”: encontro realizado em Brasília, em dezembro de 2006, com o objetivo de disseminar a agenda de políticas públicas da SECAD.
No site da Secretaria de Educação de Pernambuco não havia referência direta a qualquer gerência ou departamento responsável pelo desenvolvimento de políticas educacionais relacionadas à diversidade sexual ou à questão da homofobia na escola. No entanto, utilizando a ferramenta de busca, encontramos algumas notícias publicadas pela Assessoria de Imprensa que faziam referência a ações nessa área desenvolvidas pela “Gerência de Políticas de Educação em Direitos Humanos, Diversidade e Cidadania – GEDH”. A partir desses dados, fizemos contato telefônico com a GEDH e agendamos uma entrevista com um representante da mesma.
A entrevista foi realizada na Sede da Secretaria de Educação de Pernambuco – SEDUC/PE. Enquanto aguardava na sala de espera, percebemos um cartaz divulgando o “Curso de Formação em Gênero e Diversidade na Rede Pública de Ensino Médio e Fundamental”. Durante o encontro, o entrevistado informou que este evento estava sendo oferecido pelo Núcleo de Família, Gênero e Diversidade – FAGES/UFPE e que contava com a participação de vários/as professores/as da rede estadual de ensino. Mas enfatizou que o primeiro seminário de formação de
educadores/as da Secretaria focando a temática da escola sem homofobia tinha sido realizado em julho de 2008 em parceria com a ONG “Movimento Gay Leões do Norte”. Esse evento faz parte do Projeto “Trabalhar as Diferenças é Promover a Educação” desenvolvido pela ONG, com o apoio da Secretaria Especial de Direitos Humanos – SEDH. De acordo com o entrevistado, a formação envolveu 200 professores/as de vários municípios de Pernambuco. A Secretaria de Educação de Pernambuco, através da GEDH, forneceu apoio logístico – inclusive a hospedagem dos participantes – para realização do encontro, mas a programação, o material didático e os/as formadores/as foram definidos pela ONG. Também informou que não havia documentos e/ou materiais específicos sobre diversidade sexual e/ou homofobia na escola elaborados ou distribuídos pela Secretaria de Educação de Pernambuco. Logo em seguida, fizemos contato telefônico com o Movimento Gay Leões do Norte e com o FAGES/UFPE e marcamos uma entrevista com representantes dos respectivos projetos.
No FAGES/UFPE, entrevistamos uma das integrantes da coordenação do projeto “Curso de Formação em Gênero e Diversidade na Rede Pública de Ensino Médio e Fundamental”, que nos deu uma pasta com vários materiais fornecidos aos professores no início do curso: folder e cartaz de divulgação; programa do curso; apostilas dos módulos; um livro chamado Respeitando as Diferenças no Espaço Escolar, da ONG “Gestos”, a cartilha “A diversidade é legal! Educação e saúde sem preconceito” e vídeo “Medo de que?”, ambos do Instituto Papai. Ao longo do encontro, a entrevistada disse que o curso envolveu 180 educadores/as – professores/as e gestores/as – tanto da rede de ensino da Prefeitura da Cidade do Recife, quanto do Estado de Pernambuco (englobando apenas professores de Recife e Caruaru). Perguntamos se ela poderia nos fornecer a lista dos/as cursistas para fazermos contato com os/as mesmos/as e convidá-los/as para uma entrevista e a mesma nos enviou por e-mail.
Na ONG “Movimento Gay Leões do Norte”, entrevistamos uma das participantes da coordenação do Projeto “Trabalhar as Diferenças é Promover a Educação”. No início do encontro, a entrevistada também entregou uma pasta contendo o programa do seminário realizado com os professores da Rede Estadual de Ensino, uma versão impressa do
Programa “Brasil Sem Homofobia” e cópias de alguns textos fornecidos aos cursistas. Explicou que o Projeto está ligado ao Programa Brasil sem Homofobia e que a ONG é um Centro de Referência contra a Homofobia do referido programa. O projeto é financiado pela Secretaria Especial de Direitos Humano – SEDH do Governo Federal, tem parceria com a Secretaria de Educação de Pernambuco, através da GEDH, e com o Núcleo de Cidadania Homossexual – NUCH97, da UFPE. Informou que a primeira ação foi a realização do Seminário – que tem o mesmo nome do projeto – e que o mesmo envolveu a participação de 200 professores/as da rede estadual de ensino e foi realizado em julho de 2008, num Hotel, em Boa Viagem, Recife. Perguntamos se ela poderia nos fornecer a lista dos/as cursistas e a mesma nos enviou por e-mail, alguns dias após o nosso encontro.
No site da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer da Cidade do Recife – SEEL/PCR não encontramos qualquer link que se referisse a algum órgão/departamento responsável por trabalhar a questão da sexualidade e/ou da diversidade sexual na escola. No entanto, ao utilizarmos a ferramenta de busca, localizamos notícias divulgadas pela assessoria de imprensa sobre ações nesta área coordenadas pela Gerência de Livre Orientação Sexual (GLOS/PCR), pelo Grupo de Trabalho de Orientação Sexual (GTOS), pelo FAGES/UFPE e pelas organizações não- governamentais: Instituto Papai e Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero. Fizemos contato com todos e agendamos uma entrevista com um/a de seus/suas representantes.
O integrante da GLOS/PCR informou que em virtude de denúncias sobre casos de homofobia na escola, a gerência em parceria com o GTOS (da Secretaria de Educação, Esportes e Lazer) tem desenvolvido algumas atividades nas escolas e seminários com docentes com o objetivo de discutir a temática. Também relatou que o grupo Divas98, há dois anos, desenvolveu
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O NUCH/UFPE também é um órgão ligado ao Programa Brasil Sem Homofobia da SEDH, da Presidência da República.
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O “Divas – Instituto em defesa da diversidade afetivo-sexual” é uma entidade civil de direito privado, sem fins lucrativos, fundada em Recife no ano de 2003 que, segundo informações disponíveis em seu site (http://www.comuniles.org.br//index.php?option=com_content&task=view&id=18&Itemid=27) tem como missão “Contribuir para proteção, promoção, informação, mobilização, organização, representação e defesa da emancipação política e afetivo-sexual das mulheres lésbicas e bissexuais”. Apesar de ter realizado diversas ações nesta área, segundo os/as entrevistados/as da pesquisa, atualmente, o grupo está desarticulado. Tentamos fazer contato com uma de suas fundadoas, mas não tivemos sucesso.
um trabalho de discussão do tema diversidade sexual com alunos/as de algumas escolas municipais, através da exposição de filmes e oficinas. Disse que não há documentos elaborados pela Prefeitura nesta área, que quando precisam usar qualquer material recorrem aqueles publicados por ONGs, como a cartilha do Instituto Papai e os materiais da CORSA99.
Após o cumprimento de algumas exigências burocráticas da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer da Prefeitura do Recife, conseguimos agendar a entrevista com uma integrante do GTOS. A mesma nos disse que o GTOS foi fundado há 12 anos, que a equipe, atualmente, é formada por três pessoas e que a proposta é trabalhar com temáticas relacionadas à sexualidade humana: gênero, homossexualidade, orientação sexual, reprodução, virgindade, primeira vez, DST/AIDS. Trabalham em função de solicitações que as escolas fazem através de ofício e, também, com um programa desenvolvido pelos Ministérios da Saúde e da Educação, chamado “Saúde e Prevenção nas Escolas”, voltado para a prevenção de DST/AIDS. Da mesma forma que o representante da GLOS/PCR, fez referência às apresentações teatrais sobre diversidade sexual – trabalho desenvolvido pelo instituto “DIVAS” em parceria com a ONG “Loucas de Pedra Lilás”100 – realizadas em várias escolas de 3º e 4º ciclos. Relatou, igualmente, um trabalho de formação de professores desenvolvido em parceria com a “Gestos – soropositividade, comunicação e gênero” e a Coordenadoria da Mulher/PCR, que segundo ela envolveu a realização de seminários e resultou na publicação do livro “Respeitando as Diferenças no Espaço Escolar”. Ainda fez referência ao “Curso de Formação em Gênero e Diversidade na Rede Pública de Ensino Médio e Fundamental” desenvolvido pelo FAGES/UFPE. Mencionou, também, o projeto desenvolvido pela Coordenadoria da Mulher/PCR intitulado “Protagonismo Juvenil: Gênero e Sexualidade”, que envolveu a participação das ONGs “Instituto Papai” e “Leões do Norte”. Com exceção do livro publicado em parceria com a Gestos
99 “CORSA – cidadania, orgulho, respeito, solidariedade e amor” é uma ONG, sediada em São Paulo que trabalha
com projetos na área de prevenção DST/AIDS e formação docente continuada sobre diversidade sexual na escola. Também desenvolve atividades voltadas para famílias homoafetivas. Maiores detalhes podem ser encontrados no site: http://corsa.wikidot.com/.
100
“Loucas de Pedra Lilás” é uma organização não-governamental formada por mulheres, que prove debates e reflexões, através de teatro, sobre temáticas relacionadas a educação sexual, reprodutiva, prevenção e combate à violência, racismo, fundamentalismo. Mais detalhes sobre o trabalho deste grupo podem ser verificados no site: http://www.loucas.org.br/.
e a Coordenadoria da Mulher, não havia outros materiais ou documentos na área.
Durante a entrevista com o representante da “Gestos – soropositividade, comunicação e gênero”, ele informou os objetivos da ONG e descreveu como ocorreu o projeto de formação continuada de professores/as da rede municipal de Recife, intitulado “Educação não- sexista, anti-racista e não-homofóbica”. Indicou a leitura do livro “Respeitando as diferenças no espaço escolar” – coletânea de trabalhos dos/as professores/as que participaram da referida formação. Ressaltou, também, a importância das parcerias estabelecidas na época com o “DIVAS”, o “DJUMBAI”101, “Coletivo Mulher Vida”102, “Save the Children”103, a Coordenadoria da Mulher e o GTOS/SEEL-PCR.
No encontro com o representante do Instituto Papai, nos foi dado uma pasta contendo folhetos sobre a ONG e suas campanhas, a cartilha “A diversidade é legal” e uma cópia da programação de um dos módulos do Curso de Extensão “A diversidade é legal” desenvolvido com profissionais da saúde e da educação do município de Recife. Também foi fornecida uma cópia de dois vídeos “Minha vida de João” e “Medo de que?”. O entrevistado falou que o curso de extensão foi desenvolvido em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Gênero e Masculinidades - GEMA/UFPE, envolveu cerca de 40 professores/as, foi executado em três módulos, sendo que último ocorreu em março de 2008. Disse que atualmente não há projetos na área de educação sendo desenvolvidos.
Após a realização das entrevistas exploratórias e uma análise preliminar dos diversos documentos e materiais recebidos, nós delimitamos os corpora I e II da seguinte forma:
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Organização não-governamental que trabalha com questões raciais.
102
O “Coletivo Mulher Vida” é uma ONG sediada em Olinda, que trabalha com políticas de prevenção e combate à violência doméstica, sexual e sexista. Endereço eletrônico: www.coletivomulhervida.org.br
103 Organização internacional que financia projetos, em diversos países, na área de educação, saúde e assistência
Quadro I – Esboço dos corpora I e II.
CORPUS I CORPUS II
Fragmentos textuais da Revista “Diferentes Diferenças” e do “Cadernos SECAD 4”.
Folder e Programa do Seminário “Trabalhar as diferenças é promover a educação”.
Folder do “Curso de formação em gênero e diversidade na rede pública de ensino médio e fundamental”.
Fragmentos textuais do livro “Respeitando as diferenças no Espaço Escolar”
Fragmentos textuais da cartilha “A diversidade é Legal”.
Fragmentos textuais do Projeto “Saúde e Prevenção nas escolas – atitudes para curtir a vida”
Fragmentos das transcrições das entrevistas com representante da GEDH/SE-PE; do GTOS/SEEL-PE e das ONGs “Leões do Norte” e “Gestos”.
Privilegiamos para constituição dos corpora materiais veiculados nos cursos/seminários de formação continuada uma vez que o objetivo geral deste trabalho é compreender como o discurso pela diversidade sexual produzido pelos órgãos oficiais de educação são (re)articulados e (re)significados pelos(as) profissionais da rede pública de ensino em Recife.