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PLANO SETORIAL DE DRENAGEM CONCEITOS E APLICAÇÃO

No documento Temas emergentes do planejamento urbano (páginas 87-90)

PARA A RENATURALIZAÇÃO DOS RIOS DE NITERÓI Werther Holzer l 31 ; Eloisa Carvalho de Araujo

PLANO SETORIAL DE DRENAGEM CONCEITOS E APLICAÇÃO

A pesquisa que apresentamos acima propicia um exercício acadêmico sobre importância de os municípios, principalmente os com alta taxa de urbanização, elaborarem Planos Setoriais de Drenagem para além da resolução técnica do problema de “escoar a água precipitada o mais rápido possível”, conforme a crítica de Tucci (2003, p. 36) quando se refere às medidas “clássicas” de controle da drenagem urbana. As consequências da adoção dessas soluções, como aponta o autor, são o aumento das inundações à jusante devido às canalizações e os altos custos de implantação incrementados pelos prejuízos causados pelos transbordamentos.

Ainda que seja um exercício acadêmico, não se pretende que se detenha apenas em uma discussão teórica, mas que simule uma situação prática de aplicação. Desse modo, foi escolhido o município de Niterói como estudo de caso e como exemplo para a simulação de um Plano Setorial de Drenagem.

O que orienta a elaboração deste Plano é o Estatuto da Cidade (Lei Federal 10.257/2001) que, ao oferecer diretrizes gerais para fixação da Política Urbana, prevê em seu art. 4º, entre seus instrumentos, a elaboração de “planos, programas e projetos setoriais”.

O Plano Diretor de Niterói (Lei Municipal 3.385/2019), em seu art. 4º, prevê a elaboração de Planos Setoriais de Políticas Urbano-Ambientais como norma complementar. Esta mesma lei, em seu art. 137, determina a elaboração do “Plano Diretor de Manejo das Águas Pluviais e Drenagem Urbana e da Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos e Líquidos, no prazo de 03

anos, contados do início da vigência desta lei”. Dentre os objetivos, estabelecidos em seu art. 138, destacam-se os incisos:

I articular e integrar as políticas, programas, projetos e ações governamentais relacionadas com o saneamento, saúde, recursos hídricos, biodiversidade, desenvolvimento urbano e rural, habitação, uso e ocupação do solo; [...]; III estabelecer ações preventivas para a gestão dos recursos hídricos; [...] V definir parâmetros de qualidade de vida da população a partir de indicadores sanitários, epidemiológicos e ambientais que deverão nortear as ações relativas ao saneamento; [...] XI estimular o desenvolvimento e aperfeiçoamento de equipamentos e métodos economizadores e reutilizadores de água; XII adotar a bacia hidrográfica como unidade de referência para o planejamento de suas ações.

Esses objetivos, que orientam a proposta de Plano Setorial aqui apresentada, são detalhados pelos arts. 151, 152 e 153 da mesma lei que dispõe sobre o sistema de drenagem e que será abordado ao longo do texto.

Na ausência de uma definição jurídica de Plano Setorial na Lei Federal 10.257/2001 ou na Lei Municipal 3.385/2019, optamos por orientar este Plano pelo que está determinado na Lei Municipal 14.771/2015, de Curitiba, em seu art. 4º, § 2º, inciso II: “Planos Setoriais são entendidos como atos administrativos que trazem os projetos e ações a serem implementadas pelo Poder Público Municipal, considerando os princípios, diretrizes e objetivos previstos no Plano Diretor”.

A articulação entre Planos Diretores e Planos de Bacia Hidrográfica à luz da Lei Federal 9.433/1997 que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, visando à implementação de políticas públicas integradas, é orientada por dois artigos de Peres e Silva (2010, 2013) que analisam teoricamente e, a partir de estudos de caso, as possibilidades e as limitações desta integração.

O que se pretende com a elaboração de um Plano Setorial de Drenagem é exatamente integrar e compatibilizar as determinações referentes ao uso do solo com a gestão dos “recursos hídricos”, ou seja, dos rios e de outras linhas de drenagem, concordando com Peres e Silva (2010), de que este instrumento pode ser relevante para a mitigação de conflitos em relação à gestão das bacias hidrográficas.

Nesse mesmo texto, Peres e Silva (2010) enfatizam que a principal causa deste conflito se deve à escala de abrangência diversa do Plano de Bacias

Hidrográficas, que tem caráter regional, e o Plano Diretor, que tem caráter municipal.

No caso específico de Niterói, este conflito é parcial, pois uma parcela considerável do município está assentada sobre pequenas bacias de abrangência local, todas com características predominantemente urbanas e muitas delas em área densamente urbanizadas.

De qualquer modo o conflito pode ser observado, pois o município está situado na área de abrangência do Comitê da Região Hidrográfica da Baía de Guanabara e dos Sistemas Lagunares de Maricá e Jacarepaguá, parte no Subcomitê Baía de Guanabara – trecho leste, que abrange diversos municípios, parte no Subcomitê Sistema lagunar Itaipu-Piratininga, de abrangência municipal (INEA, 2020).

Como se trata de município com alta taxa de urbanização, o Plano Setorial de Drenagem aqui apresentado tem como parâmetro as observações e recomendações de Tucci (2002) para a mitigação e remediação dos impactos devidos ao escoamento pluvial, seja pelas inundações de áreas ribeirinhas, causadas pela ocupação do leito maior do rio, seja pelas inundações devidas diretamente à urbanização.

As medidas que são apresentadas a seguir para o enfrentamento desses impactos preconizam preferencialmente a renaturalização dos rios e a implantação de infraestrutura verde e azul.

Os autores deste texto se posicionam de modo crítico com relação às soluções tradicionalmente aplicadas pela engenharia, também enumeradas por Tucci (2002, p. 9-10), devidas principalmente à falta de uma política de estado para a implantação da infraestrutura urbana e por projetos e obras com dimensionamento inadequado, seja pela insuficiência de dados estatísticos sobre pluviosidade, vazão, coeficientes de escoamento, dentre outros, seja pela falta de indicadores de qualidade ambiental urbana. No que tange às inundações de áreas ribeirinhas, a ausência de medidas não estruturais sustentáveis que envolvam restrições à população (TUCCI, 2002, p. 9) seja no uso ou na ocupação do solo.

Assim sendo, a proposição do Plano de Drenagem sustentável para o município de Niterói seguirá, em linhas gerais, as seguintes recomendações:

(a) os novos desenvolvimentos não podem aumentar a vazão máxima de jusante; (b) o planejamento e controle dos impactos existentes devem ser elaborados considerando a bacia como um todo; (c) o horizonte de planejamento deve ser integrado ao Plano Diretor da cidade; (d) o controle dos efluentes deve ser avaliado de forma integrada com o esgotamento sanitário e os resíduos sólidos. (TUCCI, 2003, p. 37).

Esse posicionamento crítico recorre primeiramente à história do lugar, principalmente neste caso específico, para as relações entre a cidade e os rios, para as teorias subjacentes ao processo de urbanização e as relações estabelecidas com as diversas camadas da paisagem, e para a percepção que, em diversos momentos históricos, a população e os usuários têm para com os cursos d’água e as linhas de drenagem.

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DO LUGAR PARA A ELABORAÇÃO DE PLANO

No documento Temas emergentes do planejamento urbano (páginas 87-90)