Capítulo II – COMPREENSÃO LEITORA: CONCEITOS E PROCESSOS PROCESSOS
II. 1.5 – Processos metacognitivos
Os processos metacognitivos aludem aos conhecimentos que o leitor adquiriu sobre o processo de leitura. Afigura-se igualmente importante “com a capacidade do leitor se aperceber de uma perda de compreensão e utilizar, neste caso, estratégias apropriadas para resolver o problema” (Giasson, 2004, p. 198).
Este tipo de processos também diz respeito ao uso de estratégias de estudo, ou seja, estratégias que ajudem a aprendizagem de conhecimentos novos tendo em conta a leitura de um texto. Quando nos referimos a metacognição aplicada à leitura, referimo-nos habitualmente ao termo metacompreensão. Existem duas correntes de pesquisa no que respeita a metacompreensão. A primeira centra-se nos processos cognitivos e resulta dos trabalhos elaborados por Flavell (1981), a segunda centra-se nos estudos efectuados por Brown (1980) e guia-se para a gestão dos processos cognitivos (cit in Calderón, 2003) A primeira corrente, incide sobre os conhecimentos que um leitor tem sobre algumas habilidades, das estratégias e dos materiais necessários para que este tenha sucesso numa atividade de leitura. Este saber geralmente subdivide-se em três vertentes:
a) O conhecimento do próprio indivíduo, se o leitor está consciente ou não dos seus recursos cognitivos;
b) O conhecimento sobre a atividade que vai desenvolver, ou seja se o leitor está consciente das exigências da atividade;
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c) O conhecimento sobre as estratégias, ou seja, se o leitor está consciente das estratégias que lhe são mais úteis para resolver a leitura ou para desenvolver uma atividade.
Ferero (2006) e Montague, M. et al. (2011) dizem-nos que a segunda corrente recai sobre a capacidade de usar processos de autorregulação. Assim, o leitor quando utiliza este processo averigua se a compreensão se faz bem. No caso de detectar algum problema, vai utilizar estratégias que irão possibilitar a sua resolução (Palmer et al, 1986). Brown (1980, cit in Ribeiro, 2005) vai mais longe, realçando quatro aspectos diferentes a perceber:
a) Quando se compreende ou não compreende;
b) Aquilo que compreendemos e o que não compreendemos; c) O que necessitamos de compreender;
d) Que podemos fazer algo quando não compreendemos.
Para Krás (2010), o mecanismo de controlo da compreensão necessita de um estado de alerta do leitor, que possibilite descobrir o erro que se refere ao processamento das sucessivas hipóteses e verificações assim como da sua inclusão numa compreensão global do que se lê. É uma atividade metacognitiva, de auto-evolução do leitor sobre o seu próprio processo de construção do sentido do texto lido, possibilitando adoptar como válida a informação recebida e, logo, continuar a leitura ou, caso contrário, abraçar algumas estratégias que lhe possibilitem refazer o processo para reconstruir o significado.
Também Rocher, Marcos e Heras (2004), organizaram um conjunto de agentes que explicam os erros de leitura. Eles podem derivar da ignorância do significado de uma palavra, de uma frase que pode possuir duas ou mais interpretações, ou ainda a informação que está contida no texto está para além dos conhecimentos prévios do leitor. Os bons leitores usam diferentes estratégias para lidar com as dificuldades encontradas, designadamente:
a) Menosprezar a incoerência - o leitor ignora o erro, menosprezando o elemento, não apreciando como necessário para a compreensão do texto; b) Suspender o juízo se o texto abarca informação que possibilite reorientar o
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c) Analisar explicações alternativas, repudiando as hipóteses formuladas anteriormente;
d) Recuar na leitura ou estudar partes do texto num esforço de localizar o elemento discordante. Este pode abranger a releitura de uma palavra, o contexto imediato, uma informação anterior, as marcas organizativas como o título, o início do parágrafo;
e) Procurar a solução no exterior do texto, ou seja procurar o seu significado nos dicionários, noutros livros, ou recorrendo a outras pessoas.
Os processos de controlo da compreensão auxiliam o leitor a verificar se atingiu de um modo eficaz o objectivo a que se propôs. Os processos citados anteriormente estão relacionados com a definição do objectivo da leitura, com a escolha de estratégias e com a averiguação da extinção em que os objectivos são compreendidos e com a articulação de medidas corretivas, caso seja necessário. Estes processos de controlo da compreensão são processos de natureza metacognitiva.
Alguns dos processos descritos são anteriores ao ato de ler, como o estabelecimento de objectivos da leitura que se pretende atingir, outros sucedem durante a leitura, como a escolha de estratégias e existem ainda outros que ocorrem no final da leitura.
O estabelecimento da meta reporta-se ao intuito da leitura, ou seja, o leitor sabe o motivo por que vai ler um determinado texto: se este tem um fim recreativo, se é para alguma preparação académica, ou se é para explicar algo que leu anteriormente. Tendo em conta o objectivo proposto, o leitor deve ativar as estratégias que o irão auxiliar até chegar ao objectivo proposto. Ou seja, quando o objectivo é ter uma ideia geral sobre o tema, basta centrar-se no título, nos desenhos, nos gráficos, nas partes destacadas no texto, etc.. Se por outro lado, o objectivo é retirar o sentido geral, devem usar-se estratégias como por exemplo: expor o texto lido por palavras suas, produzir um resumo, etc. Durante a leitura e no final desta, o leitor deve ativar o processo para confirmar se o objectivo inicial foi ou não atingido. No caso deste não ter sido atingido, devem usar-se estratégias corretivas para que o processo de compreensão continue (Heras, 2003; Montague, M. et al., 2011 ).
Deste modo, ao cuidarmos da componente de controlo da leitura é fundamental diferenciar os processos de natureza “automática” e “estratégia”, como indicara Sequeira
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(2000). Quando nos deparamos com um leitor experiente, as suas habilidades que lhe possibilitam descodificar e compreender são de natureza automática, a não ser que exista algum acontecimento que lhe desperte atenção para uma falha de compreensão. Embora este processo se efetue de uma forma harmoniosa, a construção do significado ocorre velozmente. Quando é descoberta uma falha de compreensão tem que adicionar-se um processo extra ao material que está a ler, sendo neste instante que falamos de leitura “estratégica”, isto porque torna-se fundamental usarmos mecanismos ou estratégias ativas e deliberadas para resolver a falha descoberta. No entanto, o processo de leitura concretiza-se, pois o leitor aplica tempo e esforço para ultrapassar o problema.
Para que consigamos apreender melhor a ligação entre os componentes de controlo (auto-regulação e auto-avaliação) na leitura é fundamental que tenhamos em consideração alguns factores, como por exemplo: as características do texto, a compatibilidade entre o conhecimento leitor e o conteúdo do texto e as estratégias ativas que o leitor usa para compreender o texto e resolver as suas falhas de compreensão. Estes factores adoptam a sua importância quando o leitor ultrapassa a etapa da descodificação. As estratégias de leitura também são muito importantes na compreensão dos textos lidos. Os leitores experientes orientam constantemente o processo de leitura avaliando a correção do processo e usando, quando descobrem falhas na compreensão, estratégias corretivas. O leitor ao avaliar a compreensão, consegue detectar quando existe um problema, que segundo o modelo de Flavell (1981, citado en Costa, 2004), equivale às experiencias metacognitivas. Estas provêm de factores como: o conhecimento inadequado, o texto mal estruturado ou dificuldades a prestar atenção ao conteúdo do texto. O autor supracitado refere-nos que estas experiências podem auxiliar os leitores a compreender as metas de leitura sempre que estas experiências provoquem um esforço adicional de compreensão. Sempre que o leitor detecta um problema ao nível da compreensão vai usar algumas estratégias corretivas para o resolver. Por exemplo: o leitor pode continuar a ler para observar se a informação seguinte o auxilia na compreensão, pode reler o parágrafo, pode utilizar o dicionário, etc. Porém, quando estas dificuldades derivam de material pouco organizado, o leitor deve aplicar outras estratégias, o que requer tempo e esforço da sua parte (Cálderon, 2003; Walpole & Mckenna, 2007)
Estas interações entre o texto e o leitor são pouco usadas pelos maus leitores e pelos leitores principiantes. Graner & Kraus (1981) e August, Flavell & Clift (1984) cit
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in Ribeiro (2005) falam-nos de alguns estudos, efetuados pelos mesmos, onde nos demonstram que estes leitores não conseguem descobrir os erros inseridos propositadamente no texto, tendo um leque de estratégias muito mais limitado quando os comparamos com os bons leitores. Para Sequeira (2000, p. 77) “a leitura requer, mais do que qualquer outra atividade linguística, tarefas de controlo cognitivo, visto que o leitor vai tentar através da análise do conhecimento da língua, reconstruir o significado da mensagem”.
Também Campione, Brown & Ferraro (1987, cit in Dias, 2012), referem que a metacompreensão abrange um conjunto de categorias que são essenciais: confrontar a informação nova com os seus conhecimentos adquiridos anteriormente, ter bem presentes os objectivos da leitura, supervisionar a aproximação dos objectivos propostos, descobrir os aspectos mais importantes do texto, descobrir dificuldades na compreensão, identificar as limitações próprias para compreender, ter agilidade na aplicação de estratégias, avaliar os resultados recolhidos e avaliar a afectividade das estratégias usadas.
As estratégias mais utilizadas que interferem no processo da leitura são:
a) As estratégias técnicas do estudo – abrangem um conjunto de atividades que auxiliam o leitor a evidenciar a sua atenção nos aspectos mais importantes do material escrito e fomentam a memorização da informação abarcando: tomar notas textuais, parafrasear, fazer ressair as partes mais importantes, condensar a informação e reler o escrito quando necessário;
b) As estratégias cognitivas – definem-se como o modo de sequenciar as ações utilizando os seus recursos cognitivos e as questões de leitura para orientar o seu próprio pensamento;
c) As estratégias afectivas – para que se realize uma aprendizagem efetiva é fundamental que exista um ambiente interno e externo adequado a uma postura positiva face à aprendizagem, extinguir as distrações para conseguir concentração, automatização e domínio da ansiedade, e motivar para a tarefa a desempenhar;
d) As estratégias metacognitivas edificadas pela autorregulação e utilização consciente das técnicas de estudo, afectivas e cognitivas (Gonçalves, 2008).