1. GÊNERO E A CONSTRUÇÃO DO CORPO VIOLENTADO
1.2. PROBLEMATIZANDO GÊNERO: O UNIVERSAL, O RELACIONAL E O PLURAL
Os estudos sobre gênero foram, primeiramente, desenvolvidos sob a proposição da subordinação da mulher e, ao afirmar lugar de subordinação ao feminino oposicionalmente determinava-se poder ao homem. Nesse sentido, mulheres e homens eram interpretados de maneira essencializada e universais. Como aponta Bento (2006, p. 71), “Dois corpos diferentes. Dois gêneros e subjetividades diferentes.”. E para explicar o pensamento, inicialmente, produzido sobre os estudos de gênero Bento (2006), nomeou essa tendência explicativa de universal.
O gênero pensado universalmente é permeado por características que “cristalizam as identidades em posições fixas” (BENTO, 2006, p. 70), uma vez que ao universalizar o gênero há um reforço e essencialização do mesmo. Nessa perspectiva é evidenciado a lógica apontada por Bento em diálogo com Butler onde as características de gênero articuladas no processo binário de um corpo dimórfico compartilhadas como elementos hegemônicos são produzidos sob o carimbo da cultura. Portanto, construídos como “corpo-sexo uma matéria fixa, sobre a qual o gênero viria a dar significado, dependendo da cultura ou do momento histórico, gerando um movimento de essencialização das identidades” (BENTO, 2006, p. 71).
Diante das características postas como intrínsecas e universais às mulheres, a subordinação marca o seu lugar dentro das relações de gênero e como ordem hierárquica, visto que a mulher era compreendida como o outro absoluto (BENTO, 2006). Teóricas feministas tais como Chodorow, Ortener e Rosaldo, (1979 apud BENTO, 2006) trazem elementos em suas obras que reiteram características que fomentam sob mulheres e homens elementos constitutivos construídos como estáticos, parecendo ser impossível que homens pudessem ser reconhecidos a partir de qualidades apresentadas no feminino e vice-versa. Há então, na perspectiva universal a ideia de uma natureza feminina e uma cultura masculina, polo este que vai ser descrito em outras produções dicotômicas, tais como: público-doméstico, objetividade-subjetividade, racional-emocional. Dessa
32 maneira, o processo que atravessa a produção dicotômica dos sujeitos, tendo em vista que para ser reconhecido como sujeito do seu gênero, determina a ausência de características do gênero oposto não só aprisionou os sujeitos em características predeterminadas por um momento histórico específico, mas também tem determinado, socialmente, ainda hoje as possibilidades de (re)existir e reconhecer o “Outro” para além de características atribuídas como inatas aos sujeitos.
A perspectiva universal atribui à mulher sinônimo de família e reprodução, a esta cabe o âmbito do lar, assim sendo, inferior por sua condição biológica e em virtude de sua estrutura fisiológica. Por muito tempo a essencialização dos gêneros acabou por conferir ao feminino a subordinação do homem, criando uma mulher vítima e o homem como sujeito de opressão e dominação. Ao essencializar o feminino criavam-se pressupostos de um masculino universal também. Eram os homens naturalmente viris e competitivos, características que impelem a condição masculina.
Bento (2006) aponta que na perspectiva universal:
A mulher é tomada como sinônimo de família, sendo que, nesse ponto, não existe qualquer menção ao pai. Ao se tentar visibilizar os processos culturais mediante os quais o feminino está sempre no polo subordinado, invisibilizou-se o masculino, naturalizando-o. Nesse primeiro momento, a visibilização da mulher como uma categoria universal correspondia a uma necessidade política de construção de uma identidade coletiva que se traduziria em conquistas nos espaços públicos. (BENTO, 2006, p.73).
A autora nos mostra que pensar o gênero a luz da concepção universal essencializa as identidades, bem como pode também conferir a mulher papel de vítima. Por certo, no exercício de pensar o desmonte de gênero, principalmente, o feminino, de essencialização e subordinação, que o pensamento feminista articulou “exigências” voltadas para a igualdade nos exercícios dos direitos, discutindo as raízes culturais das desigualdades (PISCITELLI, 2002). A perspectiva universal de pensar o gênero alude para a construção de uma mulher essencializada, unificada, porém é importante destacar que essa unidade concebe um sujeito político, de direito e que reivindica reconhecimento4.
A perspectiva denominada por Bento (2006) como relacional problematiza os princípios essencializados e universal de homens e mulheres, ou seja, ao apresentar os gêneros a ideia de uma unidade é desfeita e se passa a refletir nas dimensões interseccionais
4 O século XIX é marcado pela inclusão da mulher como “sujeito político”, reivindica-se por direitos democráticos (voto, divórcio, educação). Em 1960 a bandeira de luta é pela liberação sexual (contraceptivos), já nos anos 1970 a luta ganha caráter sindical.
33 que contribuem para a construção de identidades de gênero. Nesse sentido, sexualidade, raça, geração, classe social, dentre outros, são elementos que contribuem para dessencializar e desnaturalizar o gênero (BENTO, 2006), sobretudo, o lugar de submissão das mulheres.
Qual a importância de outros elementos na construção dos gêneros? Entende-se que um dos desdobramentos da perspectiva relacional é mostrar as diversas formas de existir enquanto mulher e homem. Tomemos, por exemplo, a luta e reivindicação das mulheres negras periféricas, certamente, diferem das reivindicações de mulheres brancas e de classe média alta. Sendo assim, pensar em ambas como uma só unidade produz um abismo e formas de subordinações diferentes. Outro desdobramento importante é apontado por Bento (2006), a construção de um campo de estudo que descontrói o modelo universal do masculino, forte, viril, violento e competitivo por natureza, o campo dos estudos das masculinidades.
Um dos fios condutores que orientarão as diversas pesquisas e reflexões desse novo campo de estudo é a premissa de que o masculino e feminino se constroem relacionalmente e, de forma simultânea, apontam que este “relacional” não deveria ser interpretado como “o homem se constrói numa relação de oposição a mulher, em uma alteridade radical, ou absoluta, conforme Beauvoir, mas em u movimento complexificador do relacional (BENTO, 2006, p. 74-75).
Com isso, ao mesmo passo que os estudos sobre as mulheres iniciam suas pesquisas a partir de outros conceitos sociológicos, a autora pontua que o campo das masculinidades também passa:
[...] a trabalhar o gênero inter-relacionalmente: o homem negro em relação ao homem branco, o homem de classe média em relação ao favelado e ao grande empresário, o homem nordestino e do sul e, muitas outras possibilidades de composição que surgem nas narrativas dos sujeitos (BENTO, 2006, p. 75).
Como vimos, pensar o gênero a partir da perspectiva relacional é anular o caráter universal, hegemônico e absoluto de compreender homens e mulheres, ou seja, essencializada e naturalizada. Nessa perspectiva mulheres e homens são apresentados a partir de modelos antagônicos entre si conferindo um caráter inter-relacional. Portanto, gênero na leitura relacional é apresentado como uma categoria analítica (SCOTT, 1995), ferramenta metodológica para a compreensão da construção, reprodução e mudanças das identidades de gênero (BENTO, 2006), ou seja, uma produção dos gêneros através das
34 relações de poder existentes dentro de um mesmo gênero e fora dele. Nesse sentido, “gênero é visto como constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças entre os sexos ... o gênero é uma forma primária de dar significados às relações de poder” (SCOTT, 1995, p. 86).
Ainda que o gênero na perspectiva relacional seja atravessado por outros elementos que o constitui, as diferenças sexuais continuam sendo pensadas reforçando a proposta binária e o processo cultural de reconhecimento do “Outro”, o que leva Bento (2006) produzir uma análise crítica dessa perspectiva.
Talvez o problema resida no fato de que, ao estudar os gêneros a partir das diferenças sexuais, está se sugerindo explicitamente que todo discurso necessita do pressuposto da diferença sexual, sendo que este nível funcionaria como estágio pré-discursivo. Aqui parece que as concepções relacionais e universais tendem a encontrar-se. A cultura entraria em cena para organizar esse nível pré-discursivo para distribuir as atribuições de gênero, tomando como referência as diferenças inerentes aos corpos-sexuado. (BENTO, 2006, p. 76).
Tal formulação nos faz questionar junto com Bento (2006), o lugar reservado à sexualidade, bem como aos sujeitos que são dissidentes da ordem binária do gênero, uma vez que tanto no universal quanto no relacional, o gênero, a sexualidade e a subjetividade não foram refletidas fora de uma relação oposicional. Segundo a socióloga brasileira, são “os estudos queer que apontarão o heterossexismo das teorias feministas e possibilitarão, por um lado, a despatologização de experiências identitárias e sexuais até então interpretadas como “problemas individuais”” (BENTO, 2006, p.78).
A perspectiva nomeada como plural por Bento (2006) traz um novo movimento para problematizar os sujeitos, primeiro, porque desestabiliza a relação intrínseca entre sexo-gênero-sexualidade sob a formação das diferenças sexuais/corpo-sexuado, segundo, porque entende estas categorias como independentes. Assim sendo, dedica atenção aos sujeitos que performatizam fora do alcance das normas de gênero, corpos estes que nomeiam outras identidades perante aquelas universalizadas ao longo da história.
De acordo com Bento (2006), a perspectiva plural tem como percussora os trabalhos de Judith Butler, seus pensamentos são pautados na análise de gênero e sexualidade como categorias independentes, onde o objetivo é tornar visível e reconhecido os sujeitos que vivem às margens das normas de gênero e sexual. É nesta perspectiva que há uma junção das performances de gênero e sexuais através da percepção que ambos são
35 produções sociais e culturais, mas que são diferentes, pois o desempenho de um destes domínios não implica na necessidade ou anulação do outro.
Como afirma Bento (2015):
Quando nascemos, já encontramos a sociedade na qual estamos inseridos com as classificações do que seja pertencente ao gênero masculino e ao gênero feminino. O gênero, neste caso, deve ser entendido como uma categoria classificatória construída socialmente. O primeiro “carimbo social” que recebemos é aquele que identifica a qual gênero pertencemos. O gênero é uma das primeiras matrizes geradoras de sentido para os atores sociais (BENTO, 2015, p. 53).
Logo, somos inseridos em um binarismo imperativo que ordena e determina que façamos uma escolha única/definitiva. Um sexo: masculino ou feminino; homossexual ou heterossexual; homem ou mulher.
Conforme Judith Butler (2003):
Se alguém “é” uma mulher, isso certamente não é tudo que alguém é, o termo não logra ser exaustivo, não porque os traços predefinidos de gênero da “pessoa” transcendam a parafernália específica de seu gênero, mas porque o gênero nem sempre se constitui de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos, e porque o gênero estabelece interseções com modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais e regionais de identidades discursivamente construídas. Resulta que se tornou impossível separar a noção de “gênero” das interseções políticas e culturais em que invariavelmente ela é produzida e mantida. (BUTLER, 2003, p.20).
Portanto, as questões que marcam o terceiro momento sobre os estudos de gênero dizem respeito aos estudos queer, baseados na instabilidade das identidades, aqui o gênero é performático e o corpo é moldado. O corpo é um texto de significantes em constante processo de transformações e construções com significados múltiplos. Segundo esta perspectiva compreende-se o corpo como um conjunto de fronteiras sociais e individuais politicamente significadas e mantidas. O sexo não é mais uma predisposição interior e da identidade, mas uma significação performática organizada, liberando o sujeito da naturalização (BENTO, 2006). Deste modo, a perspectiva plural pauta suas análises a partir da diferença entre sexualidade e gênero como categorias independentes, onde o escopo é tornar visível e reconhecível os sujeitos que vivem às margens das normas de gênero e sexual, desta forma, não há uma única matriz de gênero (BUTLER, 2003). Nesse sentido, a perspectiva plural e os estudos queer irão, segundo Bento (2006), compreender “a sexualidade como dispositivo; o caráter performativo das identidades de gênero; o
36 alcance subversivo das performances e das sexualidades fora das normas de gênero; o corpo como um biopoder, fabricado por tecnologias precisas” (BENTO, 2006, p. 81).
Apresentar as tendências explicativas sugeridas por Bento (2006) faz com que possamos compreender como o enfretamento à violência aparece como urgência na agenda pública, visto que romper com características fixas possibilita novos rearranjos sociais para pensarmos os gêneros. Dessa forma, compreendemos que a Lei Maria da Penha ao trazer no artigo 5° a violência doméstica e familiar contra a mulher como qualquer ação ou omissão baseada no gênero retira do texto a possibilidade de pensar a Lei nas perspectivas universal e relacional, sinalizando a incorporação da perspectiva plural. Isto é, o gênero é pensado a partir da identidade, logo nas múltiplas formas de tornar-se mulher. Diante disto, não é necessário nascer mulher para ser amparada pela Lei, mas sim constituir sua identidade de gênero enquanto mulher.
No entanto, são os efeitos das características do gênero essencializado e universalizado que contribuem para a condição da naturalização da violência. Vale destacar que entendemos o gênero a partir da perspectiva plural, entretanto, a violência contra o gênero feminino é apreendida relacionalmente, uma violência de dois, conforme a Lei: (ex) companheiro x (ex) companheira; (ex) companheira x (ex) companheira; pai x filha; filho x mãe, entre outros que tenham vínculo afetivo. Embora, apreendemos gênero a partir da perspectiva plural na Lei possibilitando ampliar as mulheres que são amparadas pela mesma, ou seja, mulheres não trans e mulheres trans, ao longo do texto podemos verificar como a perspectivas de universalização e características fixas permeiam a problemática da violência doméstica.
1.3. DO DOMÉSTICO AO PÚBLICO: OS ESPAÇOS E A
TERRITORIALIZAÇÃO DOS LIMITES POSSÍVEIS
Diante da historicização sobre o percurso teórico social que foi construído o gênero visto no tópico anterior, passaremos a compreender os efeitos dos discursos fixos e características “determinadas” a homens e mulheres que contribuem para entender como a violência doméstica se revela entre homens (agressores) e mulheres (em condição de violência).
A violência doméstica revela-se nas relações íntimas/conjugais, um lugar que é predominantemente o espaço privado, assim ocorre na privacidade do casal, ou seja, no
37 lar/casa podendo atingir familiares e pessoas que lá convivem (BANDEIRA, 2013). Contudo, se desmonta a ideia romantizada do espaço doméstico/privado como lugar do afeto, amor, proteção e segurança, visto que a violência doméstica escolhe este ambiente como lugar de suas múltiplas violências, como se este fosse o lugar seguro, invisível e silenciado de cometê-la, na ideia de que o que ocorre em casa fica em casa, ou ainda em briga de marido e mulher não se mete a colher. É no privado que a violência contra a mulher, doméstica e conjugal, atinge índices alarmantes, constituindo o espaço doméstico como espaço favorável de violência contra o feminino.
A violência contra as mulheres, sobretudo, a doméstica é um mecanismo que fundamenta subordinação frente ao masculino, visto que há um sistema simbólico que hierarquiza e legitima uma ordem geral de controle sobre os corpos femininos (FEMENÍAS, ROSSI, 2009). Essa função ou ainda norma social aparece como uma “arma” cultural que condiciona os sujeitos a sistemas estruturados que cria espaços de significação e de reconhecimento. O binômio homem-mulher localiza também o polo superior-inferior e esta condição articula os espaços e territórios possíveis dos papéis sociais e sexuais.
De acordo com Maria Luisa Feminías e Paula Souza Rossi (2009) há um contraste histórico, tradicional sobre a esfera pública e a esfera privada, ressaltando que o destino dado ao público e privado reflete ao binômio homem-mulher e o polo superioridade- inferioridade, dado que o público foi construído como espaço de reconhecimento e individuação do homem, enquanto para as mulheres o privado localizava-as dentro do espaço doméstico de subordinação e sujeição ao tradicional. Com isso, o protagonismo do sujeito era evidenciado no homem equivalente ao espaço público.
Sobre a divisão do espaço público e privado Maria Berenice Dias e Thiele Lopes Reinheimer (2011) apontam que:
Ao homem sempre coube o espaço público. A mulher foi confinada ao limite do lar, com o dever de cuidado do marido e dos filhos. Isso ensejou a formação de dois mundos: um de dominação, externo, produtor; outro de submissão, interno e reprodutor. A essa distinção estão associados os papéis ideais dos homens e das mulheres. Ele provendo a família e ela cuidando do lar, cada um desempenhando a sua função. Os distintos padrões de comportamento instituídos para homens e mulheres levam à geração de um verdadeiro código de honra. A sociedade outorga ao macho um papel paternalista, exigindo uma postura de submissão da fêmea. As mulheres acabam recebendo uma educação diferenciada, pois necessitam ser mais controladas, mais limitadas em suas aspirações e em seus desejos. Por isso, o tabu da virgindade, a restrição ao exercício da sexualidade e a sacralização da
38 maternidade. Ambos os universos, ativo e passivo, distanciados, mas dependentes entre si, buscam manter a bipolaridade bem definida, sendo que ao autoritarismo corresponde o modelo de submissão. (DIAS, REINHEIMER, p.2011 195).
Dias e Reinheimer (2011) assinalam que a territorialização do doméstico/privado e público é marcada por uma divisão sexual destinada a comportamentos socialmente normatizados que destinam características que colocam a mulher na posição de passividade, em contrapartida, o homem confere estatuto de ativo pertencendo ao ambiente público.
Com Luana Passos de Souza e Dyeggo Rocha Guedes (2016) podemos acrescentar as formulações de Dias e Reinheimer (2011) que na dicotomia entre o espaço público e o espaço privado se consubstanciou a divisão social do trabalho, homens provedores e mulheres cuidadoras. Igualmente consideramos que as atribuições sociais ao mesmo ponto que limitavam a mulher no âmbito privado davam de forma “natural” o consentimento do espaço privado aos homens. Dessa maneira, pensar a divisão sexual do trabalho é pôr em evidencia os desígnios comportamentais para o que se espera de homens e de mulheres e para tanto é normatizar o lugar desses sujeitos5.
À mulher coube as características que a coloca no campo da passividade, emoção e maternal, visto que ao homem a virilidade, aventura, objetividade se alastrava como campo de força e hierarquização. Ao territorializar a mulher no campo da passividade, socialmente era imposta a ela a subalternidade e a casa como ambiente habitável. O lugar de reprodutora e de mãe também “empurra” cada vez mais esse lugar de domínio e de dominação do lar. Já, ao homem estruturalmente são associados os benefícios do espaço público que ratificam sua hierarquia, tendo em vista que ao “aventurar-se” entre os espaços, de certa maneira, compôs uma relação de poder dos homens sobre as mulheres, sobretudo, porque havia uma dependência econômica atrelada.
Desse modo, podemos considerar que a divisão sexual do trabalho historicamente colocou, prioritariamente, os homens em uma esfera produtiva e as mulheres em uma esfera reprodutiva nas quais os homens agregavam funções sociais de valor e status. Como aponta Danielè Kergoat (2003), a divisão sexual incide sobre a divisão social do trabalho em dois planos: o de separação e o de hierarquização. Separação no que diz
5 Pontuamos que os autores citados não levam em consideração as interseccionalidades. Logo, a entrada de mulheres e homens negros devem ser analisados de maneira distintas no que concerne à divisão sexual do trabalho.
39 respeito a que existem trabalhos de homens e trabalhos de mulheres e, hierarquização, visto que o trabalho de homem “vale mais” que um trabalho de mulher. Ademais, essa estrutura de divisão social, hierárquica e sexual separava o lugar da mulher e seu papel social em nossa sociedade ao mesmo tempo em que ela entrava no campo do trabalho e era mais uma vez posta dentro de normas de papéis de gênero, pois quando não estava em trabalhos domésticos era “oferecido” o lugar do cuidado, por exemplo, responsável pela educação das crianças e/ou do cuidado “básico” médico (enfermeira), lugares que localizam mais uma vez a ideia de “natureza” feminina. Quando as mulheres transpõem essa realidade se deparam com a desvalorização do trabalho e desigualdades que incidem sobre o seu gênero.
Para Souza e Guedes (2016), as transformações socioeconômicas e a força do movimento feminista no século XX fragilizaram de modo conjunto a dicotomia entre o privado e o público, tendo em vista que o modelo do homem provedor e mulher cuidadora é ressignificado, assim:
O relaxamento das fronteiras entre o mundo produtivo (homens) e reprodutivo (mulheres) tem contribuído com a possibilidade das mulheres participarem do mundo produtivo, mas não reveste o afastamento dos homens do mundo doméstico (SOUZA, GUEDES, 2016, p. 139).
No mais, acreditamos que embora haja um ressignificação do papel da mulher e sua entrada no espaço público e mercado de trabalho, as atribuições socialmente destinadas são estruturadas em nossa sociedade de maneira que permanecem nas concepções culturais, tendo em vista que ainda é transferido e exigido das mulheres a responsabilidade de reprodução social.
Para Dias e Reinheimer (2011) são os métodos contraceptivos e as lutas emancipatórias que constituíram uma nova mulher, a que se integra ao mercado de trabalho e que passa a cobrar uma nova postura do homem dentro de casa. No entanto, essa mudança parece ratificar conforme as autoras o deslocamento do modelo/norma “preestabelecido criando um contexto potencializador para situações de violência, que tem como justificativa a cobrança de possíveis falhas no cumprimento ideal dos papéis de gênero” (DIAS & REINHEIMER, 2011, p. 196).
O espaço doméstico/privado como lócus de violência se caracteriza mais uma vez como o lugar de submissão e subalternidade da mulher, visto que na maioria das vezes, o
40 homem exerce sobre a casa o status de provedor e sobre a mulher uma relação de poder,