PARTE II: CAMPOS E LINGUAGEM
2. SUJEITOS COLETIVOS E INSTITUIÇÕES
2.1. PONTOS DE CONTATO, ESTRUTURAS E LINGUAGEM SIMBÓLICA
A ideia força do presente item é delinear o que chamamos “plano do sujeito coletivo”. A inspiração para falarmos em ‘plano’, em oposição à ‘definição’ é similar a que descrevemos ao analisarmos o sujeito cognoscente: trata-se de uma tentativa de nos afastarmos da compreensão do sujeito enquanto ponto, passível de ser isolado do ambiente.
A ideia de um plano, ademais, coaduna com a proposta de um sujeito aberto a novas interpretações: o plano no qual o sujeito está inscrito não é, em si, o sujeito – tampouco o contém. No entanto, o sujeito pode ser inscrito no plano, de diferentes formas, a partir das necessidades concretas da pesquisa.
Presentemente, consideraremos como sujeitos coletivos se constituem (em relação ao meio) a partir de três nexos (ou coordenadas): pontos de contato, estrutura e linguagem simbólica. A partir destes três nexos, é possível buscar inter-relações entre diferentes conceitos que busquem delinear o sujeito coletivo, sem necessariamente reclamar ascendência exclusiva sobre o termo.
Embora umbilicalmente ligados, pontos de contato e estrutura – conforme propomos usar os termos no presente estudo – apresentam algumas distinções relevantes às quais cremos apropriado apontar. Pontos de contato representam pontos de porosidade entre o ambiente e o sujeito coletivo, através dos quais sujeitos e ambiente trocam informações e energia; a estrutura de um campo, por outro lado, representam pontos de apoio internos que se redirecionam a energia obtida do meio a partir dos pontos de contato de forma a facilitar a manutenção do sujeito em um estado de separação parcial em relação ao ambiente.
Dependendo de inúmeros fatores (como, por exemplo, o tamanho do sujeito coletivo e sua forma de interagir com a sociedade englobante), diferentes sujeitos poderão manter diferentes números de pontos de contato e, de fato, o mesmo sujeito (e por “mesmo” entendemos aqui um sujeito que se entenda enquanto tal) pode ter diferentes pontos de contato em diferentes momentos.
Em caráter ilustrativo, observemos o já citado exemplo de uma pequena igreja ou congregação: nestas espécies de pequenos grupos os sujeitos cognoscentes que compõe a congregação são simultaneamente pontos de influxo de insumos quanto de trocas de informação com o meio. Por conta de sua homogeneidade, um tal grupo pode ter uma estrutura bastante simples, talvez composta de uma ou duas figuras (o pastor e sua esposa, por exemplo) os quais se responsabilizam pela organização das funções básicas do grupo.
Em grupos mais numerosos, como a igreja católica, por exemplo, ou uma igreja que pertença a uma das correntes protestantes mais populares, os pontos de contato também são os membros congregantes, mas por seu número e heterogeneidade, faz- se necessária uma estrutura mais complexa que dê sustentação.
Outros grupos, como por exemplo, as forças armadas de um país, são coordenados por estruturas complexas, mas não tem em cada membro-sujeito um ponto de influxo – muito pelo contrário; os membros de tais sujeitos coletivos tendem a depender da estrutura para sua subsistência. Ademais, grupos financiados diretamente por Estados tendem a ter poucos pontos de contato com o ambiente e estes, em geral estão atrelados às estruturas estatais, de tal forma que estes sujeitos têm uma relação indireta com a sociedade englobante9.
A estrutura do sujeito coletivo é determinante no que tange a atuação deste em oposição ao meio (autoafirmação), ademais, quanto menos pontos de contato, maior a capilaridade que se espera observar na estrutura – há aqui certo paralelo com seres vivos: insetos, por exemplo, tem um sistema circulatório aberto, o sangue não está restrito a artérias e veias e o oxigênio do ar penetrando por diversos tubos em seu corpo (um paralelo a múltiplos pontos de contato). Já em animais de maior porte, um sistema complexo e capilarisado de veias e artérias (sistema circulatório fechado) garante que sangue oxigenado chegue às extremidades do corpo do animal, bem como que o sangue retorne aos pulmões (pontos de contato únicos) para serem novamente oxigenados.
É na estrutura do sujeito coletivo que a influência do télos se cristaliza de forma mais direta. Ao contrário dos pontos de contato – cuja função, embora realizada por mecanismos diversos, tende a se limitar a trazer influxos para o sujeito – e da linguagem simbólica – cujo foco na autoafirmação pode afastá-la de uma representação das práticas e intenções do sujeito, gerando ‘discursos dissimuladores’ (FLORIANI, 2016) – a estrutura do sujeito precisa refletir as necessidades reais e concretas do sujeito coletivo, umas vez que garante a integridade do sujeito.
Em se tratando de sujeitos que demandam uma estrutura complexa, diferentes aspectos desta estrutura podem se conformar em subsistemas específicos, aos quais chamaremos de ‘instituições’ por mostrarem-se isomórficos a estas. Neste sentido, nosso entendimento se alinha ao de Mayr (1965): que entendia mais adequado
9 Vale atentar que se trata de uma relação indireta quando comparada a de grupos que obtém insumos diretamente de “agentes livres” na sociedade englobante.
restringir o uso do termo ‘teleonômico’ a “sistemas operando na base de um programa de informação codificada” (idem, tradução nossa). No caso em pauta, as regras sobre as quais as instituições se constituem é a informação sobre a qual pode atuar uma teleonomia gerada pela coevolução. No item 2.2 iremos oferecer dois exemplos concretos.
Um cuidado que devemos ter, no entanto, é em não simplificar excessivamente o funcionamento da estrutura de sujeitos coletivos. Ao contrário do que ocorre em organismos biológicos, em sujeitos coletivos diferentes partes da estrutura podem estar sujeitas a vetores diversos e, portanto, podem buscar mover o sujeito em diferentes direções (ou mesmo direções opostas). Dependendo da intensidade destes vetores, isto pode acarretar tensões no sujeito coletivo que podem mesmo culminar em sua ruptura ou dissolução. Em caso de ruptura, os novos sujeitos coletivos disputarão os pontos de contato sobre os quais as estruturas dos sujeitos emergentes se sustentarão – ou ainda os sujeitos deverão buscar novos pontos de contato – uma vez que, se totalmente desconectado do meio, o sujeito não será capaz de subsistir.
O terceiro nexo que constitui o plano do sujeito que vimos delineando é a difusão de uma linguagem simbólica própria ao sujeito. Conforme desenvolvem contornos de independência, pode emergir de um dado sujeito coletivo uma linguagem simbólica. É importante notar que o que chamamos de ‘linguagem simbólica’ não deve ser entendido de forma apriorística como satisfazendo todas as funções e demandas normalmente associados às linguagens naturais – apesar de amiúde fazê-lo – mas nos parece mais próximo de uma “teia de crenças” (QUINE, 1978), ou seja, um conjunto de terminologias inter-relacionadas e carregadas de um valor simbólico que, para os membros do grupo, vai além de seu mero sentido dado por uma ‘definição’. Disso, no entanto, falaremos mais adiante.
2.2. DOIS MODELOS PARADIGMÁTICOS: INSTITUIÇÕES COMO ESPAÇO DE