3 TRABALHO DOCENTE NO ENSINO SUPERIOR E SAÚDE DE
3.5 A produção do conhecimento
3.5.2 Problemas de saúde
O conceito de saúde não é evidenciado detalhadamente em todas as produções analisadas, mas percebe-se estar o mesmo relacionado ao domínio de certas situações e fenômenos e à autonomia dos indivíduos.
Mota (2011, p.13) apoia-se em Clot (2007) que, com base em Canguilhem, descreve que
[...] ter saúde implica a possibilidade de obter certo domínio sobre as coisas [...], depende da possibilidade de perceber-se na origem de certos fenômenos, de ser criador de normas, de ser responsável pelos seus próprios atos, de ter condições para criar relações na realidade objetiva que não poderiam ocorrer sem a intervenção do sujeito. Enfim, possuir autonomia sobre o seu fazer.
Ainda com base no raciocínio de Mota (2011), entende-se que para ter saúde o indivíduo precisa de alternativas para enfrentar os desafios da vida. Precisa buscar estratégias para vencer as dificuldades, de modo a manter-se saudável. Não conseguindo superar as dificuldades da vida, observa-se o aparecimento da doença. Mota (2011, p.65), também apoiando em Canguilhem (1990, p. 149), define doença. Para ele, “doença não é uma variação da dimensão da saúde, ela é uma nova dimensão da vida”. É “[...] uma dimensão de vida reduzida, onde o sujeito não consegue estabelecer novos meios de superar as adversidades e se entrega a um único recurso. Ter saúde implica não se submeter a essa única norma, mas ser capaz de forjar novas normas de vida” (p.124).
Ainda segundo a mesma autora, o adoecimento relaciona-se com as condições de trabalho, quando estas impedem a realização da atividade ou quando exigem um grande esforço para executá-las.
Diante do apresentado por Mota (2011) e complementando o conceito de doença, a pesquisa de Fidalgo (2010, p.68) também traz contribuições referentes ao seu significado e diferença entre doença e doenças do trabalho ou doença profissional.
Doença: “1.Med. Denominação genérica de qualquer desvio do estado normal. 2.Med. Conjunto de sinais e/ou sintomas que têm uma só causa; moléstia. 3.Fig. Mania, vício, defeito.” (Novo Dicionário Aurélio).
Doenças do trabalho ou doença profissional: “1. Med. Aquela que decorre do exercício de uma profissão” (Novo Dicionário Aurélio).
Fidalgo (2010, p.93) também oferece colaboração ao afirmar que as condições de trabalho e as pressões que o professor é submetido, pode influenciar a qualidade de vida e saúde, podendo trazer prejuízos para toda a vida do trabalhador.
Toda a pressão sob a qual o professor se vê submetido influencia seu estilo de vida, sua saúde e estabilidade física, mental e emocional. Assim, crescem o número de afastamentos por motivos de saúde nos quadros da universidade, e esta não é uma especificidade somente da docência pública, mas encontra-se também instaurada em âmbito privado. [...]. Assim, o contexto e as circunstâncias em que os professores desenvolvem suas capacidades físicas, intelectuais e emocionais [...], podem levar a uma demanda excessiva do funcionamento fisiológico e psicológico destes profissionais. Dessa forma, se não há tempo voltado para o descanso e para a recuperação das energias dispensadas com o trabalho (reprodução da força de trabalho) começam a ser identificados uma série de transtornos clínicos que poderão levar ao afastamento médico. Estes, inicialmente podem ser somente de ordem fisiológica, mas podendo levar até a comprometimentos de ordem mental e comportamental, dependendo do tempo para identificação do transtorno, tanto pelo paciente, como posteriormente, pelo profissional da saúde.
Os prejuízos oriundos das condições inadequadas de trabalho têm feito com que professores frequentemente façam uso de “medicamentos controlados”, recebam indicação para a realização de “tratamentos psicoterápicos” que têm como finalidade tratar problemas psicológicos. Além do crescente número de “todo tipo de doença, especialmente de fundo nervoso que prejudicam a estabilidade destes profissionais e deixam marcas, que podem significar longos tratamentos de saúde e lesões que podem restar pela vida inteira” (FIDALGO, 2010, p. 94).
Além disso, segundo a mesma autora, os problemas de saúde podem ser agravados, devido os professores por ausência de tempo livre adiar “a ida ao médico para tomar alguma iniciativa em termos de tratamento para saúde [...]” (p.95).
No caso específico de visitar o médico, parece haver uma resistência natural ao que o doutor possa dizer quanto à saúde, já que entende que certas recomendações podem acabar por “atrapalhar” a relação com o trabalho, como é o caso do afastamento por incapacidade de trabalho, ou uma simples licença médica. Muitos professores vivem quase que totalmente reclusos à vida da universidade, resistindo a qualquer tipo de afastamento, que seria para eles, interpretado pelos pares como o mesmo que assumir-se “incapaz” para o trabalho (rótulo impresso eficazmente pelos padrões que definem os perfis de produtividade definidos pela CAPES, por exemplo) (FIDALGO, 2010, p.96).
Esse adiamento em relação à busca por diagnóstico médico ou tratamento com um especialista pode indicar certa resistência por parte dos profissionais docentes, receio de serem afastados de suas atividades profissionais e ao significado dado ao afastamento pelos colegas de trabalho, pela comunidade universitária e pela sociedade em geral.
Na pesquisa de Mill (2006, p.83-84), os docentes argumentaram que a maioria dos danos à saúde são também recorrentes a outros campos de trabalho, ficando evidente também que a relação entre a saúde no trabalho docente a distância e o acúmulo de tarefas pelos trabalhadores da EaD, chamado pelo autor de teletrabalhadores, “pode não estar na atividade e sim nas condições de trabalho”. Para o autor os problemas de saúde nessa modalidade podem ser consequências dos novos tempos e espaços de trabalho.
Com o objetivo de enriquecer e contribuir para a compreensão e análise do conceito e dos termos doença, doenças do trabalho ou profissional e doença relacionada ao trabalho, eu como autora dessa pesquisa busquei o seu significado amparando-me em outros autores, uma vez que não são todas as produções que abordam a temática.
Bonetti (2006, p.8), apoiando-se em Canguilhem (2000, p.149), esclarece: “A doença não é uma variação da dimensão da saúde; ela é uma nova dimensão da vida”. Ainda segundo
a autora doença e doente são diferentes. “O ser doente não é um ser anormal, é um ser que vivencia uma doença e que tem várias possibilidades de restabelecimento [...], porém deverá encontrar para isso, o melhor caminho para compreensão de seu estado temporário para atingir novas dimensões de vida” (p.12).
Doenças do trabalho ou doenças profissionais são resultantes diretamente das condições de trabalho, causam incapacidade para o exercício da profissão ou morte, e constam da Lista de Doenças Profissionais do Decreto Regulamentar nº 76/2007, de 17 de Julho.
As doenças relacionadas ao trabalho são classificadas em três grupos e seguem identificadas na Portaria nº 1.339/1999, de 18 de Novembro: 1º “doenças em que o trabalho é causa necessária”; 2º “doenças em que o trabalho pode ser um fator de risco, contributivo, mas não necessárias” e 3º “o trabalho é provocador de um distúrbio latente, ou agravador de doença já estabelecida” (TEIXEIRA; PEREIRA; ROCHA; SANTOS e MERINO, 2009, p.12). As análises do conjunto apontam que o adoecimento ou o surgimento de problemas de saúde entre os professores tem uma possível relação com as condições de trabalho a que estes indivíduos estão submetidos, além do contexto e das circunstâncias para o desenvolvimento de suas atividades.
Observa-se, também, uma ambivalência em relação ao trabalho. Ele pode causar adoecimento devido à intensificação. Por outro lado, pode se ter adoecimento devido à falta do trabalho.
Para melhor exemplificar, segue Dejours (1992 apud FIDALGO, 2010, p. 97):
Para o homem a doença corresponde sempre à ideologia da vergonha de parar de trabalhar (DEJOURS, 1992, p.33).
Talvez, no imaginário dos professores, a aposentadoria e a posterior „síndrome do não-saber-o-que-fazer-depois‟ estejam associados a uma perspectiva que se estabelece entre o „estar incapacitado‟ (pela idade) com a „ideia de doença‟ (mesmo que a incapacidade não seja por doença, é quase sempre associada a esta). [...] Homem ou mulher, todo estado anormal do corpo traz infalivalmente de volta a questão do trabalho ou do emprego. Vê- se que o trabalho atravessa profundamente a vivência da doença: doença- avesso-do-trabalho, a tal ponto que a falta de trabalho torna-se, em si, um sinônimo de doença: „Quando alguém diz para um cara que ele está muito velho para trabalhar ou que ele não é mais capaz de continuar, é como se ele estivesse doente (DEJOURS, 1992, p.33).
Diante do apresentado, vejo a necessidade de que os indivíduos sejam incentivados e educados para sempre avaliar qual o sentido do trabalho na sua vida. Importa que este não lhes cause sofrimento durante o exercício e nem quanto tiverem a necessidade de parar de trabalhar.