COMPLIANCE IN WORK RELATIONS AS AN INSTRUMENT FOR THE FOSTERING OF A BALANCED WORK ENVIRONMENT
3 O PRINCÍPIO DO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO EQUILIBRADO
As normas que tratam da segurança e saúde no meio ambiente do trabalho são de ordem pública, ou seja, não podem ser afastadas pela vontade das partes.
Um dos princípios norteadores das relações de trabalho pode ser extraído do artigo 125 da CF/88, o qual dispõe que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-defendê-lo para as presentes e futuras gerações.
2 CANDELORO, Ana Paula P.; RIZZO, Maria Balbina Martins de; PINHO, Vinícius. Compliance 360º: riscos, estratégias, conflitos e vaidades no mundo corporativo. São Paulo: Trevisan Editora Universitária, 2012.
3 RIBEIRO, Marcia Carla Pereira; DINIZ, Patrícia Dittrich Ferreira. Compliance e Lei Anticorrupção. Ano 52 Número 205 jan./mar. 2015
67
CADERNO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO: DIREITO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO
Outrossim, o art. 170 da CF/88 dispõe como princípio geral da atividade econômica a valorização do trabalho. Desse modo, deve ser garantido ao empregado um meio ambiente do trabalho adequado e equilibrado que valorize a sua dignidade humana e força produtiva.
Segundo Guilherme Feliciano5 a garantia constitucional de um meio ambiente
do trabalho equilibrado deve assegurar, de forma instrumental ao gozo dos demais direitos subjetivos, a tutela da vida e da integridade física e psicossomática dos trabalhadores. Isso porque, a inviolabilidade do direito à vida e à segurança constituem garantias expressamente arroladas no art. 5o, caput, da CF/88.
Feliciano apresenta a seguinte definição de meio ambiente do trabalho: “é o conjunto (= sistema) de condições, leis, influência e interações de ordem física, química, biológica e psicológica que incidem sobre o homem em sua atividade laboral, esteja ou não submetido ao poder hierárquico de outrem”.
Portanto, uma das premissas que deve ser observada para a garantia de um meio ambiente do trabalho de forma equilibrada é o modo em que o empregador irá exercer o seu poder diretivo. Em síntese para Fernando Maciel o poder diretivo define-se, como:
o atributo titularizado pelo empregador que, ao assumir os riscos da atividade econômica, possui, dentre outras prerrogativas, a autonomia para determinar o modo de execução das atividades a serem desempenhadas pelos seus empregados, prerrogativa essa que possui fundamento constitucional no princípio da livre iniciativa positivado no caput do art. 170 da CF/886.
Para Amauri Mascaro Nascimento o poder diretivo consiste na “faculdade atribuída ao empregador de dirigir o modo como a atividade do empregado é
5 O meio ambiente do trabalho e a responsabilidade civil patronal: reconhecendo a danosidade sistêmica. In: FELICIANO, Guilherme Guimarães, et. al. (Org.). Direito ambiental do trabalho: apontamentos para uma teoria geral. Vol. 1, São Paulo: LTr, 2013, p. 13.
6 MACIEL, Fernando. O conflito entre livre iniciativa versus meio ambiente do trabalho equilibrado: uma análise à luz da “fórmula peso” de robert alexy. In Caderno de Resumo do 60 Congresso de Pesquisa e Iniciação Científica do UDF, 2016, pp 331-353.
exercida em decorrência do contrato de trabalho e no âmbito da atividade empresarial”7.
Para Nilson Nascimento8 o poder diretivo consiste em uma faculdade designada ao empregador ao se harmonizar fatores de produção, trabalho e capital. Contudo, essa harmonia não pode primar pelo capital, ou seja, lucro desmedido por parte do empregador, uma vez que o trabalho se denota ferramenta de desenvolvimento de todo sistema humano.
Desse modo, o exercício do poder diretivo é uma prerrogativa do empregador, o qual assume os riscos da atividade econômica. Contudo, o exercício de tal poder além dos limites do razoável ocasiona a degradação do meio ambiente do trabalho, o que além de atingir diretamente a intimidade do trabalhador, prejudica toda a sociedade, ante o acometimento de acidentes de trabalho ou doenças ocupacionais, as quais oneram de forma substancial o equilíbrio financeiro do INSS9.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, estima-se que todos os anos, em âmbito mundial, ocorrem 160 milhões de casos de doenças não mortais ligadas à atividade profissional. Ainda, de forma espantosa, acredita-se que cerca de 4 % (quatro por cento) do produto interno bruto mundial (pib), ou seja, cerca de 2,8 trilhão de dólares, são perdidos por ano em custos diretos e indiretos devido a acidentes de trabalho e doenças relacionadas com o trabalho10.
Ainda nesse contexto, o observatório digital de saúde e segurança do trabalho do MPT afirma que foram perdidos 351.796.758 dias de trabalho desde 2012 até 2018, em razão de afastamentos previdenciários acidentários. Ademais, estimou-se
7 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho: história e teoria geral do direito do trabalho: relações individuais e coletivas de trabalho. 24. ed. rev., atual e ampl. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 660-664.
8 NASCIMENTO, Nilson de Oliveira, Manual do poder diretivo do empregador. 2008, p. 88. LTR, São Paulo;
9 CARVALHO, Eduardo Antonio Dória. A necessidade do duplo objetivo das alíquotas do seguro
69
CADERNO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO: DIREITO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO
que desde 2012 até 2018 ocorreram 1 morte a cada 3h 43m 42s, sendo que 16.455 mortes acidentárias foram notificadas no período 2012-201811.
Ante o exposto, verifica-se que um meio ambiente do trabalho desequilibrado poderá atingir diretamente a integridade física e psíquica dos trabalhadores, além de ocasionar danos para a empresa e toda a sociedade.
De acordo com Ferreira e Bezerra o poder diretivo deve ser exercido com moderação, sem abuso ou exposição do trabalhador a situações vexatórias, para que os direitos fundamentais do trabalhador, nesta condição e como indivíduo, sejam respeitados e não violados, com a promoção da dignidade humana12.
Portanto, o exercício do poder diretivo empresarial sofre restrições em face da aplicabilidade horizontal dos direitos fundamentais. Desse modo, a Atividade laboral deve ser vista como fator de dignidade humana e valorização do ser humano.
Uma das obrigações do empregador previstas na CLT é cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho e instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais.
O descumprimento de tais regras pode gerar prejuízos para a empresa, como autuação pela fiscalização do trabalho, por descumprimento da legislação trabalhista e rescisão indireta dos contratos de trabalho, com fundamento no art. 483, alínea c ou d, da CLT.
Para o vice procurador-geral do MPT, Luiz Eduardo Bojart, “não se desenvolve um país, não se cria uma cidadania, matando ou adoecendo os
11 SMARTLAB. Observatório digital de saúde e segurança do trabalho. 2018. Disponível em: <https://observatoriosst.mpt.mp.br/>. Acesso em: mai. 2019.
12 BEZERRA, Christiane Singh; FERREIRA, Gabriela Cerci Bernabe. Considerações sobre o poder diretivo do empregador sob a ótica do contrato de trabalho e dos direitos fundamentais do
trabalhador. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XV, n. 98, mar 2012. Disponível em:
<http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=11296&revista>. Acesso em maio 2019.
trabalhadores. Temos que pensar em um desenvolvimento que seja socialmente sustentável”13.
Vê-se assim que o poder diretivo patronal tem um grande impacto sobe os contratos de trabalho, os quais não podem ofender a intimidade do trabalhador, ou qualquer outro instituto tutelado no artigo 5º, da CF/88.