3 O ROMPIMENTO DA BARRAGEM EM BRUMADINHO
4 A RESPONSABILIDADE TRABALHISTA NA CATÁSTROFE LABOR-AMBIENTAL
Os princípios ambientais têm o escopo reduzir a incidência de acidentes de trabalho quando obedecidos. Outra forma de se evitar as catástrofes é observando as diretrizes do trinômio: fiscalização, prevenção e punição.
A fiscalização e a prevenção foram postas de lado, conforme tópico supra, então resta à análise da punição, em respeito ao princípio do poluidor-pagador. Tão importante quanto as anteriores, mas menos eficaz.
Sabe-se que a punição com objetivo de restaurar o meio ambiente dificilmente, e nesse caso impossível, alcança o status quo, por ser impossível mensurar todos os danos ou efetivamente recupera-los.
Mas isso não reduz a importância de responsabilizar com vigor o poluidor (não só a empresa, mas também as pessoas físicas), porque a impunidade incentiva à reincidência. Inclusive, neste caso, a impunidade em Mariana é mais causa do que consequência agora em Brumadinho.
25 PAULO, Paula Paiva. G1 São Paulo. Vale pediu autorização para obras que colocavam barragem em
<https://g1.globo.com/mg/minas-37
CADERNO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO: DIREITO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO
O que quer se dizer é: agora que o meio ambiente já está poluído, com centenas de trabalhadores mortos, resta apenas a punição e o pagamento de valores à altura da gravidade do crime como forma de coibir nova reincidência e amenizar os efeitos sociais dos parentes dependentes.
Nos termos conclusivos do capítulo anterior, o caso em Brumadinho trata de crime humanitário, seja pelo risco assumido pela empresa em detrimento da prevenção, seja por manter as atividades laborais mesmo sabendo do risco eminente de rompimento da barragem, e por isto deve ser tratado sob a ótica de responsabilidade objetiva.
Ou seja, a responsabilidade da Vale é automática, sem necessidade de análise de culpabilidade, na forma do art. 225, § 3º, da CF e art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/91, até mesmo nas questões de competência trabalhista. Não se aplica o disposto no art. 7º, XXVIII, da CF, que prevê responsabilidade civil subjetiva em razão de dano tópico ao trabalhador, porque não trata de simples acidente de trabalho (stritu sensu), mas de lesão abusiva sistêmica ao meio ambiente de trabalho como um todo26.
A responsabilidade pela poluição do meio ambiente do trabalho causa consequências jurídicas, em suma, de competência civil, pelas perdas matérias e morais individuais e coletivas da cidade afetada, em razão das perdas ambientais naturais e artificiais, competência administrativa, pelas multas ambientais, competência tributária, pela redução injusta da arrecadação, competência penal pela violação do art. 54, da Lei nº 9.605/98, competência previdenciária, pela necessidade de ressarcimento ao INSS, dos benefícios acidentários e pensões por morte, causados pela ilegalidade pela empresa, e competência trabalhista, tanto para os empregados diretos, como para os terceirizados.
O primeiro aspecto trabalhista é a necessidade de emissão de Comunicação de Acidentes de Trabalho (CAT) pela Vale, porquanto trata de acidente do trabalho (latu sensu), com resultado morte, na forma do art. 19, da Lei nº 8.213/91. Frise-se que não há falar em desastre natural (que afastaria a necessidade de CAT), porquanto o crime ocorreu por ação direta e exclusiva do empregador.
26 FELICIANO, Guilherme Guimarães. PASQUALETO, Olívia de Quintana Figueiredo. Amianto, Meio
Ambiente do Trabalho e responsabilidade civil do empregador. Revista da Faculdade de Direito,
O dano material trabalhista são os valores da rescisão indireta (férias e 1/3, 13º salário, saldo salarial, etc.); pagamento das despesas com tratamento das vítimas, funeral e luto da família; prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia27; lucros cessantes na forma de pensão vitalícia, etc.
A Vale deve ser responsabilizada por reparar os danos morais, estéticos e materiais dos empregados e familiares em dois momentos distintos: individualmente e coletivamente; ou seja, cabe a empregadora indenizar tanto cada um dos funcionários afetados, como também pagar indenização pelo dano coletivo.
A cumulação dos danos morais individuais e coletivos não traduz em bis in idem, porque tratam de indenizações com naturezas jurídicas distintas, e destinam-se a reparar direitos diversos, com destinatários diversos. Enquanto um indeniza o trabalhador individual, a outra indeniza a sociedade, destinada a fundo comum.
O quantum indenizatório sofrerá difícil batalha judicial, ante o disposto no 223-G, §1º, I a IV, da CLT, que limita o valor da reparação, com base no salário dos trabalhadores. A preocupação com o valor indenizatório vai muito além do que é justo ou injusto, de equidade ou impacto na vida dos afetados. O foco é o respeito ao princípio do poluidor-pagador.
A recuperação ambiental natural e artificial pela seara civil, não recuperará a poluição trabalhista, que na verdade sequer tem como ser reparada. A punição indenizatória agora é a única consequência que o empregador sofrerá neste sentido. Então, a indenização trabalhista não será para ressarcir o prejuízo, mas para exclusivamente punir o poluidor, na esperança de reprimir a re-reincidência.
Assim, a indenização deve ser em igual proporção à hediondez do crime contra a humanidade, não sendo aqui plausível assegurar a razoabilidade e o cuidado com o potencial econômico da empresa (a não ser que seja para majorar o valor), menos ainda respeitar teto inconstitucional estabelecido na Reforma Trabalhista.
Em outras palavras, de forma direta, não se pode sobrepesar os impactos na continuidade empresarial para estipular o quantum indenizatório trabalhista, muito
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menos submetê-la ao comando inconstitucional do art. 223-G, da CLT, ao revés, o texto de lei deve ser declarado inconstitucional e afastado, bem como por obviamente não existir interesse social/coletivo na manutenção de empresa dolosamente poluidora é necessário valores “exorbitantes” como forma de punição efetiva.