2.2 Processo Decisório Estratégico
2.2.2 Processo Decisório – Outros Paradigmas
2.2.2.1 Processo Decisório – Abordagem Incremental
Da evolução de pensamentos como disjointed incrementalism (Lindblom), lógico incrementalismo (Quinn) e estratégia emergente (Mintzberg), entre outros, nasceu a Escola da Aprendizagem, definida por Mintzberg e Lampel (1999) como aquela que vê a estratégia como emergente, os estrategistas presentes em toda a organização e a formulação e implementação da estratégia como um único processo.
Fachin (1984, p. 244) argumenta que a teoria do modelo racional tem sido questionada em termos de sua real ocorrência por não considerar o papel que os fatores comportamentais e políticos desempenham na formulação da estratégia organizacional.
Para Lindblom (apud Quinn, 1981), a abordagem analítica da tomada de decisão - análise cuidadosa de muitas alternativas em termos de explicitar objetivos - falha porque não reconhece a inabilidade humana de lidar com problemas complexos, como desvios na informação, o custo da análise, os problemas de tempo e as dificuldades de definir objetivos realistas.
O processo incremental de geração da estratégia é apresentado como um contraponto ao método baseado na análise e controle racional – estudo sistemático de concorrentes e mercados, dos pontos fortes e fracos da empresa e a combinação dessas análises tentando produzir estratégias claras, explícitas e completas (MINTZBERG, 1987, p. 419).
1. Estratégias efetivas tendem a emergir de uma série de subsistemas de formulação de estratégia. Cada subsistema envolve diferentes esquemas de atores, necessidade de informação e pressão do tempo.
2. Os padrões lógicos da formulação de estratégias efetivas para cada susbsistema são tão poderosos que podem servir como abordagem normativa na criação de elementos-chave da estratégia maior da organização.
3. Devido a esses subsistemas e aos seus limites de processo e de sua própria cognição, a estratégia tende a ser construída de forma incremental.
4. Nas mãos de certos gestores, esse incrementalismo não tende a ser confuso, mas uma técnica proposital, efetiva e pró-ativa para melhorar e integrar as abordagens comportamental e de planejamento na formulação da estratégia.
Para Tarter et al. (1998), Charles Lindblom cunhou, em 1959, o conceito do modelo incremental de tomada de decisão como “the science of muddling through”, quando argumentou que os administradores passam mais tempo na “confusão” do que em análises sistemáticas sobre fins e meios. No modelo, definir objetivos e gerar alternativas não é um processo separado e a direção não é fixada pelo processo, mas pela natureza do problema. Esse modelo reduz as alternativas de decisão, pois os administradores consideram apenas aquelas que não afetarão a situação existente. O processo é de uma evolução vagarosa baseada nas saídas que os administradores tomam como aceitáveis.
Os incrementalistas assumem que a seleção de valores e a análise empírica não se realizam distintamente no tempo e sem influência mútua. Esse modelo tem como características principais a tentativa de descentralização e democratização de decisões e a elevada capacidade de aprimoramento e adaptação e, no caso, as políticas seriam mais sensíveis aos diversos grupos de interesse envolvidos, o que pode representar mais vezes os interesses dos grupos mais poderosos e articulados. Além disso, o processo incremental assume um caráter de contínuo fazer e refazer, e as políticas não são consideradas fato final, mas uma aproximação sucessiva em direção ao objetivo almejado, o qual por sua vez, também se transforma continuamente (GONTIJO; MAIA, 2004, p. 19).
Quinn (1981, p. 59) observa que o processo decisório em cada subsistema estratégico move da seleção de alvos até a definição de rotas gerais, especificação de caminhos, comprometimento inicial, táticas de adaptação que levam à definição da estratégia completa do subsistema ou à redefinição de objetivos.
O incrementalismo lógico descreve como executivos confrontam eventos ou assuntos não estruturados e gerenciam tempo, poder e informação para construir uma direção de ação ancorada em grande consenso e em informação.
Stein (1980) considera que no modelo incremental, a tomada de decisão é o processo de aproximação sucessiva de objetivos desejados em que o que é desejado continua a sofrer mais profundas reconsiderações. O autor critica o modelo de Lindblom como representante de uma forma como as decisões políticas devem ser tomadas – modelo normativo – não como elas são realmente tomadas – modelo descritivo.
Quinn (1980, p. 3), no entanto, argumenta que existe uma tendência dos gestores mais conscientes e pró-ativos de moverem-se, na tomada de decisão, de forma mais incremental, para:
♦ melhorar a qualidade da informação utilizada nas decisões estratégicas;
♦ lidar com variáveis como tempo ou as necessidades dos subsistemas, pelos quais as decisões são tomadas;
♦ lidar com resistência pessoal e pressão política;
♦ construir uma consciência organizacional, um entendimento e um comprometimento psicológico que reflita em implementação efetiva;
♦ diminuir a incerteza que cerca decisões estratégicas por meio da promoção de troca de conhecimento entre a empresa e o meio;
♦ aumentar a qualidade das próprias decisões estratégicas mediante ações de envolvimento daqueles que detêm o conhecimento específico, pela obtenção da participação daqueles que efetivamente devem levar a cabo as decisões, evitando ações prematuras ou momentâneas que podem direcionar erroneamente a decisão.
Por mais racionais que sejam, as organizações não podem prever eventos (em tempo, severidade ou natureza deles) que interfiram na sua direção e planejamento, e quando eles acontecem, a capacidade de absorção pela empresa para analisar causas e alternativas é limitada. Por essa razão, afirma Quinn (1989), os executivos seguem uma linha low profile, incremental, na formulação da estratégia - a decisão é vaga até a melhoria no nível das informações, as opções não são fechadas e busca-se o entendimento da situação.
A perspectiva incremental incorpora pressupostos da abordagem comportamental e nela os decisores só podem ser entendidos como atores sociais, ou seja, elementos dotados de
limitações cognitivas que se encontram em contínua interação com outros agentes e com a construção social em que se inserem (GONTIJO; MAIA, 2004).
Outro importante ponto da perspectiva incremental diz respeito à questão da segregação entre formulação e implantação da estratégia, presente principalmente no Modelo Racional, mas que não se constitui numa característica desse modelo.
Para Mintzberg (1987, p. 424) estratégias podem se formar assim como ser formuladas. Uma estratégia realizada pode emergir como resposta a uma situação em evolução ou pode ser introduzida deliberadamente, por um processo de formulação seguido de implementação. O autor questiona se essa distinção ou mesmo a suposição de que formulação deveria preceder implementação, não seria simplesmente uma versão da básica forma de racionalidade na qual se ancora o pensamento ocidental.
Observa-se que a similaridade entre as teorias sobre formulação da estratégia e processo decisório estratégico é abordada na literatura de forma complementar.
De fato, as teorias de formação estratégica baseadas no planejamento estão mais próximas do modelo de decisão racional, enquanto que a formação emergente ou adaptativa apresenta maior similaridade com os modelos de decisão política e com o pensamento incremental. O Garbage Can constitui-se em uma teoria à parte, talvez mais próximo do modelo adaptativo de formação da estratégia.
Da similaridade, foram operacionalizados os conceitos, como forma de garantir que o estudo esteja focado na parte estratégica da tomada de decisão, mas sem desviar dos modelos e paradigmas sobre o assunto mais fortemente presentes na literatura.
3 COOPERATIVAS DE CRÉDITO E DECISÃO ESTRATÉGICA
A seguir, breve histórico das cooperativas de crédito no Brasil, a configuração atual do cooperativismo, denominações e entidades e a importância do setor para o sistema financeiro nacional e, principalmente, para a expansão de crédito no país.
Esta seção trata ainda de analisar os estudos existentes no Brasil relativos ao setor de cooperativismo relacionados ao tema processo decisório estratégico.