2. Método
2.4 Procedimentos de Análise dos Resultados
O material coletado sobre o julgamento moral e o meio ambiente – interpretação infantil de pequenas histórias – tem como referencial analítico o mesmo proposto por Piaget (1994) sobre o juízo moral na criança, o método clínico.
Como citado anteriormente, a análise dos dados não é uma tarefa simples, pois, durante a intervenção sistemática do pesquisador, surgem vários
elementos qualitativos nas respostas dos sujeitos, dos quais buscamos preservar a riqueza e o detalhamento dos dados, de modo a levantar elementos variados sobre o conhecimento investigado.
Para a análise qualitativa não existe um procedimento geral, tornando mais difícil analisar as respostas, pois, podem conter dados muito variados. Neste caso, há a necessidade de se estabelecer categorias de respostas, para que os dados possam ser analisados através de uma investigação profunda e complexa, buscando pontos relevantes que comprovem as hipóteses levantadas no projeto de pesquisa (DELVAL, 2002).
Assim, com relação aos dados coletados sobre a moralidade, seguimos as categorias de análise propostas nos estudos de Piaget (1994) e que discorreremos a partir de agora.
Em nosso estudo, priorizamos os relatos verbais, portanto, as regras do jogo de queimada foram analisadas quanto à consciência das regras, de que Piaget (1994) encontrou três estádios:
Estádio I. Não há sentimento de obrigatoriedade da regra; a regra é puramente motora e os esquemas são ritualizados.
Estádio II. A regra é imutável e sagrada, de origem adulta; qualquer possibilidade de modificação da regra é vista pela criança como uma transgressão.
Estádio III. A regra deixa de pautar-se na coerção adulta e a sua obrigatoriedade depende do consentimento mútuo, ou seja, é fruto de acordos que podem ser estabelecidos por um grupo de indivíduos.
No que se refere à noção de mentira, Piaget (1994) também encontrou três fases, apresentadas resumidamente por Chakur (2002, p. 51):
Fase I. A mentira é definida como “nome feio” e a punição é o critério de gravidade da mentira: se não houvesse punição, poder-se-ia mentir.
Fase II. A mentira é uma falta em si – incluindo os erros involuntários – e assim permanece mesmo se não houver punição.
Fase III. A mentira é uma afirmação intencionalmente falsa; constitui-se em falta porque se opõe à confiança e afeições mútuas.
Lembramos que Piaget realizou várias pesquisas sobre a mentira e nós buscamos reunir os questionamentos do conjunto de seus estudos. Portanto, para classificarmos as respostas de nossos participantes em uma determinada fase da noção de mentira, analisamos primeiramente aspectos separados, como a questão da blasfêmia ou palavrão; a punição; a definição de mentira; a responsabilidade objetiva e a intencionalidade, averiguando, assim, as características das fases encontradas separadamente. Depois, fizemos a classificação dos depoimentos dos participantes relacionando o maior número de características que predominavam em uma determinada fase.
Sobre a justiça, Piaget (1994) encontrou três períodos, assim resumidos (CHAKUR, 2002, p. 52-53):
Período da heteronomia - a justiça é imanente, ou seja, emana da natureza física e dos objetos inanimados; não há distinção entre dever e obediência; toda sanção é legítima e necessária, predominando as sanções expiatórias (em que seu conteúdo não tem correspondência com a natureza do ato realizado); o respeito é unilateral, pautado na autoridade adulta.
Início de autonomia - inicia-se uma primazia da igualdade sobre a autoridade, todos têm os mesmos direitos e a lei se aplica igualmente a todos; há diminuição da justiça imanente e as sanções expiatórias vão sendo menos
aceitas, dando lugar a outro tipo de sanção – a sanção por reciprocidade (em que existe relação entre o conteúdo e a natureza da falta ou punição); há diferenciação entre justiça e obediência, valorizando-se o ato moral em si.
Período da autonomia - a igualdade se relativiza com o sentimento de eqüidade; não há “igualdade pura”, os direitos e as leis não são aplicáveis igualmente em todos os casos, devem-se considerar as circunstâncias particulares que envolvem o ato; portanto, as sanções devem ser aplicadas considerando-se os atenuantes e as particularidades de cada caso.
Depois de analisarmos cada noção separadamente, os depoimentos das crianças foram classificados em um único nível para indicar qual o nível de moralidade em que se encontravam, tendo como critério o maior número de vezes em que a criança se classificou em um determinado nível.
Para as histórias elaboradas sobre o respeito ao meio ambiente, recorremos a alguns estudos do próprio Piaget, como os da moralidade (PIAGET, 1994) e os apresentados no livro A Representação do mundo na
criança (PIAGET, s/d), assim como de alguns piagetianos que ao longo do
tempo vêm procurando ampliar o campo de aplicação da teoria piagetiana e dentre eles estão os trabalhos de Battro & Costa (1977) sobre “O desenvolvimento da responsabilidade ecológica na criança”, de Delval (1994) sobre “El conocimiento del mundo social” e de Chakur et al (1998) sobre “A construção da noção de direitos humanos em crianças e adolescentes”. Um outro estudo que nos serviu de referência foi o de Gómez Granell (1988), relatado no artigo de Yus Ramos (1989) sobre “El aprendizage de la ecología”. Esses estudos auxiliaram nos critérios de análise, possibilitando estabelecer níveis na aquisição do que chamamos de “moral ecológica”.
Depois de analisarmos os níveis em que os depoimentos das crianças e adolescentes se encontravam separadamente em cada história, reunimos os depoimentos em um único nível, conforme critério estabelecido para a moralidade.
Antes de apresentarmos os resultados encontrados na pesquisa, gostaríamos de ressaltar que as ilustrações da caracterização das noções desta pesquisa serão realizadas com exemplos das respostas das crianças e dos adolescentes registrados literalmente e empregando nomes fictícios, como já citado anteriormente. As respostas das crianças e adolescentes estão em itálico e a intervenção da pesquisadora entre parênteses, em letra normal.