III. CONTROLE EXTERNO DOS SERVIÇOS NOTARIAIS E REGISTRAIS PELO
4. O PODER DISCIPLINAR DO PODER JUDICIÁRIO EM FACE DOS
O poder disciplinar ou sancionador do Poder Judiciário consiste em apurar as infrações disciplinares praticadas pelos notários e registradores, previstas no art. 31 da Lei n. 8.935/199482, as quais se consubstanciam na a) inobservância das prescrições legais ou
81 O poder normativo neste trabalho será entendido no sentido dado por Odete Medauar de que se trata de um
poder normativo geral, do qual o poder regulamentar é espécie. Assim esclarece a autora: ―No direito brasileiro, o poder regulamentar destina-se a explicar o teor das leis, preparando sua execução, completando- as, se for o caso. (...) Além do poder regulamentar, a Administração detém a faculdade de emitir normas para disciplinar matérias não privativas de lei. In: MEDAUAR, Odete. Direito Administrativo Moderno. 12. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008a. p. 114-115.
82 ―Art. 31. São infrações disciplinares que sujeitam os notários e os oficiais de registro às penalidades
previstas nesta lei:
I - a inobservância das prescrições legais ou normativas; II - a conduta atentatória às instituições notariais e de registro;
normativas; b) na prática de conduta atentatória às instituições notariais e de registro; c) a cobrança indevida ou excessiva de emolumentos; d) a violação do sigilo profissional; e) o descumprimento de quaisquer dos deveres descritos no art. 3083.
A imposição de toda e qualquer penalidade deve ser precedida de sindicância84 ou processo administrativo85, no qual sejam observados todos os princípios que o norteiam, em especial da ampla defesa e do contraditório, nos termos do art. 5º, LV, da Constituição Federal86.
Neste sentido, enuncia Marçal Justen Filho:
“Em face dessas circunstâncias, cabe reconhecer que processo administrativo (com todas as suas garantias) haverá em todas as hipóteses de apuração de ilícitos funcionais e de imposição de sanção administrativa – mesmo de advertência.
O que se pode diferenciar são procedimentos mais complexos ou mais simples:
IV - a violação do sigilo profissional;
V - o descumprimento de quaisquer dos deveres descritos no art. 30.‖
83 “Art. 30. São deveres dos notários e dos oficiais de registro:
I - manter em ordem os livros, papéis e documentos de sua serventia, guardando-os em locais seguros; II - atender as partes com eficiência, urbanidade e presteza;
III - atender prioritariamente as requisições de papéis, documentos, informações ou providências que lhes forem solicitadas pelas autoridades judiciárias ou administrativas para a defesa das pessoas jurídicas de direito público em juízo;
IV - manter em arquivo as leis, regulamentos, resoluções, provimentos, regimentos, ordens de serviço e quaisquer outros atos que digam respeito à sua atividade;
V - proceder de forma a dignificar a função exercida, tanto nas atividades profissionais como na vida privada; VI - guardar sigilo sobre a documentação e os assuntos de natureza reservada de que tenham conhecimento em razão do exercício de sua profissão;
VII - afixar em local visível, de fácil leitura e acesso ao público, as tabelas de emolumentos em vigor; VIII - observar os emolumentos fixados para a prática dos atos do seu ofício;
IX - dar recibo dos emolumentos percebidos;
X - observar os prazos legais fixados para a prática dos atos do seu ofício;
XI - fiscalizar o recolhimento dos impostos incidentes sobre os atos que devem praticar;
XII - facilitar, por todos os meios, o acesso à documentação existente às pessoas legalmente habilitadas; XIII - encaminhar ao juízo competente as dúvidas levantadas pelos interessados, obedecida a sistemática processual fixada pela legislação respectiva;
XIV - observar as normas técnicas estabelecidas pelo juízo competente.‖
84Quanto à sindicância, Marçal Justen Filho assim descreve: ―Trata-se, tão-somente, de um processo
administrativo com procedimento simplificado, em vista da reduzida gravidade da infração a ser apurada. A sindicância se caracteriza pela simplicidade procedimental.‖. In: JUSTEN FILHO, Marçal. Curso de Direito
Administrativo. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 818.
85 ―Quando à competência adiciona-se a colaboração de sujeitos e contraditório, o procedimento expressa-se
como processo. O processo administrativo é modalidade de ‗exteriorização da função administrativa‘ (procedimento administrativo) qualificado pela participação dos interessados em contraditório, imposto diante da circunstância de se tratar de procedimentos celebrados em preparação a algum provimento (ato de poder imperativo por natureza e definição), apto a interferir na esfera jurídica das pessoas.‖ BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Processo Administrativo Disciplinar. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 50.
86―Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.‖
sindicância, processo administrativo simplificado do art. 133, processo disciplinar propriamente dito.” (2008, p. 819).
Inclusive, há previsão expressa no art. 35, II, da Lei n. 8.935/1994 que a perda
da delegação depende de sentença judicial transitada em julgado ou de decisão decorrente de processo administrativo, no qual seja assegurado o ―amplo direito de defesa‖.
Tendo em vista que a Lei n. 8.935/1994 não traz regras de procedimento, incidentes são, aos notários e registradores, as legislações estaduais, bem como a própria Lei n. 8.112/1994, naquilo que tratem do processo administrativo disciplinar dos servidores públicos, vez que enunciam nada mais que os princípios e regras constitucionais. Outrossim, havendo regramento procedimental no âmbito local, pelas Corregedorias dos Tribunais, este deve ser precipuamente observado desde que não seja contrário à Lei e à Constituição, considerando o princípio do devido processo legal.
A apuração da responsabilidade disciplinar dos notários e registradores será conduzida pelo juiz corregedor permanente indicado na órbita estadual e do Distrito Federal sempre que constatada alguma irregularidade, ex officio pela própria autoridade competente ou por meio de representação de qualquer interessado (art. 37, caput, da Lei n. 8.935/1994.
IV. LIMITES DO CONTROLE EXTERNO DO PODER JUDICIÁRIO SOBRE OS