3.1. AS DIRETRIZES PARA A CONSTITUIÇÃO DE PLANOS MUNICIPAIS DE
3.1.4. Os Planos Municipais de Educação (PMEs)
Segundo estudo de Souza e Faria (2003, p.69), não há unanimidade entre autores que se dedicam a pesquisar a legislação educacional sobre a exigência presente em texto constitucional no que se refere à elaboração de PMEs. Entretanto, a previsão constitucional da elaboração de CEs (artigo 11, Ato das Disposições Transitórias) e a LDB ao estabelecer no artigo 11 a necessidade dos municípios se integrarem às políticas e planos educacionais traçados pela União e seu respectivo Estado, articulam-se à CE do Rio de Janeiro, quando estabelece no artigo 308 os deveres do Estado e municípios para com a educação e prevê a elaboração do PEE e de PMEs, no artigo 316. Se ainda analisarmos s meta 25 do PNE, que trata da elaboração e execução de PEEs e PMEs, torna-se ainda mais evidente a necessidade desses três instrumentos – PNE, PEE e PME – articularem-se e se complementarem para a consecução dos objetivos previstos no que se refere à progressiva universalização e melhoria da qualidade da educação brasileira, em todos os níveis e modalidades.
A estes fatores, somar-se-ia a necessidade de estabelecer os planos de educação com base nos critérios de gestão democrática, que apesar de não serem bem definidos pelas legislações citadas acima, sempre que mencionadas são vinculadas à participação de segmentos da sociedade organizados em movimentos, por meio dos Conselhos de Educação.
Desta forma, acreditamos que implicitamente fazem menção à necessidade dos CEEs e CMEs
serem protagonistas deste processo, no sentido de estabelecerem canais de comunicação com a comunidade educacional com vistas ao estabelecimento de metas para a educação local.
De acordo com documento da UNDIME (2004, p. 92) “[...] é fundamental esclarecer que o PME não é um Plano do Sistema ou da Rede de Ensino do Município, mas um Plano de Educação do Município”. Esta afirmação se refere ao fato de que este plano não se resume à rede de escolas mantidas pelas Prefeituras, mas ao conjunto de instituições que compõem o Sistema Municipal de Ensino, conforme previsto no artigo 18, da Lei 9.394/9694. Assim sendo, as políticas nele expressas por meio das metas estabelecidas devem contemplar o desenvolvimento educacional de todo o município, mesmo que as ações devam ser realizadas não diretamente pelo governo municipal, mas pelos governos federal e estadual, ou mesmo pela iniciativa privada. Outro fato que merece destaque é a necessidade de elaboração conjunta e articulada dos Planos de educação nos diferentes níveis, que, como vimos anteriormente, não se consubstanciou.
Ainda em consonância com o documento da UNDIME, resumem-se da seguinte maneira os objetivos que devem cumprir a elaboração de PMEs:
Assim, o PME, embora vá dar conta de prever políticas e fixar objetivos para a educação de todos os munícipes, em todos os níveis, etapas e modalidades, em concreto vai lidar e se responsabilizar somente com demandas e recursos para sua rede atual e futura na educação infantil e fundamental, com ações a curto, médio e longo prazo. (2004, p. 95).
No ano de 2005, o MEC elaborou um documento norteador com o objetivo de auxiliar os municípios na elaboração de seus respectivos planos de educação, por meio da Secretaria de Educação Básica, cuja tarefa é “[...] planejar, orientar e coordenar, em âmbito nacional, o processo de formulação de política para a educação infantil, o ensino fundamental e para o ensino médio” (MEC, 2005a, p.7), tendo como articuladora a CAFISE – Coordenação Geral de Articulação e Fortalecimento Institucional dos Sistemas de Ensino, órgão do DASE (Departamento de Articulação e Desenvolvimento dos Sistemas de Ensino), criada com a proposta de “[...] estimular e apoiar os sistemas de ensino quanto à formulação e à avaliação coletiva de planos nacionais, estaduais e municipais de educação” (MEC, 2005a, p.7).
94 “Os sistemas municipais de ensino compreendem:
I – as instituições do ensino fundamental, médio e de educação infantil mantidas pelo Poder Público municipal;
II – as instituições de educação infantil criadas e mantidas pela iniciativa privada;
III – os órgãos municipais de educação” (DAVIES, 2004, p. 143).
O fato de o PME ser previsto para dez anos, comportando cerca de três governos diferentes em seu período de vigência, merece ser ressaltado, uma vez que ambos os documentos fazem referência a este plano como “[...] plano de Estado e não somente plano de governo”. Este é um aspecto positivo, capaz de romper com a comum descontinuidade das políticas públicas educacionais, posto que a perspectiva de um plano plurianual transcende os interesses de um governo que se encontra no poder em dado momento, oferecendo possibilidades de maior cobrança por parte da comunidade educacional e dos demais atores envolvidos no seu processo de elaboração, caso tenha sido realizado com ampla participação dos mais diversos setores, posto que as propostas acordadas entre tais segmentos ganham força de lei após sua aprovação pela Câmara Municipal.
Na introdução do documento do MEC é apresentada uma retrospectiva dos planos de educação no Brasil e do processo de tramitação do PNE, além de relacionar este momento atual aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil no que se refere à busca de “[...]
crescimento econômico com inclusão social e inserção soberana na economia internacional”
(MEC, 2005, p.16). No bojo destes acordos95as recomendações para elaboração de planos de educação se fazem presentes, sempre apontando para a necessidade de construí-los por meio de ampla participação da sociedade, buscando atender aos objetivos traçados nestes encontros.
Para a consolidação de tais orientações, o documento estabelece dois princípios básicos: o da gestão democrática e o da autonomia e colaboração entre os entes federados, tendo como interlocutores os poderes executivo e legislativo, o Ministério Público, e o que denomina sociedade civil organizada – que seriam as entidades e os movimentos sociais ligados à questão educacional. Destaca ainda a responsabilidade da esfera pública na condução deste processo, sem deixar de referenciar a importância da iniciativa privada em sua elaboração, uma vez que este segmento responde por um número significativo de vagas oferecidas na educação infantil e ensino fundamental, não podendo, portanto, eximir-se deste processo.
As metas e ações propostas nos PMEs devem estar em clara consonância com os objetivos mais amplos da educação, constantes tanto na CF quanto na LDB, e expressos no PNE como prioridades96. Nem menores nem mais importantes, as metas elaboradas para
95 Segundo o documento norteador do MEC, o processo de construção dos planos de educação - Nacional, Estaduais e Municipais – baseia-se nos seguintes acordos: Conferência de Dakar sobre a Educação para Todos;
Declaração de Cochabamba, dos Ministros de Educação da América Latina e Caribe, sobre a Educação para Todos; Declaração de Hamburgo, sobre a Educação de Adultos; Declaração de Paris, sobre a Educação Superior e a Conferência de Dumban.
96 As prioridades estabelecidas pela Lei 10.172/01 são as seguintes: garantia do ensino fundamental obrigatório a todos, inclusive aos que não tiveram acesso em idade própria; ampliação de atendimento nos demais níveis da
compor o PME devem contemplar as já estabelecidas pelo PNE, tendo como referência os dados locais, que podem ser coletados por meio de censos educacionais, passando a disponibilizar para os coordenadores do processo um quadro referente às demandas educacionais do município e as possibilidades de solução apresentadas. Vale ainda destacar que a viabilidade de alcance das metas é importante, e que esta previsão somente pode ser feita caso se tenha claro o montante de recursos financeiros disponíveis para este fim. Isto significa que não cabe propor metas resultantes de anseios sem que estas não encontrem respaldo financeiro para sua consecução, tornando-se, portanto, inexeqüíveis.
Ao analisar o contexto da elaboração do PME de Niterói, retomaremos alguns pontos enunciados neste capítulo - que objetivou introduzir algumas questões conceituais – bem como analisaremos o caminho percorrido pelo município em relação às orientações emanadas do governo central e às expectativas dos grupos envolvidos neste processo.
educação nacional; valorização dos profissionais da educação e desenvolvimento de um sistema de avaliação em
todos os níveis e modalidades (MEC, 2005a, p. 27-28).
4. “NITERÓI RUMO A CIDADE EDUCADORA” – O INÍCIO DA DISCUSSÃO PARA A ELABORAÇÃO DO PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO.
Após dois longos capítulos dedicados à explicitação teórico-conceitual basilar desta dissertação, nesta seção nos propomos a analisar um processo concreto de elaboração de políticas públicas educacionais em um município. Entendendo esta relação como complementar, a distinção entre os aspectos teóricos e práticos é formal, realizada apenas com a finalidade de organizar dialeticamente este trabalho, de forma a favorecer o seu entendimento. Sabemos que a complexidade das relações que se estabelecem no campo material é alimentada por concepções de homem, mundo e sociedade, que mesmo não apresentadas explicitamente, alimentam as ações destes atores, protagonistas das histórias que aqui iremos apresentar.
Assim sendo, propomo-nos a observar, por meio do entendimento da relação entre educação e cidadania, do mergulho na história da educação brasileira e das concepções e orientações para elaboração de Planos de Educação, como vêm sendo encaminhados os debates, os impasses, os consensos e os dissensos pertinentes ao processo de elaboração do PME de Niterói. Aproximam-se do que Saviani (1999) chamou de racionalidade social ou de racionalidade financeira? Apontam para uma nova perspectiva de cidadania, construída por meio da participação ativa dos grupos na definição de políticas que levem em consideração as reais demandas do município? Rompem com o caráter de outorga dos direitos da população, marcantes na configuração da política social brasileira?
Desejamos compreender as possibilidades e limites, os avanços e recuos, os caminhos possíveis e as contradições de uma proposta que se pretende afirmar como síntese de um processo democrático. Cabe uma ressalva ao que entendemos por contradição, em consonância com a análise teórico-metodológica que nos propomos a utilizar ao longo deste trabalho. Diferentemente da acepção negativa do termo, veiculada pelos padrões lógicos de pensamento, não concebemos a contradição como um defeito do raciocínio, mas como “[...]
princípio básico do movimento pelo qual os seres existem [...] não se contrapõe à lógica, mas
vai além da lógica desbravando um espaço que a lógica não consegue ocupar” (KONDER, 1988a, p.49).
Imbuídos desta perspectiva, iniciaremos este capítulo resgatando alguns dos principais aspectos da cidade de Niterói, a fim de contextualizar a discussão que constitui a segunda parte deste texto, em que focaremos nossa análise no processo descrito acima, que teve início no ano de 2003.