1 TERRITÓRIO E PODER: APORTES CONCEITUAIS PARA
1.2 Poder e território: dimensão política do espaço
1.2. Poder e território: dimensão política do espaço
4Societies are constituted of multiple overlapping and intersecting social networks of power.
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A discussão acerca da dimensão política do espaço nos encaminha, no campo teórico, necessariamente ao debate sobre os conceitos de poder e território. Tal assertiva baseia-se na consideração que, se em toda relação há disputa de poder, nas relações analisadas pela Geografia Política, são as disputas de poder o cerne do estudo.
No que tange a política Castro (2011), aponta três vertentes para se pensar a política: (a) sociológica, em que é interpretada como a condição das regras e das solidariedades sociais, (b) da economia política, em que toda a lógica do poder está sob o julgo do capital e (c) da ciência política, em que o objetivo é compreender os fundamentos das ações e decisões dos atores políticos formalizados a partir do Estado. Para a autora a política deve ser compreendida como a essência das normas socialmente instituídas e como condição para o surgimento do espaço político, em que é possível a convivência entre os diferentes.
Por sua vez Raffestein (1993) considera como elementos constitutivos das relações políticas: os atores, a política dos atores ± ou o conjunto de suas intenções, isto é, suas finalidades -, a estratégia deles para chegar a seus fins, os mediatos da relação, os diversos códigos utilizados e os componentes espaciais e temporais da relação. Neste sentido prRS}HTXH³a geografia política, concebida como a geografia das relações de poder, poderia ser fundada sobre os princípios de simetria e de GLVVLPHWULD QDV UHODo}HV HQWUH RUJDQL]Do}HV´ (RAFFESTEIN, 1993, p. 29). Ao analisarmos tal proposição podemos considera-la útil e basilar a pesquisa que se pretende empreender à medida que considera a fundamentação do campo de estudo sobre as relações de poder, o caráter dissimétrico desta relação e a necessidade de se entender as interações entre os atores envolvidos.
Castro (2011, p. 52-53), por outro lado destaca as
três dimensões necessárias aos problemas considerados pertinentes a análise da geografia política: 1) o pressuposto da política, em seu sentido restrito, como central ao controle e a definição dos limites do cotidiano das sociedades; 2) o território como materialidade e arena dos interesses e das disputas dos atores sociais; e 3) o poder como um exercício resultante de relações assimétricas que se organizam no interespaço do mundo
Podemos então considerar a necessidade do estudo dos territórios como resultantes e meios das relações assimétricas de poder. Neste item serão discutidos
os conceitos de poder e território. Analisemos, inicialmente, algumas definições do conceito de poder.
Castro (2011) apresenta algumas definições da noção de poder em autores clássicos:
a) em Hobbes, o poder de um homem consiste nos meios de que presentemente dispõe para obter qualquer visível bem futuro, b) para Weber, poder significa a probabilidade de impor a própria vontade dentro de uma relação social , mesmo contra a resistência e qualquer que seja o fundamento desta probabilidade, c) Bertrand Russel diz que o poder pode ser definido como a produção de resultados pretendidos, d) para Lasswell o poder é, especificamente, um valor de deferência: ter poder é ser levado em conta nos atos dos outros, e) para Brachach existe poder quando há conflitos de interesses ou valores entre duas ou mais pessoas ou grupos.
Tal divergência é condição necessária, porem insuficiente, do poder. Uma relação de poder se diferencia da influência pela possibilidade de uma das partes invocar sanções (CASTRO, 2011, p. 97).
Foucault (1985), por sua vez, elenca cinco características do poder:
(a) não pode ser adquirido, transmitido ou guardado, ele se exerce a partir de inúmeros pontos, em meio a relações desiguais e móveis,
(b) não é exterior a outras relações, como econômicas, sendo efeito imediato da relação entre os desiguais,
(c) as correlações de força se originam nos níveis mais baixos, a partir da correlação de forças múltiplas, nas famílias, nos grupos sociais e nas instituições,
(d) as relações de poder são intencionais e não subjetivas, não há poder sem que se haja um objetivo e
(e) onde há poder haverá também resistência.
Segundo Raffestein (1993) o poder é imanente a toda relação e se manifesta por ocasião da relação, o embate entre os atores cria um campo: o campo do poder.
Para Castro (2011) os
conflitos de interesses surgem das relações sociais e se territorializam, ou seja, materializam-se em disputas entre grupos e classes sociais para organizar o território da maneira mais adequada aos objetivos de cada um, ou seja, do modo mais adequado aos seus interesses (p. 41).
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Enquanto Castro (2011) apresenta uma interessante definição do poder como a manifestação da possibilidade de dispor de um instrumento para se alcançar um fim, supondo uma relação assimétrica, envolvendo uma capacidade de ação sobre coisas e pessoas, Allen (2008) discute a diferenciação entre o poder como uma capacidade de impor coerções sobre outrem e o poder enquanto uma capacidade de empreender uma ação sem constrangimentos, consubstanciando a ideia do poder como uma possibilidade de agir.
A discussão do poder é primordial ao entendimento do território, pois este pode ser compreendido enquanto uma expressão material das relações de poder, conforme apontou Souza (2000, p. 78): ³R território é um espaço definido e GHOLPLWDGR SRU H D SDUWLU GH UHODo}HV GH SRGHU´. A partir deste entendimento analisemos outras definições de território, que compartilham a discussão da dimensão espacial do poder.
A partir de levantamento da bibliografia especializada Haesbaert (2007, p. 45) conclui que as concepções do conceito de território podem ser agrupadas nos seguintes referenciais teóricos:
³Do binômio materialismo e idealismo, desdobrado depois em duas outras perspectivas, a visão mais totalizante e a visão mais parcial do território em relação a: i) o vínculo sociedade-natureza; ii) as dimensões sociais privilegiadas (econômica, política e/ou cultural); a historicidade do conceito, em dois sentidos: i) sua abrangência histórica ± se é um componente ou condição geral de qualquer sociedade ou se está historicamente circunscrito a determinado(s) período(s) ou grupo(s) sociais, ii) seu caráter mais absoluto ou relacional: físico-FRQFUHWR FRPR ³FRLVD´ REMHWR D SULRUL QR sentido de espaço kantiano) ou social-KLVWyULFRFRPRUHODomR´
Considerando estas discussões Haesbaert (2007) aponta para a necessidade que sejam superados os pensamentos dicotômicos, que separam em diferentes esferas de análise a dimensão material das relações sociais, da dimensão simbólica sobre as representações que movem tais relações.
Tendo em vista este quadro geral o autor abordará as principais orientações teóricas sobre o território nas seguintes perspectivas: (a) o território numa posição materialista, aliando a discussão entre território e natureza, visão predominante na Geografia, em que este é visto como uma fonte de recursos, enquanto meio material de existência, (b) o território em uma perspectiva idealista, em que são debatidas as
relações entre território e cultura, principalmente a partir das discussões das identidades com forte conteúdo territorLDO DVVLP ³R WHUULWyULR UHIRUoD VXD GLPHQVmR enquanto representação, valor simbólico. A abordagem utilitarista de território não dá FRQWD GRV SULQFLSDLV FRQIOLWRV GR PXQGR FRQWHPSRUkQHR´ (HAESBAERT, 2007, p.
50), (c) um terceiro viés privilegia a dimensão política, das relações de poder, fortemente identificada com o Estado nação bem como (d) uma abordagem econômica, em conjunto com a discussão política da subordinação dos espaços aos interesses econômicos hegemônicos.
Ademais, o autor discute o sentido do território, enquanto absoluto, uma coisa dada a priori ou como coisa, substrato material ou como relacional, como resultante das relações de poder. No âmbito desta discussão conclui que
o território é relacional não apenas no sentido de incorporar um conjunto de relações sociais, mas também no sentido, destacado por Godelier, de envolver uma relação complexa entre processos sociais (...) ele não significa simplesmente enraizamento, estabilidade, limite e/ou fronteira.
Justamente por ser relacional, o território inclui também o movimento, a fluidez e as conexões (HAESBAERT, 2007, p. 56).
Por sua vez, Sack (1986), discutirá as relações de apropriação do espaço, a partir da territorialidade humana entendendo-D FRPR XPD ³tentativa, de indivíduos ou grupos, de afetar, influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e relações, pela demarcação e controle de uma área. Esta área será denominada território5´(SACK, 1986, p. 19). Esta é uma noção fundamental ao entendimento da questão discutida na presente dissertação, à medida que os movimentos emancipatórios representam momentos de insurgência sobre um determinado controle exercido sobre pessoas e lugares. Assim uma determinada área somente poderá ser considerada um território se este for controlado por alguma autoridade, no sentido de moldar, influenciar e controlar atividades.
No ínterim desta discussão o autor reconhece três implicações da territorialidade:
(a) envolve uma forma de classificação de áreas, criando diferenciações que
5 The attempt by an individual or group to affect, influence or control people, phenomena, and relationships, by delimiting and asserting control over a geographic area. This area will be called territory.
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definem o que é e o que não é o território, (b) uma forma de comunicação, à medida que enquanto estratégia, a territorialidade somente será efetiva se for compartilhado o entendimento do que é e do que não é o território e (c) pressupõem tentativas de imposição de controle ou exclusão do acesso às coisas e áreas definidas enquanto território.
Assim Sack (1986) reconhece dez tendências da territorialidade:
1. A territorialidade envolve uma forma extremamente eficiente de classificação de áreas, ao identificá-las enquanto tipos.
2. O limite territorial é uma marca que torna fácil a comunicação da territorialidade exercida, diferenciando o que está inserido daquilo que está excluído.
3. A territorialidade será mais efetiva como estratégia de controle, se a distribuição dos recursos e coisas estiver entre a ubiquidade e a imprevisibilidade.
4. A territorialidade prove mecanismos de reificação do poder.
5. Pode ser usada para desviar a atenção da relação entre aqueles que controlam e os que são controlados para o território, naturalizando relações sociais enquanto algo imanente daquele ente territorial.
6. Ajuda a tornar as relações impessoais, ao ser tratada como uma definição de áreas.
7. Pode ser entendida como uma maneira de compreender a existência dos lugares, considerando-se que a apreensão total das relações que se quer controlar podem se tornar tão complexas que escapam a percepção em sua totalidade.
8. Molda as propriedades espaciais dos eventos, pois o território altera o conteúdo de outros objetos.
9. Ajuda a criar a ideia de vazios espaciais quando as características daquela territorialidade não estão presentes
10. E, por fim, a territorialidade dá início a um processo retro alimentador, em que a mesma enseja a geração de mais territorialidades.
Outra abordagem é aquela descrita por Paasi (2008) em que o autor considera
o território como um processo social, em que a ação e o espaço social são inseparáveis. Os territórios não são quadros estáticos em que a vida social ocorre. Estes podem ser criados, ganhar significado e destruídos na ação social e individual (PAASI, 2008, p. 110).
O autor complementa sua análise argumentando que o processo de formação destas unidades, ao qual denomina institucionalização dos territórios se efetiva a partir de quatro abstrações: (a) a forma do território, seja pela construção física ou simbólica do mesmo, (b) a construção de símbolos territoriais, como os topônimos, a bandeira e as práticas cívicas, (c) a forma institucional do território, referindo-se a como são institucionalizadas as diversas ações, como econômica, administrativa, política, cultural, dentre outros e (d) a construção de identidades territoriais que LGHQWLILTXHPXP³HX´RSRVWRDR³RXWUR´
Por fim, destacamos a discussão proposta por Foucault (2008, p. 3) a respeito do conceito de biopoder, definido pelo autor como ³o conjunto de mecanismos pelos quais aquilo que na espécie humana, constitui suas características biológicas fundamentais vai poder entrar em uma política, numa estratégia política, numa HVWUDWpJLDJHUDOGRSRGHU´.
No âmbito destas discussões nosso interesse é debater os mecanismos do poder elencados pelo autor, pois estas proposições são fundamentais ao entendimento da relação entre poder, norma e território. Assim serão delineados três mecanismos gerais do poder: (a) o mecanismo legal ou jurídico, baseado em uma divisão binária das ações entre proibido e permitido, interligado a uma forma de punição, uma sanção a ser exercida sobre o transgressor; (b) o mecanismo disciplinar, em que além do sistema binário prevê uma série de técnicas de vigilância e correção e (c) os dispositivos de segurança, em que os fenômenos serão colocados em uma perspectiva global, em que serão consideradas as probabilidades dos acontecimentos.
No item subsequente abordaremos este tema de maneira mais detalhada, considerando a relação entre o poder e a norma, a partir da formação dos aparatos institucionais como formas de apropriação do espaço, considerando os mecanismos acima elencados.
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