UMA NOVA OMUNIDADE?
TEORIA DAS FACETAS E ANÁLISE MULTIDIMENSIONAL
A teoria das Facetas (TF) foi elaborada na década de 1950 por Louis Guttman, que criticava os métodos estatísticos utilizados nas Ciências Sociais pela falta de clareza na definição dos problemas da pesquisa (CANTER, 1985). Partindo dessa constatação, Guttman elaborou a Teoria das Facetas, como método de pesquisa que permitia o controle de todas as etapas da pesquisa. Por essa razão a Teoria das Facetas é para Canter (idem) uma metateoria, uma vez que, fornece uma estrutura de trabalho, na qual as hipóteses e a teoria da pesquisa são especificadas e testadas.
A Teoria das Facetas encontra aplicação em vários campos disciplinares sendo, porém, tradicionalmente aplicados em estudos atitudinais e comportamentais, (SHYE & ELIZUR, 1994; CANTER, 1985; ROAZZI & MONTEIRO, 1995; BILSKY, 2003). Um dos motivos para que a TF não fosse ainda mais difundida entre pesquisadores no inicio de sua formulação, foi a dificuldade de disponibilidade de softwares para a realização das análises estatísticas multidimensionais. Atualmente, com o desenvolvimento dos computadores mais velozes é possível contar com programas mais capazes de trabalhar com dados complexos.
Explicando a Teoria das Facetas
A Teoria das Facetas é uma meta-teoria que consiste na abordagem compreensiva das observações e análises de dados empíricos de pesquisas. Para isso, a TF oferece ferramentas e procedimentos que sistematizam desde a construção dos objetivos e hipóteses de uma pesquisa, passando pela construção dos instrumentos de coleta dos dados, tendo em consideração a possibilidade de análise dos dados. Consequentemente, a TF permite a estruturação e reestruturação do conteúdo da pesquisa de maneira clara e lógica.
Uma das maiores vantagens da Teoria das Facetas é facilitar o conhecimento cumulativo ao abrir possibilidades para a descoberta de leis essenciais da pesquisa científica (SHYE & ELIZUR, 1994). A Teoria das Facetas parte do pressuposto de que “nas pesquisas empíricas na maioria das vezes não interessam quaisquer variáveis concretas, mas sim o universo das variáveis que representam” (BILSKY, 2003). Por isso, a utilização da TF em pesquisas nas áreas das ciências sociais pode ser bastante reveladora e apresentar resultados concisos.
Mapeamento e Atribuições
A noção de mapeamento está ligada ao sistema de representações simbólicas e, por essa razão, está presente nas mais simples atividades mentais que realizamos todos os dias. Todas as vezes que transformamos mentalmente uma coisa em outra coisa, estamos realizando um mapeamento, ou seja, atribuindo algo simbolizado, esquematizado, idealizado a algo real, que experimentamos nas nossas vidas cotidianas. Mas, não é apenas no plano mental que realizamos mapeamentos, também fazemos isso de forma literal. Como por exemplo, no caso do mapa de uma região, um país; esse mapa é uma representação em uma escala reduzida de algo que existe realmente. Para confeccionar o mapa, cada pedaço do país se torna um foco que será representado no mapa e para cada foco (cidade, lagoa, rio) é atribuída uma imagem no mapa. As regras utilizadas para fazer as atribuições em uma pesquisa são exatamente o do mapeamento.
Quadro 5.1 – Processo de mapeamento na Teoria da Facetas
Processo de mapeamento
FOCO → [ATRIBUIÇÃO] → IMAGEM
As noções de mapeamento e atribuições são utilizadas na Teoria das Facetas como noções básicas de tratamento das observações empíricas. Todo esse processo toma forma, com a construção de uma Sentença Estruturadora (General Mapping Sentence - GMS). A Sentença Estruturadora se constitui no próprio processo de mapeamento.
Três Estágios da Pesquisa
Antes de nos atermos à Sentença Estruturadora, ainda são necessários esclarecimentos sobre a Teoria das Facetas como método de pesquisa. Monteiro (1989) estabelece três estágios para uma pesquisa utilizando a Teoria da Facetas: delineamento da pesquisa (research design), análise e meta-teoria, onde os três estágios são trabalhados simultaneamente.
No delineamento da pesquisa, ocorre a clarificação das hipóteses através da averiguação das suposições e do estabelecimento de uma estrutura para guiar as observações empíricas. Ainda nessa fase, acontece a geração das facetas, a construção da Sentença Estruturadora (GMS) e a elaboração dos instrumentos de investigação em formulários, no caso os questionários com as respectivas escalas de respostas.
O processo de análise permeia todo o processo, desde a concepção da estrutura de investigação. Existem métodos de análise multidimensionais como o MDS (Multidimensional Scaling) e o SSA (Similarity Structural Analysis) e o POSA que são classicamente utilizados nas análises de facetas. Estas análises apresentam os elementos das facetas mapeadas em um espaço geométrico obedecendo à condição de que a distância entre pontos (variáveis) representa a similaridade entre eles.
A meta-teoria é um estágio resultante das análises críticas entre as relações definidas teoricamente e as observações empíricas. A TF é uma teoria que permite o estabelecimento de uma estrutura que dá suporte à definição de teorias para a pesquisa, assim como do reconhecimento de suas falhas e contradições.
Desenhando as Facetas
Na teoria das Facetas, as variáveis, ou seja, cada elemento de uma faceta, são concebidas como relacionadas a priori com outras variáveis que estão dentro do contexto de domínio da pesquisa, formando uma rede de co-relações entre si. Esse contexto de definição da população, das facetas e suas relações, é chamando de universo de conteúdo.
As facetas são conjuntos de elementos ou variáveis correspondentes a uma determinada categoria a ser pesquisada. Por isso as facetas são designadas por nomes. Os relacionamentos entre as facetas são indicados por setas e conexões, essas últimas feitas em linguagem ordinária.
Cada faceta é um conjunto de objetos – conceitos, pessoas, etc. – que assumem o papel de componentes nesse conjunto, os quais podem ser representados de forma cartesiana (SHYE & ELIZUR, 1994). As facetas definem quem, o quê e onde a ser investigado. As facetas não são variáveis da pesquisa, elas são conjuntos de variáveis, isto é, os elementos formadores das facetas delimitam de algum modo um fenômeno de avaliação. As facetas são relacionadas formando uma estrutura, onde cada faceta não possui sentido isolada, mas sim em relação com outras facetas dentro da estrutura. Essa estrutura é chamada de Sentença Estruturadora Geral (General Mapping Sentence, GMS). A geração da GMS é um processo input e output ao mesmo tempo. (MONTEIRO, 1989).
A Sentença Estruturadora
A Sentença Estruturadora é uma ferramenta utilizada pela Teoria da Facetas e que, como o próprio nome explicita, funciona como uma estrutura para formular definições claras dos conceitos de uma pesquisa através do estabelecimento de relações entre esses conceitos e as observações empíricas. A Sentença Estruturadora é uma frase, isto é, uma afirmação verbal que contém um conjunto de aspectos ou facetas e os seus respectivos relacionamentos. A sentença estruturadora possui uma aparência esquemática e, talvez por isso mesmo, proporcione um leque vasto de possibilidades para formulação e modificação dos conceitos e objetivos de uma pesquisa. Dessa forma, a pesquisa pode ser adequada de forma mais clara e precisa ao que se deseja obter como resultados (MORENO, 1999).
A Sentença Estruturadora fornece informações importantes sobre o modo de observação realizado para a pesquisa. Primeiramente ela identifica o assunto, ou tema, a ser observado. Posteriormente, revela o que é para ser observado sobre aquele tema. Com relação aos dois primeiros passos ela indica o que é para ser observado e registrado (SHYE & ELIZUR, 1994).
A Sentença Estruturadora é um esquema para fazer atribuições específicas, uma vez que esta se divide em três partes, a faceta domínio, a faceta de alcance e a regra para fazer as atribuições entre o que está no domínio e o que está no alcance.
A faceta domínio (domain facet) se refere aos aspectos essenciais das questões propostas, ou seja, que aspectos – dentro de um dado contexto – serão pesquisados. Consequentemente, a faceta de domínio é um conjunto de conceitos que classificam e descrevem o conteúdo da pesquisa. Essa faceta tem a forma de uma questão cuja resposta está na faceta de alcance (range facet). A faceta domínio indaga para quê ou para quem os valores da faceta de alcance devem ser atribuídos. A faceta domínio pode estar articulada com uma faceta de foco e uma ou mais facetas de sentido.
A faceta de alcance (range facet) especifica as respostas possíveis ou aceitáveis à questão formulada pela faceta domínio. Podem ser utilizadas qualquer número de categorias, desde que sejam mais que duas, dependendo da natureza das informações disponíveis, contando inclusive com as limitações de campo, e do que a hipótese da pesquisa abre como possibilidades de respostas.
Quadro 5.2 – Esquema da relação entre as facetas
FACETA DOMINIO regra FACETA DE VARIAÇÃO foco e sentido → alcance ou extensão
pergunta ou questão → respostas possíveis
Quadro 5.3 – Os tipos de facetas FACETAS Descrição D O M ÍN IO
Referente Apresenta os aspectos centrais a serem pesquisados, como por exemplo, os tipos de transgressões: Financeira, Sensorial, Espacial, Ambiental, Social e Criminal.
Foco Apresenta o foco da faceta anterior, como por exemplo, o nível de gravidade da transgressão que pode ser: Leve, Regular ou Grave.
Nível Espacial
Apresenta o conjunto de variáveis espaciais, como por exemplo: Privado (casa), Comum (área comum do condomínio) e Público (outros lugares da cidade
A L C A N C E Racional de variação
Apresenta as possibilidades de resposta à sentença estruturadora. Ela é geralmente apresentada em categorias que respondem a uma ordem que vai de um extremo positivo a um extremo negativo, como por exemplo, numa escala de freqüência que varia entre “nunca” e “sempre”.
A Teoria das Facetas aplicada à presente pesquisa
A escolha pela utilização da teoria das facetas para essa pesquisa ocorreu por várias razões. Em primeiro lugar estão as vantagens já mencionadas, entre elas a possibilidade de sistematização dos objetivos e hipóteses para a construção de um instrumento para a pesquisa empírica. Outra razão é o fato dessa pesquisa trabalhar com o estudo analisando comportamentos, atitude, e julgamentos, como objetivo maior para entender a lógica por trás de atitudes transgressoras em locais de residência – nesse aspecto esta teoria abre possibilidades para a descoberta de leis essenciais da pesquisa e para a pesquisa. A possibilidade de gerar um conhecimento cumulativo é outra vantagem, visto que o objeto de estudo ainda é pouco explorado e pouco se conhece a respeito da transgressão social nas novas morfologias residenciais dos condomínios fechados.
Como foi dito anteriormente, o objetivo geral dessa pesquisa é investigar e entender a existência de atitudes transgressoras dentro de condomínios residenciais; quais são os tipos de transgressões; quais são os casos mais frequentes; quais são os motivos que levam a tais atos
transgressores; quais são os elementos facilitadores ou inibidores para a ocorrência de transgressões e; quais as consequências dessas transgressões para os moradores de condomínio e para a sociedade como um todo. Para tanto, serão estabelecidos padrões de ações transgressoras e em que extensão a experiência (cotidiana) de transgressão nos espaços de condomínios residenciais produzem, consolidam e facilitam a emergência de mais transgressões dentro e fora dos limites do condomínio, especialmente no que concerne ao julgamento legal e social (moral) de tais atitudes.
Apresentaremos a seguir o questionário da pesquisa com os passos para estruturação das investigações utilizadas nesta pesquisa; apresentação das facetas e a formulação das sentenças estruturadoras.