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Planos de fundo, plano de destaque e perspectiva

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3. CAPÍTULO I O Oriente e o Ocidente

3.5 Planos de fundo, plano de destaque e perspectiva

No contexto de pensamento oriental os objetos são interpretados na perspectiva de seu campo, ou seja, é visto dentro da totalidade da cena. Já o pensamento ocidental foca a atenção no objeto de destaque de uma cena desconsiderando o contexto em sua volta.

Para a cultura ocidental, ver é crer. Neste sentido a perspectiva dos objetos visa retratar o mundo da maneira mais exata que o olho humano pode captar. Dai vem o esforço de construir uma perspectiva tridimensional num plano bidimensional. Com esta perspectiva o espaço torna-se um espaço objetivo e mensurável onde o observador é o centro e o objeto é retratado a partir deste ponto de vista. Sendo o sujeito o centro da percepção, ele retrata a realidade a partir de si como se os objetos viessem em sua direção, porém, deste modo, não consegue ver a si mesmo na relação com os objetos de sua observação, apenas os objetos, os fenômenos e os outros, mas não sua participação. A visão é fixa num determinado ponto de vista. Trata-se de uma visão em primeira pessoa.

Assim o ocidental tende a retratar a realidade numa visão de primeira pessoa através de uma linguagem focada nos substantivos.

Na interpretação da realidade dos objetos na perspectiva oriental parece ser natural que você a veja do lado de fora. Os desenhos asiáticos buscam contextualizar os fenômenos e objetos não na perspectiva do observador, mas a partir do ponto de vista de quem está de fora. A perspectiva é vista do alto para retratar toda a informação do campo inclusive a si mesmo. A visão de campo onde tudo está conectado é uma visão de terceira pessoa seguida de uma linguagem focada no verbo, nas ações e interações.

Para o oriental o conceito de perspectiva dos objetos funciona de maneira oposta. É definida retroprespectiva.

Tais diferenças podem ser vista nos retratos. No oriental em geral são de corpo todo e no ocidental são retratos de rostos ou bustos.

As paisagens também são retratadas em diferentes perspectivas14. No oriental são vistas do alto como se o pintor estivesse voando e no ocidental e retratada a partir do ponto de vista do observador.

Figura 4 - Rice Cultivation in the Four Seasons. Attributed to Kano Motonobu (1476-1559) Muromachi period (1392-1573), 16th century Pair of six-panel screens: ink, color, paper 158 cm x 365 cm John C. Weber Collection http://www.artnet.com/Magazine/reviews/stern2/stern3-

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É possível aprofundar o conhecimento sobre o pensamento japonês na arte e em outras formas de expressão na série de programas produzidos pela da NHK disponível, com áudio em espanho,l com o título Japon, el espiritu y la forma.

O ocidental tende a ver o mundo por categorias a que os objetos pertencem tratando de classificá-los e interpretá-los através da análise, ou seja, o método analítico.

Na perspectiva ocidental o mundo é um agrupamento de indivíduos separados e desconectados. Os seres individuais precisam ser colocados em ordem, distribuídos em categorias de classificação a partir das características que possuem. Dai surge o modelo científico característico do ocidente. O pensamento analítico proveniente do pensamento grego que sugere que a beleza dos objetos está na correta proporção entre as partes denominada razão de ouro.

No pensamento oriental os objetos não existem isoladamente, eles são interdependentes. Esse modo de pensar é retratado pela rede de indra, forma de pensamento que marca o contraponto de sceadan, uma grande rede que cobre o espaço. Esta metáfora sugere que tudo no espaço é parte de uma rede. A rede de indra é como de fosse uma série de bolhas transparentes interconectadas onde cada uma das bolhas representa um objeto ou individuo. Cada uma das bolhas reflete a imagem das outras bolhas. A imagem refletida nas bolhas significa ser visto, surgir, aparecer. Assim, no pensamento oriental, ver é uma ação que vem dos objetos, ou seja, não é o observador que vê e sim os objetos que surgem. Em muitos casos o objeto é o centro e não o sujeito da observação. Já no pensamento ocidental ver é do ponto de vista do observador.

Figura 5 - Hua-Yen Buddhism`s15' image of universal interconnection in the Net of Indra

http://www.wisdomportal.com/Poems2010/Notes-UniverseStories.html

Desta forma, os orientais vêem a si próprios pela perspectivas dos outros. Isso é chamado de perspectiva exterior ou de terceira pessoa, ou seja, ver a mim mesmo a partir de como os outros me vêem. Os orientais se concentram no que os outros pensam e sentem a seu respeito definida como projeção relacional.

Já o ocidental, na perspectiva de primeira pessoa, descreve as coisas a partir do que pensa, sente e deseja. Por isso tendem a acreditar que os outros pensam, sentem e desejam da mesma maneira, ou seja, uma projeção egocêntrica.

As concepções cartesianas e newtonianas de compreensão da realidade, desconectada e reduzida à mecânica das partes, sofrem um grande impacto com as descobertas recentes no campo da física quando culminaram na formulação da teoria da relatividade e da teoria quântica. Estas teorias construíram um novo paradigma a respeito dos objetos sólidos a nível subatômico, revelando que os modelos da física clássica não eram capazes de explicar tais fenômenos. Isso porque o material sólido da física clássica transforma-se em padrões ondulatórios e probabilidades que não são de coisas e sim de interconexões. Como aponta Bohr (apud CAPRA, 1982, p. 75) “as partículas materiais isoladas são abstrações,

e suas propriedades são definíveis e observáveis somente através de sua interação com outros sistemas”. Seguindo sua argumentação, afirma que o

universo é um todo unificado que, até certo ponto pode ser dividido em partes separadas até atingirem a dimensão de átomos e partículas. A partir desse ponto, ou seja, a nível subatômico, a noção de partes separadas dissipa-se, não podem ser mais entendidas como partes isoladas e precisam ser definidas a partir de

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A doutrina budista Hua-yen mostra todo o cosmos como um nexo único de condições em que tudo depende, simultaneamente. Visto nesta perspectiva, tudo o que afeta é afetado imediatamente ou remotamente de alguma maneira devido ao sistema de relações entendida como totalidade da existência. Para compreender os indivíduos e seus grupos o pensamento Hua yen considera o todo como parte integrante da individualidade e a individualidade como parte do todo o mesmo ocorre com relação aos indivíduos. http://www.wisdomportal.com/HuaYenBuddhism.html . O assunto pode ser mais profundamente analisado na obra Entry into the Inconceivable: An Introduction to Hua-Yen Buddhism de Thomas Cleary. University Fo Hawaii Press, 1995.

suas inter-relações. Este conceito possui relação com a rede de indra ou, rede (web) ou teia assim, segundo Lima (2000, p.71) se eu me considerar como um fio

de uma teia de relações, inevitavelmente me considerarei afetada por outros fios, que exercem influências “externas” a mim... Mas, se tomo consciência de que eu, fio, sou apenas parte de um todo, então nada no todo pode ser considerado externo.

Vale ressaltar que, para ambas as metáforas, rede de indra ou teia, não vale o conceito de fenômeno estático ou monolítico. Trata-se de uma rede intrinsecamente dinâmica e ondulatória. Os objetos materiais podem parecer passivos e inertes, mas tanto um pedaço de pedra ou metal estão em grande atividade quanto mais de perto observarmos. Objetos, neste sentido, são possuidores de um equilíbrio dinâmico.

Isso porque existe um conceito do pensamento oriental de impermanência, ou seja, “todas as coisas que existem estão constantemente mudando, se

transformando. Mesmo que não possamos perceber, isso não quer dizer que exista algo permanente” (MELLO, 2004, p.23). Esse conceito faz pensar que tudo

está em constante processo de transformação e mudança num fluxo que não ocorre como fenômeno isolado dos demais acontecimentos, objetos, circunstâncias e pessoas.

Assim como na abordagem bootstrap16 de Georffrey Chew, elaborada em

1962, onde aponta que numa rede ou teia interligada de relações nenhuma propriedade de qualquer parte é fundamental ou mais importante, todas decorrem uma das outras e a consistência está nas inter-relações.

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