Building Affordable Trajectories for Deaf People on the OBAMA Platform
2. Plataforma OBAMA: acessibilidade para surdos e ensurdecidos
A plataforma OBAMA é um repositório de Objetos de Aprendizagem para Matemática, cuja proposta é oferecer aos professores, da Educação Básica, que ensinam Matemática, conhecimento e acesso a recursos que atendam às novas demandas de ensino e aprendizagem. Dessa forma, em
único endereço web, os professores têm acesso a uma variedade de OA voltados para o ensino e aprendizagem Matemática, que podem ser utilizados livremente para as suas aulas, com a indicação da etapa de ensino que trata o conteúdo desenvolvido no OA, o tema curricular e a confiabilidade das características pedagógicas do recurso, além de espaço para produção e compartilhamento de planos de aula com os OA (BATISTA et al, 2017).
2.1 Aspectos gerais da Plataforma OBAMA
A plataforma OBAMA conta com elementos de design e interação aliados a finalidade pedagógica. Ao acessar a plataforma web o usuário encontra um ícone de busca, que não necessita de cadastro para a busca de OA. Porém, seu cadastro é necessário para dar acesso às funcionalidades de plano de aula. Esta funcionalidade é um diferencial do repositório.
Ainda na página inicial o usuário encontra abas no canto superior direito que direcionam o usuário para obter informações sobre a atual equipe desenvolvedora do repositório, publicações da equipe e acesso aos planos de aula (FIGURA 1).
Figura 1. Página inicial da plataforma OBAMA (https://obama.imd.ufrn.br/)
Descrição da Imagem: Fundo cinza. Menu de acesso no canto superior direito. Logotipo OBAMA centralizado. Ferramenta de busca centralizado logo abaixo do logotipo com tarja azul com o nome pesquisar em branco. Logo abaixo link Busca avançada em azul.
Ao acessar a página inicial, o usuário pode realizar seu cadastro para obter um login de acesso a plataforma. Porém, um usuário surdo da plataforma perderia muitas informações, o que acarretaria desânimo para interagir com a mesma. É nessa linha de investigação que analisamos a multiplicidade de recursos acessíveis que desafiou a equipe de desenvolvedores da Plataforma OBAMA em suas práticas, para pensarmos as adaptações ao público surdo como um Componente de Acessibilidade e Responsividade (OBAMA-CARE).
A falta de acessibilidade constitui uma barreira de acesso às pessoas com deficiência. Entretanto, o componente de acessibilidade, muitas vezes, não é percebida por produtores de sites e conteúdos digitais (GÓES e GOMES, 2011). Ainda de acordo com as pesquisadoras, quando analisamos os recursos de acessibilidade existentes para usuários surdos na rede mundial de computadores, encontramos, na maioria das vezes, somente vídeos com legendas explicativas em português – o que não contempla a realidade da parcela maior deste grupo social, que tem o português como segunda língua. Entretanto, não é somente garantir o acesso às tecnologias, faz-se necessário oferecer multiplicidade de conteúdos que dialoguem com as diferentes realidades
culturais e sociais dos sujeitos envolvidos, para que eles possam efetivamente ter acesso
(MONTARDO e PASSERINO, 2007).
2.2 Caminhos percorridos
“Nada sobre nós, sem nós” (Versão do lema Nothing about us without us – do Disability
Rights Movement), foi uma expressão difundida em 1981 por ocasião do Ano Internacional da
Pessoa com Deficiência. Pela primeira vez as pessoas com deficiência tomavam a frente do movimento que até então era representado por instituições.
Ao se pensar em acessibilidade, nossas ações não podem partir de comunidades majoritárias para apresentar projetos que, através de tentativas de convencimento, devem ser aceitos pelos grupos chamados minoritários. As ações, os pensamentos, as ideias, devem partir de ações coletivas que envolvam as pessoas com deficiência, e nos quais possam ser desvelados os sentidos acerca da acessibilidade e das especificidades de cada grupo. Uma compreensão que vai além do aspecto individual.
Dessa forma, o primeiro passo percorrido quando começamos a discutir a acessibilidade para surdos da plataforma OBAMA foi apresenta-la à comunidade surda (estudantes e professores surdos do curso de Licenciatura em Letras-Libras/Língua Portuguesa de uma Universidade Federal do Nordeste) para identificar como a plataforma poderia dialogar com o debate sobre acessibilidade, que informações não eram completamente compreendidas pelos sujeitos surdos, pela falta de acessibilidade, e quais recursos acessíveis à comunidade surda seriam indispensáveis. As discussões geradas no âmbito deste grupo foram mediadas em LSB e a primeira dúvida levantada referiu-se a questionamentos sobre o sinal da plataforma OBAMA, na tentativa de compreender o significado da mesma. O sinal serve para os significados usados no vocabulário comum da Libras. Por ser uma língua viva e nova, os sinais na Libras estão sendo constantemente criados e modificados, à medida que a comunidade surda se apropria de conceitos e significados.
Perpassaram também no grupo discussões acerca de pequenas abas explicativas ao passar o cursor nas palavras e a falta da tradução/interpretação em Libras. Entretanto, os avatares de tradutores-intérpretes de Libras foram rejeitados, por não terem expressões faciais e corporais, e vídeos com surdos ou ouvintes sinalizando textos explicativos sobre a plataforma foram exaltados como melhores na transmissão de informações. Essa última reflexão é muito importante no que diz respeito ao alcance que pode ter para a comunidade surda. Isso porque, existem tradutores que podem ser usados em dispositivos móveis e totens de atendimento, como o ProDeaf e o HandTalk, e estudos que apontam possibilidades de traduzir as legendas ocultas para Libras criando sinais em extensão animada GIF. Porém, são recursos que não são bem aceitos pelo grupo investigado, quando o objetivo é acesso a conteúdo da web.
Após esse contato inicial, o segundo passo para trilharmos caminhos de acessibilidade para pessoas surdas na plataforma OBAMA foi apresentar a plataforma a um professor surdo para que o mesmo pudesse criar um sinal-termo para a plataforma. Na LSB o sinal-termo designa um sinal que compõe um termo específico da língua de sinais, sob a fundamentação teórica da Lexicologia e da Terminologia. O sinal criado para a plataforma OBAMA é composto pela configuração da mão
em “O” – “B” – “A”, nessa sequência, que em frente ao corpo desenham o sinal do infinito, à medida em que a mão faz as configurações das letras “O” – “B” – “A”, remontando ao símbolo do infinito sugerido na ponta da letra “a”, da logomarca OBAMA.
O terceiro passo foi a gravação de um vídeo de apresentação da plataforma OBAMA, que fica disponível na página da plataforma e no canal do Youtbe (http://bit.ly/2T6FVYg). O vídeo foi, então, traduzido e interpretado para a Libras e, posteriormente, deverá ser incluído a legendagem para surdos e ensurdecidos. Vale ressaltar que, a tradução-interpretação do vídeo de apresentação da plataforma foi realizada por um ouvinte, profissional intérprete da área de Libras. Além da tradução-interpretação em Libras da apresentação da plataforma foram realizados takes em Libras de cada um dos itens do menu. A atuação de profissionais Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais (TILS), é importante para os usuários da Libras, não só pela eliminação de barreiras comunicacionais, mas, também, pela ampliação da acessibilidade, valorização da cultura e da língua da comunidade surda. A utilização de vídeos com TILS aproxima mais o surdo dos conteúdos da web.
Os próximos passos serão destinados a validação pela comunidade surda do trabalho desenvolvido, no qual iremos avaliar a qualidade da tradução-interpretação em Libras e a latência para a exibição do conteúdo. Trataremos, também, das questões relacionadas aos arquivos das legendas, como por exemplo: a inclusão da legenda nos vídeos de tradução-interpretação de Libras e a exibição da legenda oculta em outro campo do vídeo no caso de ter pessoas ouvintes também assistindo.
Acreditamos no potencial no desenvolvimento da acessibilidade da plataforma como possível solução para uma maior integração de surdos às novas mídias, por permitir que eles façam uso da sua língua nativa, e uma maior aproximação de professores surdos no uso da plataforma, podendo vir a ser um canal de contribuição para a elaboração de planos de aula acessíveis e para a construção de OA acessíveis na área da Matemática.
3. Considerações Finais
O uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) acessíveis a surdos, que atendam as particularidades linguísticas deste grupo, é um tema que vem crescendo no Brasil. Os marcos legais ampliaram a participação dos sujeitos com deficiência nos âmbitos educacional, social, cultural, político e econômico. As TIC permitem ao usuário aprender, interagir e transformar. O resultado disso é a preocupação crescente de que todos tenham acesso às informações e que se eliminem barreiras comunicacionais.
Para elucidar a discussão, esta pesquisa trouxe o relato de experiência do caminho percorrido para tornar acessível a plataforma OBAMA, como foco não só no quesito usabilidade, mas principalmente no processo de desenvolvimento da acessibilidade da plataforma. A adoção da janela de Libras com a tradução-interpretação de um profissional da área, TILS, garante aos sujeitos surdos usuários da Libras a promoção da acessibilidade na web, o incentivo à participação
destes indivíduos no processo de criação de planos de aula e o reconhecimento das demandas comunicacionais da comunidade surda.
Ressalta-se, que a acessibilidade da Plataforma OBAMA está em fase de desenvolvimento, e ainda não possui todos os recursos acessíveis para os surdos. Ainda faltam ser implementadas a LSE, a escrita de sinais nos ícones de navegação, submissão de novos OA que sejam acessíveis a usuários surdos, inclusão de caixas de mensagens sobre as palavras trazendo o significado ou uma informação que seja pertinente a melhor compreensão, entre outros recursos.
Além disso, ainda é preciso contemplar outros públicos que necessitam de recursos acessíveis para a navegação na web, como pessoas cegas ou com baixa visão e pessoas com deficiência intelectual.
Referências
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