UMA NOVA OMUNIDADE?
PROCEDIMENTOS DE PESQUISA
A definição dos objetivos e hipóteses – que atuam como diretrizes dessa pesquisa – emergiu de um extenso levantamento bibliográfico e da revisão crítica da literatura sobre o tema. A partir dos objetivos e hipóteses foram elaborados estudos sobre procedimentos
operacionais necessários para a organização e sistematização de uma metodologia de pesquisa.
Aprendendo com a experiência
Durante o curso de mestrado, a autora desenvolveu uma pesquisa sobre relações de vizinhança em condomínios residenciais (LOPES, 200). Durante essa pesquisa, ficou clara a ocorrência de transgressões dentro do condomínio pesquisado, cujas conseqüências chegavam a influenciar negativamente as relações sociais entre os moradores. Uma das conclusões dessa pesquisa foi a classificação dos tipos de transgressão mais comuns no condomínio (capítulo 4).
Contudo, o maior aprendizado da referida pesquisa foi com relação à questão metodológica, uma vez que a autora desenvolveu uma pesquisa etnográfica com base em observação participante e entrevistas semi-estruturadas. Houve muita dificuldade de acesso aos moradores para concederem entrevistas. Como não havia meios de reunir todos os moradores e fazer uma apresentação da pesquisadora – como normalmente ocorreria em uma comunidade e em um estudo etnográfico – a solução encontrada foi pedir aos moradores com quem se conseguia conversar e entrevistar que estes apresentassem a pesquisadora aos vizinhos do mesmo condomínio. Esse método revelou-se como uma solução a contento para essa pesquisa, que tinha como objeto o estudo de caso de um condomínio residencial.
Aproximações preliminares ao tema
Foi feita uma opção por iniciar a exploração do tema com o uso de diversos instrumentos menos estruturados, tanto qualitativos como quantitativos, de modo a delimitar seu universo. Nesse sentido foram feitas observações de campo, entrevistas com administradores e advogados especializados em condomínios e pesquisa documental em
jornais e revistas especializados no tema. As entrevistas com administradores e advogados foram feitas de forma semi-estruturada e aberta. As entrevistas foram gravadas e, posteriormente, foram feitas transcrições de trechos considerados mais relevantes.
A pesquisa documental seguiu dois caminhos: o primeiro foi um levantamento no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, realizado entre os meses de março e maio de 2007. Foram selecionadas as seções dos Classificados dos Imóveis do Jornal “Diário de Pernambuco” entre os anos de 1975 e 2005. O objetivo aqui foi entender como se deu o processo de desenvolvimento dos condomínios residenciais no Recife, partindo dos primeiros condomínios que atraíram seus moradores proporcionando lazer e diversão, até aqueles que se justificam unicamente em função de segurança.
O segundo foi um estudo de artigos de jornal e revista especializados no tema condomínios. Ao longo dos anos de 2005 e 2006 foi colecionado o caderno Morar Bem do jornal O Globo, no qual em uma coluna intitulado “Cartas do Leitor”, pessoas consultam especialistas sobre problemas enfrentados dentro de seus condomínios. As colunas trazem a descrição do problema e a solução indicada por especialistas na questão condominial. A revista Condomínio – em circulação no Recife, João Pessoa e outros estados do nordeste – é especializada no tema condomínios e também possui uma coluna para tirar dúvidas de moradores de condomínios. Nesta revista há uma coluna dedicada à jurisprudência de casos levados à justiça e à resolução dos processos. Ambas as fontes foram fundamentais para o conhecimento do universo dos conflitos e transgressões apontados como principais problemas da vida condominial.
Questionários estruturados e a Teoria da Facetas
A construção de um instrumento como o questionário é um processo longo e cuidadoso que passa por diversos ajustes até a obtenção de sua versão final. Embora o uso de
questionários seja amplamente aceito em investigações acadêmicas e profissionais, há uma crítica ao instrumento quando este não é bem elaborado. Não são poucos os exemplos de questionários mal elaborados que confundem o respondente, apresentam questões tendenciosas, ou mesmo dirigem as questões a respostas esperadas. Some-se a estas críticas, a utilização de procedimentos estatísticos pobres, que somente oferecem descrições dos elementos estudados, mas não abordam as relações entre esses elementos e sua significância estatística. Visando evitar tais percalços e a procura de métodos e técnicas para elaboração de entrevistas e questionários, chegou ao nosso conhecimento a Teoria das Facetas, como uma teoria para desenho, elaboração e análise de instrumentos de pesquisa.
A Teoria da Facetas pode ser apresentada como uma teoria de pesquisa, visto que utiliza meios para explicitar e clarificar o universo de pesquisa e suas hipóteses. A Teoria das Facetas utiliza uma diversidade de instrumentos e métodos de coleta de dados entre elas a elaboração de questionários de forma consistente. Isso acontece porque os questionários são resultantes de mapeamento estrutural da pesquisa, que é explicitado em um primeiro momento a partir dos objetivos e a hipótese da pesquisa. O mapeamento funciona com uma espinha dorsal para a organização e sistematização dos dados coletados e, conseqüentemente, a Teoria da Facetas torna possível a comparação e acumulação dos resultados assim como sua replicação científica (MONTEIRO, 1989).
A Teoria das Facetas, segundo Canter (1985), apresenta-se como uma nova possibilidade de estruturação do conhecimento. A primeira ação ao se trabalhar com essa metodologia consiste em estabelecer, de modo bastante claro, os aspectos sob análise, ou seja, o que se quer conhecer e pode-se dizer a natureza das respostas que se deseja obter. Parte-se assim para o estabelecimento de relações ou hipóteses, onde são considerados os conjuntos de elementos que são julgados pertinentes de serem estudados (facetas) e suas relações com outros aspectos (outras facetas) também julgadas relevantes.