2.3 ASPECTOS GERAIS DA ACTOR-NETWORK THEORY (ANT)
2.3.1 Conceitos-chave da TAR
2.3.1.2 Princípio da Simetria generalizada
Ao considerar a agência, tanto de humanos quanto de não-humanos, os estudos ANT apresentam um dos aspectos mais polêmicos de sua abordagem, a simetria entre os humanos e não-humanos. A TAR nega que as pessoas sejam necessariamente mais importantes do que os objetos. Essa simetria é proposta porque a linha que separa as pessoas dos objetos está constantemente sujeita a negociações e mudanças (LAW, 2003). Sendo assim, torna-se difícil propor uma diferenciação entre humanos e não-humanos puros. Diante da indefinição entre o
que é humano e não-humano, considerar uma das partes como principal mostra-se problemático e essa é uma das razões para a TAR propor a ideia de simetria.
Para alguns críticos da ANT, considerar simétricos humanos e não-humanos implica em discussões de ordem ética (LAW, 1999). Isso poderia levantar questões como posicionar humanos e não-humanos dentro de um mesmo patamar de direitos ou mesmo questionar a posição de soberania do ser humano. Mas, o objetivo da TAR ao propor a simetria generalizada é bem mais simples, ou seja, reconhecer o poder dos objetos na formação das redes e questionar a purificação proposta pelos modernos.
Law (1999, 2003) esclarece o impasse ao afirmar que a simetria não se dá num âmbito de ontologia política, mas surge apenas como uma posição analítica. Torna-se difícil entender a ação dos atores sem considerar os objetos que estão incluídos em sua prática. Conforme exemplifica Alcadipani e Tureta (2009, p. 52), “no contexto organizacional, pouco restará de um gerente se for retirado seu computador, sua agenda, seus sistemas de informação, suas planilhas e relatórios, suas canetas, papéis ou a mesa de trabalho”. Como conseguiria o gerente fazer seu trabalho sem esses objetos?
Dessa forma, os objetos/ implementos fazem uma grande diferença ao estudar o curso da ação, não se pode excluí-los do estudo. Como esclarece Latour (2012, p. 114): “A ANT não é - repito: não é - a criação de uma absurda simetria entre humanos e não humanos. Obter simetria, para nós, significa não impor a priori uma assimetria espúria entre ação humana intencional e mundo material de relações causais.”
Assim, a simetria generalizada pode ser entendida como o princípio ao qual considera que todas as entidades devem ser analisadas com os mesmos métodos, contabilizados e descritos com a mesma terminologia. Desse modo, qualquer entidade estudada (pessoas, objetos, falso, verdadeiro, etc.) deve ser trata de forma equivalente (LATOUR, 1994, 2008).
[...] 'simetrizar' os enfoques imaginando uma balança mais ajustada que não inclinasse os pratos. [...] Na prática isso equivale a utilizar os mesmos métodos etnográficos para os ‘brancos’ e os ‘negros’, para o pensamento culto e o pensamento ‘selvagem’, ou melhor dizendo, equivale a desconfiar muitíssimo da noção mesma de 'pensamento' (LATOUR, 2008, p. 172, tradução nossa).
A noção de simetria generalizada advém de críticas tecidas à ciência moderna a qual enfatiza a purificação e as questões de fato como elementos que levam à construção do verdadeiro conhecimento científico (LATOUR, 1994, 2013).
Para Latour (1994, 2008), Latour e Woolgar (1997), a separação entre as questões de fato e questões de interesse, bem como, a ênfase na pureza em detrimento da hibridização faz
com que a ciência ignore elementos que se encontram no meio; ou seja, elementos que são compostos tanto por aspectos relacionados a natureza (questões de fato) como a sociedade (questões de interesse). Esses Latour (1994) denomina de quase-objetos e quase-sujeitos.
Conforme é possível perceber também em Latour (2013), o quase-objeto é aquela mistura entre objetos e demais elementos onde há um maior destaque ao objeto, a exemplo da técnica, referência e ficção. Enquanto que nos quase-sujeitos aproxima-se mais do elemento humano, a exemplo da religião, política e direito.
Para ilustrar a composição dos quase-objetos e quase-sujeitos, Latour (1994) apresenta os estudos de Boyle da bomba de ar no vácuo e os de Hobbes sobre a constituição do Estado. Apesar de aparentemente Boyle lidar apenas com questões de fato e Hobbes com questões de interesse, nota-se que há aspectos políticos dentro das práticas científicas de Boyle e em Hobbes há questões de fato – como as práticas de experimentação para a constituição do Leviatã. Assim, “Boyle possui uma ciência e uma teoria política; Hobbes uma teoria política e uma ciência” (LATOUR, 1994, p. 22).
As questões de fato (matter of facts) são os "ingredientes indiscutíveis da sensação ou da experimentação" (LATOUR, 2004, p. 379), isto é, aqueles elementos que não foram construídos e por isso são reais, ao passo que as questões de interesse são produzidas/ construídas, ou melhor, inventadas de forma artificial.
Para a ciência moderna há uma incompatibilidade entre os universos da ciência (questão de fato) e do social (questão de interesse). Sendo assim, as questões de fato têm a sua existência atentada pela ciência, mesmo que não se conheça verdadeiramente seu escopo. Enquanto que as questões de interesse rementem as 'ciências sociais' que são consideradas proscritas (LATOUR, 1994, 2008, 2012).
As ciências proscritas são aquelas consideradas falsas por terem suas origens e explicações relacionadas ao contexto social. Em oposição às ciências sancionadas que se separam de qualquer traço de contaminação, seja pelo contexto social, ideologia, ou até mesmo por seu passado (LATOUR, 1994).
Por outro lado, essa noção é rebatida ao apresentar os fatos científicos como construções (LATOUR; WOOLGAR, 1997), não no sentido mais comum do construcionismo social onde se substitui a realidade por uma entidade “social” sem saber ao certo o que seria esse social; mas para designar as associações que transformam o estado das coisas em algo mais duradouro ou estável e não absoluto (LATOUR, 2012). E, sendo assim, a ciência mostra-se como uma prática de construção de enunciados e de argumentação persuasiva por meio da inscrição
literária que possui grande similaridade a outras práticas sociais (LATOUR; WOOLGAR, 1997).
Na construção dos fatos científicos os cientistas valem-se dos dispositivos de inscrição que materializam os objetos de estudo por meio de diversos aparelhos manipuláveis, a exemplo do espectro, gráficos, figuras, etc. Isto é, consistem naqueles mecanismos que transformam uma substância material em algo que é utilizável, fornecendo os 'insumos' necessários para a elaboração dos diferentes tipos de enunciados.
Há todo um conjunto de operações que são estabelecidas entre os enunciados, além de que esses encontram-se vinculados a uma série de contextos contingentes. E a transformação do enunciado em um fato ocorre quando os atores, finalmente, convencem os leitores de que os enunciados são fatos científicos (LATOUR; WOOLGAR, 1997).
Assim, as proposições de Latour e Woolgar (1997) consideram os fatos científicos também como construções sociais e põe em cheque a separação entre natureza (questões de fato) e sociedade (questões de interesse).
Na verdade, para Latour (1994, 2013), Latour e Woolgar (1997), há uma extrema sobreposição entre os polos (natureza e sociedade), e esses fazem parte do mesmo plano ontológico, e um acaba por influenciar no outro. Dessa maneira, seria possível falar em algo puramente social? Ou mesmo em algo puramente natural?
Em muitas situações o que se percebe é um imbricamento entre esses. Assim, para Latour (2012), já não existem mais relações específicas o suficiente para serem chamadas de 'sociais' (ou culturais), isso porque o 'social' parece estar em todo lugar e em lugar nenhum.
De forma similar, ocorre com elementos apresentados como puramente ‘naturais’, aquilo que à primeira vista é considerado como verdadeiramente puro, e nada mais é do que um híbrido de natureza e cultura. Apesar dos polos existirem em suas respectivas constituições, quase sempre há um certo imbricamento na constituição do mundo a partir deles (LATOUR, 1994).
E ao tentar separar os elementos da natureza dos sociais, a ciência moderna acaba por produzir uma quantidade ainda maior de híbridos. Dessa forma, Latour (1994, 2008) enfatiza a importância da mediação que pode ser entendida como as relações práticas ou ações dos elementos situados entre os polos natureza e sociedade. E propondo, também, que tanto a natureza quanto a sociedade precisam ser explicadas nos mesmos termos. A explicação não pode ser concedida pela purificação que ignora os híbridos, mas pela mediação por meio dos quase-objetos e quase-sujeitos (LATOUR, 1994). Conforme pode-se observar na Figura 3, o
que a TAR propõe é diferente das explicações assimétricas oferecidas pelos modernos e do primeiro princípio de simetria desenvolvido por Bloor (1997).
Figura 3 - Simetria Generalizada
Fonte: Latour (1994, p. 94).
O conceito desenvolvido pela ANT assemelha-se ao princípio de simetria do programa forte de Bloor (1997). No entanto, Bloor (1997) acreditava que os mesmos tipos de causas explicam tanto as crenças consideradas verdadeiras como as falsas por meio de um processo de construção social, assim as explicações partiriam do social. Todavia, para Latour, Callon e Law, estas são dadas pela mediação por meio dos híbridos.
Partir dos quase-objetos e quase-sujeitos significa que ao invés de utilizar a natureza (explicações assimétricas – ciência moderna) ou a sociedade (programa forte de Bloor) como argumentos explicativos vale-se do ponto médio. O conhecimento só é possível a partir da
mediação, ou seja, utilizando os híbridos entre sociedade e natureza (LATOUR, 1994), sem ser adotada nenhuma definição a priori sobre o que é bom ou ruim, o que é verdadeiro ou falso.
O conhecimento é formado pela mediação, no sentido que não existe algo que possa ser visto como puramente social ou natural, assim, o recurso explicativo utilizado pela ciência moderna perde o sentido. A ciência moderna propõe uma produção de conhecimento sem passar pelas cadeias de mediação; porém, para Latour (1994, 2013), deve-se passar pelas mediações e compreender as redes de relações que produzem e constroem os objetos.
Desse modo, o conhecimento não se dá, simplesmente, por meio de um sujeito cognoscente de um lado e um objeto inanimado a ser desvendado do outro lado. O que ocorre são cadeias de referências que constroem o conhecimento por meio de uma mistura entre humanos e não-humanos (LATOUR, 2013).
O conhecimento tecido por meio da purificação sem deformação de seu conteúdo e sem considerar suas cadeias de relações e as redes são chamados de Duplo Clique (DC), por Latour (2013). Ao criticar os DC’s, Latour (2013) observa a mediação e translação como caminhos para entender a composição e produção dos objetos (LEMOS, 2016).
Dessa forma, além do princípio da simetria generalizada que trata os elementos que compõem a rede com os mesmos termos, há outros fundamentos imprescindíveis para entender as proposições tecidas pela ANT, a exemplo da translação. Essa auxilia a explicar como as associações são feitas e quais forças contribuem para que elas continuem unidas. Destarte, na seção seguinte é apresentada a translação.