5.3 A ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO NOS CICLOS: O
5.3.1 Principais problemas constatados na escola
Observando o trabalho pedagógico na escola, constatamos: a) Em relação aos objetivos:
Os objetivos da prática esportiva não são definidos com clareza, e de uma maneira geral distancia-se dos objetivos escolares.
Os objetivos traçados pelo ensino esportivo escolar são muitas vezes abrangentes e acompanham o Projeto político- pedagógico da escola, mas o que percebemos nas práticas atuais é que estes objetivos proclamados não correspondem, não são avaliados, ou, em muitos casos, são desconhecidos pelos profissionais que atuam no esporte escolar.
De acordo com o Relatório avaliativo dos jogos escolares da Bahia (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 2007, p. 20):
As contradições explicitadas e realçadas, neste momento, se dão entre a Instituição Esporte e suas relações com a Educação. Neste eixo articulam- se outras questões, como, por exemplo, os interesses políticos e econômicos de exploração de mercados em expansão – mercado esportivo – fazendo-o a partir da escola, local privilegiado para sua introdução e ampliação, afinal é ali que devem circular durante 14 anos todas as pessoas que vivem sob os auspícios da República Federativa do Brasil, cuja Constituição promulgada em 1988 assim o exige. A estratégia para tal é a máxima: “Escola é celeiro de atletas” ou, como denominam, no Nordeste, lócus privilegiado para “captação de atletas”.
b) Em relação à Avaliação:
Segundo relato apresentado pelos professores do curso de especialização, inexiste uma avaliação dessa efetiva participação dos alunos e dos conteúdos tratados nas aulas de Educação Física escolar. Em relação aos professores, a avaliação está
prevista para ser realizada nas reuniões pedagógicas, porém, pelo relato da maioria destes professores, a Educação Física não é tema dessas reuniões.
c) Em relação à estrutura física esportiva:
Quadras polivalentes, quando existentes, estão em condições de uso precárias, pois apresentam pisos defeituosos, tabelas de basquete quebradas, danificadas pela exposição ao tempo, postes de vôlei sem roldanas nas suas extremidades, redes de náilon ressecadas e rompidas, traves de futsal com ferrugem nos ganchos que prendem as redes. Bolas esportivas em pouca quantidade e em sua maioria desgastadas e soltando os pedaços, etc.
d) Em relação aos tempos pedagógicos:
As aulas de Educação Física são ministradas em período único de 50 minutos por semana e no mesmo turno escolar, o que se constitui em problemas para os alunos (segundo relato dos professores em visita dos alunos da especialização às escolas), pois estes alunos não encontram uma estrutura de banheiros que lhes permitam recompor após as aulas.
Percebe-se que a constatação dos professores é desprovida de uma avaliação com os maiores interessados, pois os problemas apontados pela maioria dos alunos, e dos professores da especialização, apontam para a necessidade de manutenção do atual horário, pois boa parte desta clientela necessita de pelo menos um turno disponível para trabalhar.
e) Em relação ao conteúdo das aulas:
O trato com o conteúdo de ensino é comprometido pela ausência de sistematização, pela reprodução de modelos sedimentados e aplicados sem questionamentos, por falta de planejamento, por falta de nexos com o projeto político-pedagógico da escola, o que deixa o ensino esportivo à margem dos objetivos escolares.
A forma como o esporte coletivo é ensinado nos mais variados locais, (clubes esportivos, centros de treinamento, escolas de iniciação esportiva e na rede escolar
pública e privada) apresenta sérias contradições do ponto de vista teórico- metodológico.
Ao presenciarmos estas aulas, como militante do esporte, pai participativo, professor e ex-técnico esportivo, identificamos muitas incoerências, tais como: - Fragmentação do ensino – O esporte é ensinado através de um processo de
desmembramento das ações. Arremessos, passes e dribles são ensinados separadamente e de uma maneira que retira dos alunos as suas possibilidades de encontrar respostas criativas frente às suas próprias dificuldades. Decompõe-se o movimento para facilitar sua aprendizagem.
- A educação física deve oferecer a seus alunos atividades com maior liberdade na escolha de respostas que possibilitem decisões rápidas e eficientes. (RIBEIRO, 2001)
- A iniciação esportiva prima por exercícios individuais e ofensivos relegando os exercícios coletivos e defensivos a uma etapa posterior. Os exercícios individualizados, por sua vez, são ministrados de forma que todos os alunos assistam à execução do colega, filas imensas são formadas, parece que existe uma necessidade do professor acompanhar, também individualmente, a execução de cada um dos alunos com uma previsível possibilidade de corrigir os movimentos executados, garantindo, desta forma, a execução padronizada através do modelo indicado, normalmente a execução do próprio professor (um praticante, ou ex-praticante) ou de um aluno mais habilidoso.
- Os jogos coletivos, ao final de cada aula, reproduzem um jogo oficial, principalmente pela garantia da obediência incontestável às regras do esporte institucionalizado, retirando a motivação e a criatividade dos alunos, pois o jogo é muitas vezes interrompido para garantir esta obediência, ou, até mesmo, excluindo os menos habilidosos para tornar o jogo mais dinâmico ou competitivo.
- A depender da fase de desenvolvimento das habilidades em que se encontram os alunos, normalmente muito diferenciados em função dos grupos heterogêneos que são formados, a atividade Jogo acaba por se tornar desmotivadora diante da
rigorosidade com que as regras são tratadas, inibindo uma participação mais efetiva.
f) A falta de contextualização:
O ensino esportivo não está acompanhado:
- de uma reflexão sobre o momento histórico de sua invenção;
- da compreensão dos processos que transformaram o esporte nesse fenômeno esportivo da atualidade;
- da forma como o esporte foi utilizado, e ainda é utilizado, no atendimento a pressupostos econômicos ou ideológicos em cada contexto histórico-político; - ou ainda pela ausência de conteúdos e curiosidades de sua evolução, (a
exemplo o fato do jogo de handebol ter primeiramente sido praticado no campo de futebol, o basquete ter sido jogado primeiramente com 40 jogadores de cada lado ou, o voleibol ter sido jogado com a câmara de ar da bola de basquete, etc.).
Uma das maneiras de contextualizar o ensino esportivo é reproduzir um determinado momento histórico da sua gênese ou evolução. Como exemplo prático, poderíamos reproduzir a maneira como um determinado esporte era praticado na sua origem, ou ainda, representando um determinado momento histórico (guerra fria), que caracterizava o esporte como vitrine política de supremacia, como também, pela dramatização onde o esporte seria jogado de acordo com as suas regras iniciais, recuperando, vestimentas da época, os implementos utilizados, etc.
No trabalho realizado pelos alunos matriculados na disciplina MTE-033-Prática de Ensino com Estágio Supervisionado em Educação Física de 5ª a 8ª série, orientada pelo professor Álvaro Quelhas e oferecida pela FACED/UFJF26 temos um belo exemplo de contextualização.
Esta experiência foi vivenciada numa escola municipal da cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, com alunos matriculados em uma turma da 7ª série do ensino
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fundamental. Essa experiência foi realizada durante o primeiro semestre do ano de 2005.
g) A constatação, dados empíricos:
Os alunos da disciplina estágio supervisionado ao chegarem à escola identificaram que na estrutura física desta, a área para a prática esportiva não continha as tabelas e os aros para a prática do basquetebol e decidiram trabalhar a unidade didática basquete, desenvolvendo como temática das aulas, a “democratização” dos bens culturais.
O diálogo com os alunos da escola os fez reconhecer esse conteúdo da cultura corporal como algo “não acessível” a todos, já que na escola e nas comunidades próximas a ela, não há espaço específico para essa prática. Reconheceram também que, mesmo pelos meios de comunicação de massa, tal manifestação é escassa, se restringindo muitas vezes apenas aos canais “fechados” da TV. Após questionamento sobre o que fazer diante dessa situação, os alunos sugeriram adaptar a quadra da escola, pendurando aros improvisados nas laterais da quadra. De acordo com o Dossiê sobre reestruturação curricular do curso de Educação
Física e implantação do curso noturno (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 2003, p. 2):
[...] A problematização a ser trabalhada na unidade didática partiu da idéia de que diversos bens culturais, dentre eles o basquete, não são “acessíveis” a todas as camadas sociais, o que caracteriza um problema que merece atenção. Nesse sentido, buscamos identificar quais manifestações culturais não são “acessíveis”, por que não são “acessíveis” e o que podemos fazer para “democratizar” esses bens culturais.
Ainda segundo o documento, as aulas foram organizadas de modo a trabalhar os seguintes tópicos: origem e evolução do basquete; basquete na atualidade: técnicas, táticas e regras; a apropriação dos bens culturais, dentre eles o basquete. Diz também que:
[...] No decorrer da unidade, reunimos dados para que os educandos pudessem adquirir referências importantes para tratar do tema-problema com mais propriedade. Ex: pesquisas para identificar as necessidades do bairro e o que a comunidade tem feito para resolver esses problemas; pesquisas para identificar onde estão localizados os cinemas, teatros, quadras de basquete, etc. identificando se são públicos ou privados; utilização de matérias de jornais e revistas, relacionadas ao tema; além de diversas reflexões. (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 2003, p. 21)
Apresentaram como conclusão que as comunidades menos favorecidas da população não têm “acesso” a diversas manifestações culturais como: cinema, teatro, basquete, etc. E que essas manifestações são oferecidas em locais distantes da comunidade e, na grande maioria dos casos, estão vinculadas a instituições privadas. Os educandos também apontaram que a democratização dos bens culturais requer reivindicação, por meio de abaixo-assinado e/ou manifestações. Este trabalho demonstra que a E.F. pode assumir uma perspectiva crítica. Para isso, as dificuldades encontradas no caminho da mudança devem ser tidas como algo que pode ser superado.
Iniciativas como estas contrastam com a realidade das escolas e com as posturas apresentadas pelos professores que utilizam o esporte como conteúdo da educação física escolar, que podem ser consideradas ingênuas e desmotivadoras principalmente pelas precárias condições de trabalho e pela baixa remuneração, que ocorrem numa ampla parcela dos estabelecimentos de ensino.