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Desenvolvimento e Adaptação nos Primeiros Anos de Vida

2. Desenvolvimento Normal

3.2. Problemas de comportamento

Os estudos sobre problemas socio-emocionais e de comportamento nos primei-

ros anos de vida têm utilizado metodologias diversas e sistemas de diagnóstico diferen-

tes, encontrando uma prevalência de problemas que varia entre os 14 e os 26.4%, que é

muito semelhante para problemas socio-emocionais e de comportamento (Egger &

Angold, 2006). A prevalência de problemas encontrada é equivalente ao encontrado

noutras etapas da vida, mas o padrão de perturbações revelou algumas especificidades:

taxas mais elevadas de perturbação de ansiedade de separação e de oposição e mais bai-

xas de depressão (Egger & Angold, 2006). Por outro lado, verifica-se uma grande

comorbilidade na ocorrência de problemas socio-emocionais e de comportamento

durante esta etapa do desenvolvimento (Egger & Angold, 2006).

Os problemas socio-emocionais e de comportamento mais frequentes durante os

primeiros anos de vida relacionam-se com a perturbação de hiperatividade e défice de

atenção, perturbação de oposição, perturbações de ansiedade e perturbação depressiva.

A maior parte da investigação sobre a psicopatologia da criança pequena tem focado os

comportamentos disruptivos ou de externalização, nomeadamente os problemas de opo-

sição e de atenção. Os comportamentos disruptivos representam a forma mais frequente

de problemas de comportamento nesta fase do desenvolvimento (Tremblay, 2010;

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73 73 73 73 ças de idade pré-escolar constitui um preditor significativo de problemas de comporta-

mento em fases posteriores (Pierce, Ewing, & Campbell, 1999).

Segundo dados internacionais, o diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e

Défice de Atenção (PHDA) parece ser o mais frequentemente atribuído a crianças

pequenas atendidas em serviços de saúde mental, mas apenas cerca de 3 a 6% das crian-

ças cumpre os critérios de diagnóstico para esta perturbação (Egger & Angold, 2006;

Wilens et al., 2002). Muito embora alguns sintomas de PHDA sejam considerados nor-

mativos na criança pequena, os estudos sugerem que os critérios de diagnóstico do

DSM serão apropriados para a identificação do problema e distinção de variações nor-

mativas nesta etapa do desenvolvimento (Egger & Angold, 2006; Egger, Kondo, &

Angold, 2006). Por outro lado, existe alguma evidência de que as manifestações desta

perturbação tenderão a manter a sua forma básica ao longo do desenvolvimento (Angold

& Egger, 2007).

No que se refere às perturbações de oposição e da conduta, tem havido grande

discussão em torno destes diagnósticos em crianças pequenas, nomeadamente pela natu-

reza diferente das manifestações e incapacidade da criança pequena para exibir alguns

dos comportamentos que integram os critérios de diagnóstico (Keenan & Wakschlag,

2000). A evidência disponível aponta que os critérios de diagnóstico do DSM-IV identi-

ficam grupos de crianças com comportamentos clinicamente significativos e que a

maioria dos sintomas pode ser avaliada nesta etapa do desenvolvimento, embora sejam

sugeridas algumas adaptações (Keenan & Wakschlag, 2002, 2004; Keenan et al., 2007).

A prevalência encontrada para estas perturbações é muito variável, indo de 4 a 16.8%

para a perturbação de oposição e de 0 a 4.6% para a perturbação da conduta (Egger &

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Relativamente aos problemas de internalização, tem havido muito menos inves-

tigação, nomeadamente pela dificuldade da criança pequena em comunicar as suas emo-

ções ou pela dificuldade dos adultos para as identificarem como problemáticas. Contu-

do, alguns trabalhos apontam que os sintomas e perturbações de ansiedade e depressão,

tal como definidos no DSM, podem ser identificados em crianças pequenas, embora

com algumas especificidades em termos de organização (Kashani, Allan, Beck,

Bledsoe, & Reid, 1997; Spence, Rapee, McDonald, & Ingram, 2001). Na idade pré-

escolar, são descritas taxas de cerca de 10% para os problemas emocionais, especifica-

mente de 0-2% para a perturbação depressiva major e de 9.4% para perturbações de

ansiedade (Egger & Angold, 2006). De qualquer forma, a falta de evidência sobre a

estabilidade temporal dos problemas emocionais da criança pequena mantém em aberto

a discussão quanto à validade das categorias de diagnóstico correspondentes (Egger &

Angold, 2006).

Independentemente da abordagem de classificação utilizada, existe evidência de

que a partir do segundo ano de vida se regista um aumento da estabilidade nos proble-

mas de comportamento. Embora uma percentagem importante de crianças ultrapasse

estes problemas, os estudos longitudinais sugerem que 50 a 60% das crianças que mos-

tram comportamentos disruptivos entre os 3 e os 4 anos continuarão a manifestar esses

problemas na idade escolar (Campbell, Pierce, Moore, Marakovitz, & Newby, 1996;

Campbell, Shaw, & Gilliom, 2000; Campbell, 1995; Lavigne et al., 1998; Lavigne,

Gibbons, et al., 1999; Pierce et al., 1999; Shaw, Gilliom, Ingoldsby, & Nagin, 2003;

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4. O Caso dos Problemas de Sono

Tradicionalmente, os problemas de sono não têm sido abrangidos nos trabalhos

sobre perturbações mentais da criança pequena. Contudo, não só os problemas de sono

estão contemplados nas diferentes classificações diagnósticas, como um sono adequado

tem sido cada vez mais reconhecido como um pilar da saúde física e mental (Dahl,

1996; Taylor, Lichstein, & Heith, 2003). Aliás, adotando a abordagem holista da saúde

pública à saúde mental, o sono infantil constitui um aspeto transversal ao bem-estar da

criança e um dos domínios tradicionais de intervenção em Psicologia Pediátrica. Para

além disso, algumas iniciativas dirigidas à promoção do desenvolvimento da criança

pequena incluem objetivos e estratégias focados na melhoria dos hábitos e padrões de

sono (e.g., Healthy People 2020, U.S. Department of Health and Human Services,

http://www.healthypeople.gov/2020/topicsobjectives2020/objectiveslist.aspx?topicId=1 0). Estes aspetos justificam a abordagem do sono infantil nesta secção.

O sono constitui uma necessidade básica dos indivíduos, assumindo uma impor-

tância particular durante os primeiros anos de vida, pelo seu papel no crescimento e

desenvolvimento da criança (Stein & Barnes, 2002). Por outro lado, as tarefas associa-

das ao sono constituem fundamentos importantes para o desenvolvimento da auto-

regulação (Stein & Barnes, 2002). Ao mesmo tempo, algumas especificidades desta fase

de desenvolvimento trazem um conjunto de desafios ao estabelecimento e manutenção

de bons hábitos e padrões de sono.

Durante os primeiros anos de vida, a alteração dos ciclos de sono e a diminuição

progressiva do sono diurno contribuem para a consolidação do sono noturno. Contudo,

aspetos como a ansiedade de separação, os medos noturnos, o aumento da mobilidade e

interesse pelo mundo e o desenvolvimento de competências cognitivas e de linguagem

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deitar e os despertares noturnos (Centre for Community Child Health, 2006a; J. Owens

& Witmans, 2004). Na verdade, as dificuldades relacionadas com o sono contam-se

entre as preocupações mais frequentes dos pais de crianças pequenas (Arndorfer, Allen,

& Aljazireh, 2000; Mindell, 1999; J. Owens & Witmans, 2004).

Durante a primeira infância e idade pré-escolar, os problemas de sono são

comuns e universais (Owens, 2004). Embora tradicionalmente se tenha considerado que

os problemas de sono ocorriam com maior frequência em bebés (Thunström, 1999;

Wake et al., 2006), alguns estudos têm descrito uma prevalência elevada na idade pré-

escolar (Anders & Eiben, 1997; Kerr & Jowett, 1994; Petit, Touchette, Tremblay,

Boivin, & Montplaisir, 2007). De acordo com estimativas internacionais, 20 a 30% das

crianças experiencia um problema de sono em algum momento durante a infância

(Owens, 2008).

Os problemas de sono infantis têm um impacto negativo na saúde e bem-estar da

criança e da família (Cao & Guilleminault, 2008; Fallone, Owens, & Deane, 2002;

Gregory, Van der Ende, Willis, & Verhulst, 2008; Thunström, 1999, 2002; Wake et al.,

2006) e parecem persistir em etapas posteriores da vida da criança (Pollock, 1994). Tais

problemas têm sido associados a um aumento dos problemas de comportamento (Bates,

Viken, Alexander, Beyers, & Stockton, 2002; Fallone et al., 2002; Gregory & Sadeh,

2012; Gregory et al., 2008; Komada et al., 2011), a dificuldades no funcionamento cog-

nitivo e aprendizagem (Touchette et al., 2007) e a maior risco de acidentes e obesidade

infantil (Bell & Zimmerman, 2010; Koulouglioti, Cole, & Kitzman, 2008; Touchette et

al., 2008). Estes problemas têm também sido associados à ocorrência de perturbações

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77 77 77 77 4.1. Classificação dos problemas de sono de natureza comportamental

Os problemas de sono infantis podem ser classificados em três categorias princi-

pais: insónia, sonolência diurna excessiva e parassónias. Durante os primeiros anos de

vida, os problemas de sono de natureza comportamental mais comuns relacionam-se

com a consolidação do sono, assumindo manifestações como dificuldades para adorme-

cer, resistência ao deitar e despertares noturnos (J. Owens & Mindell, 2011). Aproxi-

madamente 20 a 30% das crianças com 1 a 3 anos e 10 a 15% das crianças com 4 a 5

anos apresentam dificuldades significativas para adormecer e despertares noturnos (Kerr

& Jowett, 1994; Meltzer & Mindell, 2008; Mindell, Meltzer, Carskadon, & Chervin,

2009; Sadeh, Mindell, Luedtke, & Wiegand, 2009). Nesta secção, iremos abordar ape-

nas estes problemas.

Considerando apenas os problemas de consolidação do sono de natureza com-

portamental (i.e., dificuldades no início do sono e despertares noturnos), a sua definição

na literatura empírica tem sido orientada por diferentes abordagens. Alguns autores uti-

lizam definições a priori dos problemas de sono, outros baseiam-se em comparações

com amostras normativas, outros baseiam-se na perceção parental do problema (J.

Owens & Witmans, 2004; J. Owens, 2008). As tentativas mais recentes para desenvol-

ver uma classificação dos problemas relacionados com a consolidação do sono em

crianças pequenas têm recorrido a comportamentos específicos em função do grupo

etário. Gaylor, Burnham, Goodlin-Jones e Anders (2005) propuseram uma classificação

desenvolvimentista dos problemas de sono das crianças pequenas, distinguindo os crité-

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Tabela 1

Classificação das protodissonias extrínsecas na criança pequena (24 meses ou mais)

Problema Critérios Severidade

Dificuldade no adormecer

(2 ou mais critérios)

> 20 minutos para ador-

mecer

Adulto presente no quarto

para adormecer

> 1 situação de resistência

(e.g., chama, protesta, debate-se)

a) Alteração (Perturbation)

(1 episódio por semana durante 1 mês)

b) Problema (Disturbance)

(2-4 episódios por semana durante 1 mês)

c) Perturbação (Disorder)

(5-7 episódios por semana durante 1 mês)

Despertares noturnos ≥ 1 despertar por noite ≥ 20 minutos acordado

durante a noite

Adaptado de “A longitudinal follow-up study of young children's sleep patterns using a developmental classification system”, por E. Gaylor, M. Burnham, B. Goodlin-Jones e T. Anders, 2005, Behavioral

Sleep Medicine, 3 (1), p. 47. Copyright 2005, Lawrence Erlbaum Associates, Inc.

De acordo com a Classificação Internacional dos Problemas de Sono (American

Academy of Sleep Medicine, 2005), a insónia comportamental pode ser dividida em três

subtipos: perturbação de associação do início do sono, perturbação do sono relacionada

com o estabelecimento de limites e perturbação do sono de tipo combinado.

A perturbação de associação do início do sono implica que a criança aprende a

adormecer apenas com determinadas condições ou associações, como a presença ou

envolvimento dos pais, e não desenvolve a capacidade de adormecer sozinha. Esta asso-

ciação tem também impacto no comportamento da criança durante a noite, na medida

em que sempre que acorda solicitará o mesmo tipo de condições para voltar a adorme-

cer. Os critérios de diagnóstico incluem: (1) período de latência do sono prolongado e

requerendo determinadas condições; (2) condições de início do sono exigentes; (3) atra-

so significativo do início do sono na ausência dessas condições; (4) necessidade de

intervenção dos pais para voltar a adormecer na sequência de despertares noturnos

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79 79 79 79 mais comum durante os primeiros três anos de vida, afetando 10-30% das crianças

durante esse período (J. Owens & Mindell, 2011; J. Owens & Witmans, 2004).

A perturbação do sono relacionada com o estabelecimento de limites é caracte-

rizada pela dificuldade em adormecer associada a resistência ao deitar e adiamento,

resultando em períodos alargados de latência do sono. A resistência ao deitar manifesta-

se por resistência em preparar-se para ir para a cama, ir para a cama ou manter-se na

cama, sendo muitas vezes acompanhada de birras e protestos. O adiamento manifesta-se

por pedidos repetidos de atividades adicionais (e.g., mais uma história, mais um pro-

grama de televisão), atenção (e.g., mais um abraço) ou satisfação de necessidades (e.g.,

mais um copo de água, mais uma ida à casa de banho). Neste subtipo de insónia com-

portamental, depois de adormecer a criança tem habitualmente um sono de qualidade

normal. Estes problemas estarão associados à tendência normal da criança em testar

limites, à dificuldade dos pais em estabelecer regras e rotinas de deitar consistentes e em

alguns casos a comportamentos de oposição da criança mais marcados (Meltzer &

Mindell, 2008; J. Owens & Witmans, 2004). Os critérios de diagnóstico desta perturba-

ção incluem: (1) dificuldade em iniciar o sono; (2) adiar ou recusar ir para a cama ou

dormir; (3) falta de limites por parte dos pais relativos à hora de dormir e comportamen-

tos de sono (American Academy of Sleep Medicine, 2005). Esta forma de perturbação

do início do sono é mais comum na idade pré-escolar (Meltzer & Mindell, 2008; J.

Owens & Witmans, 2004).

Independentemente da abordagem utilizada para definir os problemas de sono da

infância, é preciso considerar que estes ocorrerão ao longo de um contínuo de severida-

de e cronicidade, incluindo problemas transitórios e perturbações que cumprem critérios

de diagnóstico (J. Owens & Witmans, 2004; J. Owens, 2008). Por outro lado, é essen-

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criança e o impacto dos mesmos na família (Owens, 2008; Owens & Witmans, 2004).

Na verdade, mesmo dificuldades normativas, moderadas ou transitórias podem ser per-

cebidas pelos pais como um problema e implicar um impacto significativo no funcio-

namento familiar. Pelo contrário, problemas de sono clinicamente significativos e diag-

nosticáveis podem não ser avaliados pelos pais como tendo qualquer impacto na famí-

lia.

A evidência empírica sobre o reconhecimento de problemas de sono pelos pais

tem apontado que a perceção dos pais acerca do sono da criança é influenciada pelos

conhecimentos, expectativas, crenças e normas culturais (Sadeh, Mindell, & Rivera,

2011). Por outro lado, o julgamento dos pais acerca do sono da criança tende a ser ligei-

ramente mais tolerante do que os critérios de diagnóstico de problemas de sono

(Thunström, 1999). Os resultados de estudos transculturais mostraram diferenças signi-

ficativas na prevalência de problemas de sono reconhecidos pelos pais, com pais de paí-

ses asiáticos a identificar mais problemas do que os pais de países predominantemente

caucasianos (Sadeh et al., 2011).