Desenvolvimento e Adaptação nos Primeiros Anos de Vida
2. Desenvolvimento Normal
4.2. Sono e comportamento parental
4.2.1. Qualidade do sono e comportamento parental
Embora os problemas de sono mais habituais, como a resistência ao deitar e os
despertares noturnos, resultem da interação entre fatores biológicos, fatores da criança
(e.g., temperamento, competências cognitivas) e ambientais (Mindell, Kuhn, Lewin,
Meltzer, & Sadeh, 2006), estes últimos têm recebido particular atenção ao longo dos
últimos anos. Entre os fatores ambientais, contam-se aspetos do ambiente físico e fato-
res familiares (Owens, 2008). Na verdade, um sono desadequado na criança parece estar
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81 81 81 81 de deitar e acordar irregulares, consumo de bebidas com cafeína antes de deitar, hábitos
de sesta desadequados, envolvimento em atividades muito estimulantes antes de deitar,
presença de televisão no quarto e um ambiente de sono desadequado (Mindell et al.,
2009).
4.2.1.1. Modelos explicativos do sono infantil. Considerando a dependência da criança pequena em relação aos seus cuidadores, os modelos explicativos do sono infan-
til enfatizam o papel dos fatores parentais, como a psicopatologia, as crenças e particu-
larmente o comportamento parental. De acordo com o modelo transacional proposto por
Sadeh, Tikotzky e Scher (2010), o sono da criança é influenciado por fatores intrínsecos
da criança e por fatores parentais (i.e., personalidade, psicopatologia, crenças), media-
dos pelo contexto de interação pais-criança. Este contexto inclui aspetos mais distais da
interação, como a vinculação ou os estilos parentais, e aspetos mais específicos da inte-
ração relacionada com o sono, como o envolvimento parental. A ligação entre os com-
portamentos parentais relacionados com o sono e os resultados de sono da criança cons-
titui a associação mais direta.
Da mesma forma, o modelo integrado revisto por Touchette, Petit, Tremblay e
Montplaisir (2009) sugere que comportamentos parentais relacionados com o sono
(como a presença dos pais até a criança adormecer ou o conforto ativo) constituem os
principais determinantes das dissónias infantis. Por sua vez, os comportamentos dos
pais são influenciados por características pessoais, como traços de personalidade, e por
características da criança, como o temperamento. A um nível mais alargado é conside-
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“De Pequenino… Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena”
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4.2.1.2. Comportamentos parentais relacionados com o sono. Do ponto de vista empírico, tem sido explorado o papel de comportamentos parentais proximais (i.e.,
comportamentos parentais relacionados com o sono, como o envolvimento no momento
de adormecer ou a utilização de estratégias de conforto ativo) e distais (i.e., estilos
parentais educativos, vinculação, disponibilidade emocional).
O papel de comportamentos parentais específicos para o desenvolvimento de
padrões, hábitos e problemas de sono tem sido repetidamente demonstrado (Sadeh et al.,
2010). O envolvimento dos pais no momento de adormecer e na sequência de um des-
pertar noturno (e.g., presença no quarto da criança, deitar-se com a criança) tem sido
consistentemente associado a piores resultados, incluindo má consolidação do sono
(Touchette et al., 2005), duração reduzida do sono noturno (Sadeh et al., 2009; Simard,
Nielsen, Tremblay, Boivin, & Montplaisir, 2008), longos períodos de latência para
adormecer (Simard et al., 2008) e despertares noturnos (Adair, Bauchner, Philipp,
Levenson, & Zuckerman, 1991; Mindell, Sadeh, Kohyama, & How, 2010; Sadeh et al.,
2009). Alguns autores sugeriram que o envolvimento dos pais reduz a probabilidade de
a criança desenvolver competências para sossegar sozinha (Simard et al., 2008).
Por seu turno, melhores resultados têm sido associados com a utilização de roti-
nas de deitar consistentes (Mindell, Sadeh, Kohyama, & How, 2010) e com comporta-
mentos parentais que promovem a autonomia da criança para adormecer, como adorme-
cer sozinha, colocar a criança na cama acordada ou deixar a criança a chorar (Mindell et
al., 2010; Morrell & Cortina-Borja, 2002). Alguns trabalhos sugerem que o mais impor-
tante será garantir um equilíbrio entre os diferentes comportamentos parentais relacio-
nados com o sono. Por exemplo, nos resultados de Morrell e Cortina-Borja (2002), os
pais de um subgrupo de crianças sem problemas de sono utilizava estratégias de confor-
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83 83 83 83 parecia ser compensado pela utilização concomitante de estratégias de encorajamento da
autonomia.
O papel dos comportamentos parentais relacionados com o sono tem sido tam-
bém evidenciado pelo impacto positivo das intervenções dirigidas ao sono da criança
pequena (Galland & Mitchell, 2010). Tipicamente, estas intervenções procuram alterar
os conhecimentos e comportamentos dos pais, no sentido de reduzirem o seu envolvi-
mento durante o início do sono, encorajarem a autonomia da criança e modificarem o
contexto de sono da criança (Mindell et al., 2006; Morgenthaler et al., 2006; Owens,
France, & Wiggs, 1999; Sadeh, 2005).
4.2.1.3. Relação pais-criança e sono. Relativamente ao papel de comportamen- tos parentais distais, vários trabalhos têm apoiado a associação entre variáveis da rela-
ção pais-criança e resultados de sono da criança. Nomeadamente, piores indicadores de
sono da criança foram associados a um estilo parental educativo negligente (Owens-
Stively et al., 1997), a menor sensibilidade e maior hostilidade/conflito da mãe (Bell &
Belsky, 2008) e maior hostilidade do pai (Rhoades et al., 2012). Por seu turno, melhores
resultados de sono foram associados à qualidade da interação pais-criança (Bordeleau,
Bernier, & Carrier, 2012), ao afeto parental e ao estabelecimento de regras firmes
(Adam, Snell, & Pendry, 2007), a maior encorajamento parental da maturidade da
criança (Spilsbury et al., 2005) e a maior disponibilidade emocional da mãe (Teti, Kim,
Mayer, & Countermine, 2010).
Contudo, os dados empíricos relativos aos comportamentos parentais mais glo-
bais revelaram também algumas inconsistências. A sensibilidade da mãe durante o
envolvimento em atividades partilhadas não revelou associações com o sono da criança,
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maior número de despertares noturnos (Scher, 2001). Bates e colaboradores (2002) não
encontraram associação entre o afeto, monitorização e utilização de estratégias indutivas
pelos pais e os indicadores de sono da criança. É importante considerar que os estudos
mencionados têm utilizado metodologias, instrumentos e amostras com características
diferentes (i.e., amostras clínicas versus comunitárias, crianças de diferentes grupos
etários).
4.2.1.4. Processos explicativos. Os processos subjacentes à associação entre o sono e o comportamento parental não são claros (Sadeh et al., 2010). Alguns dos pro-
cessos propostos refletem características da criança, como o temperamento, sugerindo
que crianças com temperamentos mais difíceis tenderão a desencadear por parte dos
pais comportamentos de maior envolvimento no momento de adormecer (Morrell &
Cortina-Borja, 2002). Outros apontam para fatores parentais, como funcionamento
familiar, ajustamento emocional, características de personalidade, crenças ou estilos
parentais educativos (Adam et al., 2007; B. Bell & Belsky, 2008; Johnson & McMahon,
2008; Morrell & Cortina-Borja, 2002; Sadeh, Flint-Ofir, Tirosh, & Tikotzky, 2007). O
racional subjacente é que esse tipo de fatores influenciará a capacidade dos pais para
estabelecerem limites e encorajarem a autonomia da criança no momento de dormir e na
sequência de despertares noturnos.
Os trabalhos relativos às crenças parentais sobre o sono têm trazido algum
suporte a esta proposta, na medida em que verificaram que crenças parentais associadas
a dúvida sobre a competência parental, hostilidade face aos pedidos da criança e dificul-
dades em estabelecer limites se associavam a maior envolvimento parental no adorme-
cer e, por sua vez, a mais problemas de sono (Johnson & McMahon, 2008; Morrell &
Capítulo I. Desenvolvimento e Adaptação nos Primeiros Anos de Vida
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85 85 85 85 associação entre o comportamento parental e o sono infantil refletiria aspetos mais glo-
bais do papel parental na regulação do comportamento da criança, nomeadamente a
dificuldades dos pais para estabelecerem limites (Morrell, 1999; Sadeh et al., 2007).
Contudo, os estudos não têm controlado simultaneamente os efeitos de comportamentos
mais distais (i.e., dimensões e práticas da relação pais-criança) e de comportamentos
mais proximais (i.e., comportamentos parentais relacionados com o sono) nos indicado-
res de sono da criança.
Algumas avaliações de intervenções dirigidas ao sono infantil têm encontrado
melhorias não só no sono da criança, mas também na interação mãe-criança e no com-
portamento diurno da criança (Minde, Faucon, & Falkner, 1994). Este resultado tem
sido interpretado como uma manifestação de que a melhor gestão dos problemas de
sono poderá generalizar-se a outros domínios do comportamento da criança, apoiando a
proposta de que a relação entre o comportamento parental e os problemas de sono terá
subjacentes aspetos mais globais relacionados com o papel parental na regulação do
comportamento da criança (Stein & Barnes, 2002).