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UMA NOVA OMUNIDADE?

SOCIEDADE, CONTROLE SOCIAL E TRANSGRESSÃO

Regras, Normas, Leis, Hábitos e Costumes

A definição de Giddens (2005) para normas é sucinta: “normas são regras de comportamento que refletem ou incorporam os valores de uma cultura” (p: 38). Valores, por sua vez, são idéias que definem o que é considerado importante, válido e desejável. Dessa forma, os valores e as normas moldam a forma como as pessoas se comportam dentro de sua cultura e de sua sociedade.

Todas as comunidades e sociedades foram e são baseadas em normas, pois elas são fundamentais para o bom convívio social. Existe normalmente um consenso sobre a necessidade de normas e também sobre a necessidade em se respeitá-las. Normas são compostas por regras (informais) e leis (formais), sem as quais seria impossível o convívio em uma comunidade em uma sociedade. Mas, para que as normas sejam utilizadas e respeitadas em uma sociedade é preciso que todos as conheçam. Portanto, a situação ideal, e esperada, é

que todos aprendam, aceitem e respeitem essas normas e quando isso não ocorre, são necessárias medidas para reprimir o não acatamento das mesmas.

Os membros de cada sociedade, e cada cultura, criam suas próprias normas, regras, leis, hábitos e costumes baseados em valores culturais peculiares e, em grande parte, variáveis de uma sociedade para outra. É importante fazer aqui uma distinção entre “sociedade” e “cultura”, termos que muitas vezes são usados indistintamente. Apesar de diferentes, sociedade e cultura guardam entre si conexões profundas e muitas vezes indissociáveis. Uma não pode existir sem a outra, “sem cultura, não seríamos sequer ‘humanos’” (GIDDENS, 2005:38). Uma sociedade é unida pelo fato de seus membros construírem relações sociais estruturadas de acordo com sua própria cultura. A cultura, portanto, compreende aspectos aprendidos socialmente e não herdados biologicamente, ou seja, são aspectos compartilhados por membros de uma sociedade que tornam possível o acontecimento das relações sociais. Estes aspectos culturais podem, segundo Giddens (idem), ser divididos entre aspectos tangíveis – objetos, símbolos e tecnologia – e intangíveis – crenças, idéias, valores, sendo cada cultura única e possuindo características próprias, diferentes de todas as outras.

Portanto, desde o momento em que nascemos, começamos a apreender e interiorizar uma cultura, cujos valores e normas fazem com que nossos comportamentos e ações sejam voltados para o convívio harmônico em nossa sociedade. Mas, valores e normas fazem parte do processo dinâmico de desenvolvimento de uma sociedade e de uma cultura, e por essa razão estão sujeitos a mudanças e transformações através do tempo. Assim, o comportamento pode variar diante de situações semelhantes, em culturas diversas ou mesmo dentro de uma mesma sociedade, já que são raras as sociedades que hoje em dia se encontram isoladas culturalmente (GIDDENS, 2005; HALL, 2004).

As primeiras comunidades tinham normas informais, isto é, normas que não eram escritas. Com o desenvolvimento da escrita, as sociedades sentiram a necessidade de

estabelecer normas formalizadas, pois dessa forma seriam mais bem difundidas e mais fáceis de serem aplicadas e cumpridas. Mas, antes de entrar em contato com a sociedade, o primeiro contato do ser humano é com a família, que transmite regras para a integração do indivíduo dentro de sua organização social. A família, assim como os centros religiosos e as escolas, são as instituições básicas de uma sociedade. Essas instituições têm um papel fundamental para a pessoa, porque é através delas que são ensinados os valores e normas que fazem parte da cultura de uma sociedade (DIAS, 2005).

Existem vários tipos de normas em uma sociedade, que são comumente divididas em dois grupos: as formalizadas e as não formalizadas. No Brasil, as formalizadas são as leis como as que estão na Constituição, no Código Civil, no Código Penal e outros tipos de leis oficializadas pelo Estado. Essas normas oficiais são obrigatórias e a priori inquestionáveis, e a desobediência a elas pode acarretar em sanções punitivas como multas e prisões. As normas não formalizadas incluem um vasto leque de regras para o bom convívio social, isto é, relações informais entre indivíduos, como, por exemplo, as normas de cortesia. Daí a dificuldade em defini-las com precisão, porque são subjetivas e não explícitas. O respeito às normas não formalizadas não consiste em uma obrigatoriedade, como nas leis e regulamentos, mas existe uma obrigação social em respeitá-las, pois caso isso não ocorra, pode haver sanções sociais como um olhar de reprovação ou até mesmo o banimento de um grupo.

As leis e regulamentos, especialmente as primeiras, são considerados mais fortes do que as regras. Em parte isso ocorre pelo tipo de sanção que a desobediência ou o desrespeito a elas podem trazer. Ser multado, preso ou desclassificado é algo que faria um indivíduo pensar duas vezes antes de transgredir uma lei ou regulamento. No entanto, receber um olhar de censura ou passar por ridículo são sanções mais leves, se comparadas com as multas ou encarceramentos. Talvez por essa razão as leis e regulamentos sejam mais respeitados do que as regras. No entanto, ambas as normas, formalizadas e não formalizadas, possuem a mesma

origem que são os valores de uma cultura. Para que uma lei seja pensada, proposta e algum tempo depois sancionada, é preciso que inicialmente haja a necessidade da sua existência. Essa necessidade parte da prática de uma ação conflitante que, após constantes repetições, gera um consenso sobre a necessidade de reprimi-la.

Sociedade e Controle Social

Para que um grupo social – uma comunidade ou uma sociedade – possa ter um convívio saudável e harmônico é necessário o estabelecimento de uma ordem social. Dentro de um grupo social, cada indivíduo possui um papel social e o bom funcionamento da sociedade depende do fato de que cada indivíduo desempenhe seu papel da forma esperada. Dessa forma, o papel social de cada um está dentro de certa previsibilidade, ou seja, em geral, todos sabem o que esperar de cada papel. Esse comportamento previsível e esperado é o que torna possível a ordem social, na qual cada um desempenha seu papel e espera que todos façam o mesmo.

Para assegurar que cada indivíduo cumpra seu papel dentro da ordem social, cada grupo social desenvolve mecanismos de controle social. O controle social envolve técnicas, estratégias e esforços para manter a ordem social. Dias (2005) classifica três formas de exercício de controle social: a socialização, a pressão do grupo e as sanções. O processo de socialização é primordial, pois ele é a base de qualquer grupo social. Durante o processo de socialização cada membro de uma sociedade apreende valores, hábitos e costumes importantes para a sociedade e necessários para o bom convívio dentro dela. A socialização é fundamental tanto para a interação entre indivíduos como para cada indivíduo desenvolver mecanismos próprios de auto-regulação, isto é, pensar sobre suas ações e comportamentos e se auto-julgar, procurando agir da forma como pensa que é melhor e mais aceitável para si e para os outros.

A pressão da sociedade, por sua vez, parte de dois tipos básicos de grupos que atuam sobre o indivíduo, a saber: o grupo primário – família, amigos e, às vezes, vizinhos – e o grupo secundário – que inclui a sociedade como um todo. Nos grupos primários, o controle social é feito informalmente e pode ser demonstrado de várias formas. Um comportamento não aceito pelo grupo pode ser percebido por um olhar de reprovação, de desprezo, de ridicularizar e até de exclusão. Dessa forma, o indivíduo exposto a essas situações sente-se coagido e tende a não se comportar mais da forma que suscitou tal reação do grupo, ou de uma única pessoa. De forma inversa, um comportamento que é aprovado pode ser demonstrado através de um elogio ou de um gesto de simpatia. Já nos grupos secundários o controle é mais formalizado, porque é feito através de regulamentos e leis. Nesses grupos, o controle torna-se mais efetivo quando é reforçado pelos grupos primários.

As sanções podem ser divididas em positivas ou negativas e formais ou informais. As positivas são formas de aprovação de determinado comportamento, como elogios, promoções e recompensas. Esse tipo de sanção incentiva o comportamento aceito como normal e esperado pelo grupo. As sanções negativas são formas de punição a um tipo de comportamento não aceito ou tido como nocivo ao grupo. São formas de sanções negativas a prisão, o ostracismo e as advertências. As sanções formais são as oficiais, de conhecimento público, e incluem multas e sentenças de prisão. As sanções informais não são oficiais e muitas vezes são sutis como um olhar de reprovação e a exposição ao ridículo. Para Dias (2005) as sanções podem ainda ser classificadas como sociais (expulsão, rejeição, ostracismo, ridículo), econômicas (multa, boicote, recusa de matrícula de estudante em débito) e físicas (tortura, prisão, pena de morte).

Por essa razão, a importância do controle social para o desenvolvimento de uma sociedade é crucial, uma vez que o controle social é responsável pela coesão social. Para Durkheim (1987), o que faz com que a sociedade exista é a coesão social. A coesão social é

estabelecida pelas normas sociais, que se encontram expressas na religião, nas leis jurídicas, nos costumes etc. Cada sociedade, da mais simples a mais complexa, estabelece normas que fazem com que os indivíduos interajam entre si segundo valores aceitos ou não socialmente, exercendo assim um tipo de solidariedade. Nas sociedades tradicionais, essa solidariedade é mecânica e os valores sociais predominam fortemente sobre os indivíduos. Nas sociedades industriais, a solidariedade é orgânica, como se a sociedade fosse um corpo e os grupos sociais fossem seus órgãos, gerando uma interdependência entre as partes e o todo. Quando há quebra das regras sociais, há uma desestabilização social (como nos momentos de embate social ou nas crises econômicas) que gera um estado de anomia, enfraquecendo os laços de solidariedade. Portanto, onde há anomia há ausência de normas para regular as relações sociais, ou seja, há uma desestabilização social. Contudo, de acordo com Durkheim, este estado tende a ser passageiro, pois caso contrário a sociedade se dissolveria. Mesmo nos casos de revolução, a anomia encontra seu ápice no confronto, para logo após serem refeitos os laços de solidariedade sob novas normas (DURKHEIM, 1987).

Transgressão Social

Esclarecido o entendimento de normas sociais, podemos dizer que o comportamento transgressor é aquele que infringe as normas, sejam elas formalizadas ou não. Porém, a definição do que vem a ser uma transgressão é bastante complexa e não encontra uma definição segura na sociologia. Isso porque o conceito de transgressão está ligado a um conjunto de normas, leis e regras. Para que haja uma transgressão é preciso haver uma norma a qual foi desobedecida ou desrespeitada. Se cada sociedade cria seu próprio conjunto de leis e regras, os conceitos de transgressão e normas irão variar de sociedade para sociedade, com todas as diferenças culturais embutidas nessa variação (COHEN, 1968).

Vivemos em constante estado de alerta para estar de acordo com o que é aceito e tolerado por nós mesmos, pela nossa família e amigos, e pela sociedade. No caso de “pequenas” transgressões ou delitos, um olhar de censura é suficiente para entendermos que o que fizemos não foi aceito. Para transgressões “maiores”, como é o caso dos crimes, a sanção extrema é a prisão. Todavia, entre o primeiro e o segundo exemplo há uma gama de comportamentos considerados transgressores da mesma forma que suas respectivas punições. Por isso, existem várias correntes que se ocupam em entender e explicar o problema da transgressão, dentre elas a filosofia, a psicologia e a sociologia. Porém, mesmo dentro de cada uma dessas áreas existem vertentes diferentes e muitas vezes divergentes.

Dentro da filosofia existem inúmeras abordagens sobre esse tema. Dentre elas, a idéia do “Homem Natural”, desenvolvida por Thomas Hobbes, que apesar de ser considerada uma visão determinista, é ainda bastante utilizada. Segundo o conceito de Hobbes, “o homem natural, sem os laços da sociedade civil, é governado pela razão a serviço de suas paixões” (COHEN, 1968: 12). Essas paixões são o desejo por lucro, segurança e prestígio. Para Hobbes, num quadro que ele chamou de Leviatã, isso é traduzido numa luta de todos contra todos, já que não existem regras, leis ou restrições a essa propensão inata do homem. A solução seria então a nomeação de uma pessoa, ou um grupo de pessoas, com o poder de promulgar leis adequadas (contrato social) e assegurar que elas sejam cumpridas.

Nos estudos da área de Psicologia também existem diversas explicações para a transgressão, entre as quais a linha Freudiana, a qual estabelece que cada pessoa tem dentro de si uma energia agressiva e destrutiva, chamada por ele de id. Em contraposição ao id estão o ego – que é a capacidade de levar em conta a realidade – e o superego, a consciência moral. Nesse sentido o indivíduo teria dentro de si três forças atuando de forma que o ego e o

superego se contrabalanceiam para controlar o id. A pessoa vivendo em sociedade aprenderia, portanto, a controlar seu impulso agressivo e transgressor.

Em algumas das teorias filosóficas e psicológicas, descritas acima de forma breve, percebe-se que existe um mesmo postulado no qual a natureza humana teria uma tendência para a transgressão. Diversamente dessas, algumas vertentes da Sociologia tentam mostrar que a natureza humana tem uma tendência à moralidade. A moralidade é vista, dessa forma, como uma obrigação e um dever, mas ao mesmo tempo como boa desejável e um estímulo positivo (DURKHEIM, 1996).

Em pelo menos um ponto todas essas teorias convergem. Todos insistem que “para haver relações entre os seres humanos, é preciso haver regras, e as pessoas precisam ser capazes de supor que, de um modo geral, essas regras serão cumpridas” (COHEN, 1968: 15). Contudo, toda regra cria uma potencialidade de transgressão.

A transgressão, em seu sentido mais amplo, ameaça a vida em sociedade. Mas em alguns casos ela pode servir de termômetro ou indicador de que as regras precisam ser revistas. Nesse aspecto, a transgressão pode ser um instrumento de controle e mudança, mostrando regras que não estejam adequadas a determinado contexto social. A ausência de atitudes transgressoras pode significar a satisfação com as regras em vigor, mas por outro lado pode significar também uma conformação passiva com essas regras, uma ausência de reação. Por isso, transgressões devem ser vistas como importantes elementos, necessários ao equilíbrio de uma sociedade, porque é através de transgressões que muitas vezes são expostas insatisfações e conflitos em forma de reação ao um modelo vigente. Dessa forma, a transgressão atua como um termômetro denunciador de vários fatores que cercam uma sociedade.

Os níveis de tolerância são importantes na questão de determinação da própria transgressão. Transgressões toleradas podem ser entendidas como “não transgressões” ou transgressões “menores”. Transgressões não toleradas são logo entendidas como “sérias” e não desejadas. De certa forma, o nível de tolerância atua como regulador dos tipos e

frequências das transgressões. Todo sistema social tem uma tolerância relativa a determinados tipos de transgressão, desde que não atinjam pontos vitais dentro do sistema. Os pontos vitais de um sistema, por sua vez, só podem ser determinados com uma análise de sua organização e pela atividade desempenhada por cada componente.

Existem três tipos de transgressões que são nocivas à organização social de acordo com Cohen (1968). O primeiro deles é o descumprimento de um acordo, já que em uma atividade social organizada é necessário que haja ações coordenadas. Se uma dessas ações não for efetuada, há um comprometimento ou ruptura no funcionamento contínuo dessa atividade, como por exemplo, o não pagamento por um serviço prestado. Pressupõe-se que houve um acordo quanto ao tipo de serviço e ao pagamento deste. Porém, se uma das partes não cumpre o acertado há um rompimento do acordo prévio. O segundo tipo de transgressão é a desproporcionalidade entre esforço e recompensa. Esse tipo de transgressão destrói a disposição das pessoas em cumprir seus papéis dentro do sistema social, como é o caso de um impostor e/ou especulador que tem os lucros sem passar pelas etapas ou “sacrifícios” para obtê-los. Finalmente, o terceiro e talvez o mais nocivo tipo de transgressão para um sistema social é a desconfiança. Cada componente do sistema possui um papel e o desempenho de um papel depende do desempenho dos outros participantes, pois os papéis têm uma correlação entre si e só faz sentido obedecer às regras se todos assim o fizerem. A desconfiança enfraquece a organização e desconfiar do outro significa considerar em vão os próprios esforços já que o futuro da convivência fica como incerto e arriscado (COHEN, 1968).

A forma mais comum de controle das transgressões é a punição. Punir um infrator pode servir de exemplo e de controle, fazendo com que as pessoas voltem a confiar no sistema. Sem a punição, a confiança vai sendo minada e nada garante que a punição faça com que os indivíduos voltem a acreditar no sistema. As regras normativas dão alívio à incerteza da interação social, pois elas definem o que é permitido e o que é proibido, assim como os

direitos e obrigações de cada participante. No entanto, as regras não são óbvias. A função da justiça é a de balizar e reduzir as interpretações ambíguas às regras. O comportamento transgressor é aquele que infringe as regras, mas a transgressão não é necessariamente sinônimo de desorganização social. Mas, caso isso aconteça, a desorganização social pode gerar a dissolução dos laços sociais, a desintegração dos grupos sociais e a ruptura das atividades sociais e a transgressão social passa a ser uma ameaça à organização social (COHEN, 1968).

Infração, Violação, Delito e Transgressão

As ações transgressoras podem acontecer em vários níveis, em diferentes graus de intensidade e gerar diversos tipos de consequências. Dependendo desses fatores, o que nomeamos aqui de transgressão pode assumir outros nomes como infração, violação, delito, entre outras nomenclaturas. A definição mais encontrada nos dicionários é a de que infringir é “desobedecer a; violar, transgredir, desrespeitar uma lei, um regulamento, um uso, uma norma”, ao passo que violar é “qualquer transgressão a normas, leis ou obrigações” ou “qualquer ofensa a um direito ou à liberdade alheia”. Já o delito é “qualquer ato que constitua uma infração às leis estabelecidas; ato considerado punível pelas leis que regem uma sociedade; crime, infração; transgressão da moral ou de preceito preestabelecido; falta, infração”. Por fim, a transgressão é definida como o ato de “não cumprir, não observar (ordem, lei, regulamento etc.); infringir, violar”. Como se pode ver, as quatro definições se assemelham no momento em que para definir uma é necessário utilizar as outras. No entanto, para efeito desse trabalho faz-se necessário adotar apenas um dos quatro termos para efeitos didáticos, sendo o termo escolhido “transgressão”.

A definição da palavra “transgredir” varia pouco entre os dicionários da língua portuguesa. De acordo com o dicionário Aurélio Buarque de Holanda, transgredir significa “1.

passar além de; atravessar; 2. desobedecer a; deixar de cumprir; infringir; violar; postergar” (FERREIRA, 2006). De forma semelhante, para Francisco Fernandes e Celso Luft, transgredir significa “atravessar; passar além de; violar; infringir: transgredir as leis; deixar de cumprir; postergar” (FERNANDES, 1998).

O objeto de investigação desse trabalho é a transgressão ocorrida dentro dos condomínios residenciais. Um dos critérios utilizados nessa pesquisa para caracterizar uma ação como transgressora é ir de encontro a pelo menos uma das três normas que regulam os condomínios residenciais ou ainda, ir de encontro às regras da boa convivência. As normas que regulam os condomínios são o Código Civil Brasileiro, a Lei de Condomínio e a Convenção Interna do Condomínio. É importante observar que o tipo de transgressão que é objeto de interesse dessa pesquisa não inclui necessariamente a violência. O interesse aqui é estudar ações infratoras que normalmente são consideradas “leves”, “pequenas”, e por essa razão as ações criminosas não se encaixam no objeto de estudo desse trabalho, mesmo considerando que uma ação transgressora, que implica na desobediência às normas, pode ser caracterizada como criminosa. No entanto, a palavra “crime” não raras vezes está associada à violência e possui uma conotação mais forte do que a palavra “transgressão”.

Para deixar mais claro o que vem a ser o objeto de estudo dessa pesquisa, alguns exemplos de ações transgressoras podem ser dados, como é o caso, por exemplo, da inadimplência, um tipo de transgressão muito frequente em condomínios residenciais. Tanto no Novo Código Civil Brasileiro como na Lei de Condomínios, está previsto que cada morador deve obrigatoriamente arcar com as despesas coletivas do condomínio. Por isso, o não cumprimento dessa obrigação constitui certamente uma ação transgressora. Outro exemplo muito comum é o barulho provocado por festas ou aparelhos de som em alto volume. Nesses casos, as duas leis citadas acima possuem cláusulas restringindo esse tipo de ação